The French Dispatch (2021)

de Pedro Ginja

Epílogo

Era uma linda manhã de inverno (Sim, o inverno chegou a Lisboa) e um dia de greve no metro, com confusão geral no trânsito de Lisboa. Este vosso enviado especial foi em missão, ou melhor diria, em peregrinação, partindo a pé com o destino traçado, num caminho longo até à terra prometida, de nome Ennui-Sur-Blasé. Estamos a entrar em território singular; o mundo segundo Wes Anderson. O lugar dos convertidos está assegurado e o dos céticos está pendente mas promete discussão. Prontos a começar?

The French Dispatch of the Liberty, Kansas Evening Sun, é inspirado no amor de Wes Anderson por jornalismo, mais precisamente à revista The New Yorker sendo que algumas das histórias são retiradas de antigos excertos da revista. Como disse à publicação Charente Libre em 2019, este filme não é sobre a liberdade de imprensa mas sim sobre o que se passa no mundo e a importância dos jornalistas em relatar a verdade.

Diário de Viagem – Ennui-Sur-Blasé

Que nome é este? Onde se localiza? O que atraí o visitante a este local?

Ennui-Sur-Blasé é uma cidade de França, criada por Wes Anderson, na qual se passa toda a intriga deste filme. Os seus habitantes são da mais variada espécie, como Herbsaint Sazerac (Owen Wilson – sempre a ser Owen Wilson) nos retrata. O seu timing na comédia é impecável e começa o filme da melhor maneira, destacando a grande precisão nas estatísticas da cidade (o número de flocos de neve caídos é especialmente relevante), e introduzindo o desfile de estrelas desta longa-metragem. O seu tempo de permanência é curto e deixa aquele amargo na boca, mas a nossa atenção salta imediatamente para a próxima história.

História 1 – “The Concrete Masterpiece” by J.K.L. Berensen

Não há tempo para respirar pois de repente estamos nas mãos de J.K.L Berensen (Tilda Swinton – não menos hilariante que Owen Wilson), que conta a história de um artista de nome, Moses Rosenthaler (Benicio Del Toro), descoberto por Julian Cadazio (Adrien Brody) durante a sua breve passagem pela prisão. A sua nova missão é tornar Moses o mais famoso pintor de todos os tempos, mesmo que por trás das grades. Missão impossível? Nada é impossível para Julian Cadazio. A musa de Moses é Simone (Léa Seydoux), uma guarda prisional com um olhar glacial. Sorrisos não moram aqui. Existem cameos deliciosos mas os tios Cadazio ganham o prémio. Esta é a história mais completa, original e também a que rouba mais gargalhadas, com uma forte aposta de Wes Anderson no humor desta primeira narrativa.

História 2 – “Revisions to a Manifesto” by Lucinda Krementz

A homenagem aos filmes franceses revolucionários de 1960 no tempo da Nouvelle Vague mora nesta segunda história contada por Lucinda Krementz (Frances Mcdormand – como sempre, intensa em tudo o que faz) a quem não se cansam de lembrar que está sozinha. Em pleno ambiente de revolução temos o seu arquiteto Zeffirelli (Timothée Chalamet, que parece estar em todo o lado) e o seu braço direito, Juliette (Lyna Khoudri). Os jovens querem ser ouvidos e torna-se necessário um manifesto para a revolução, logo, é exigido uma mudança urgente e essa urgência leva a soluções poéticas e românticas. Zeffirelli sofre desse mal, como o eterno idealista sem objetividade, encontrando essa em Lucinda. Esta é a história mais séria e romântica da longa-metragem mas também a menos conseguida das três (ainda assim, muito longe de ser má). Apesar da direção de fotografia a preto e branco estar presente em todos os segmentos, é nesta que parece mais verdadeira. Existe individualidade em cada história mas há a criação de pontes que unem o filme num todo, como por exemplo a partilha das referências cinematográficas de Wes Anderson, que se destacam visualmente em Revisions to a Manifesto.

História 3 – “The Private Dining Room of the Police Commissioner” by Roebuck Wrigh

Na terceira – e última – história, a voz de comando é Roebuck Wright (Jeffrey Wright – austero, competente e único), um jornalista com memória prodigiosa que relembra o conto de um chefe de cozinha, Nescaffier (Steve Park – com o melhor nome do filme mas pouco com que trabalhar além da caricatura) e as ocorrências do rapto do filho do comissário (Mathieu Amalric – sem nome mas com uma interpretação comovente de amor e determinação). Os melhores set-pieces estão neste último segmento, onde Wes Anderson entra em modo mais experimental nas técnicas fílmicas usadas. O desfile de estrelas em pequenos papéis explode nesta narrativa, funcionado, também, como uma forma de homenagem da comunidade de atores a um realizador único. Nem sempre parece fazer total sentido, mas o nível de pormenor e dedicação é tão grande que não há como não confiar e acreditar em tudo o que sucede.

End Notes

O mestre-de-cerimónias é o “muso” de Wes Anderson, Bill Murray (Arthur Howitzer Jr – até o nome é mais inspirador) como diretor do jornal “The French Dispatch”. Um protetor da escrita, do jornalismo e de fazer o que está certo, mesmo que isso implique mais alguns custos. O filme recorda constantemente que integridade paga-se caro mas é o único caminho possível num mundo cada vez menos íntegro. Esta personagem precisava do gravitas de Murray, e ele habita o papel com o semblante severo característico, mantendo o seu nível habitual de comédia. Nos pequenos interlúdios entre as histórias, a equipa de Arthur mostra os meandros dos bastidores de uma redação jornalística, como uma verdadeira família, assim como aparentam ser os elencos do realizador.

Apesar da narrativa fragmentada, este é um filme com uma mensagem clara. O jornalismo íntegro está em processo de rotura e os constantes ataques à imprensa e à sua liberdade são um sinal de alerta, sendo preciso continuar a incomodar e a dizer as verdades; este é o protagonista de cada fotograma. É difícil manter o olhar em apenas uma parte da tela pois as homenagens ao cinema prosperam, tal como as técnicas fílmicas e o trabalho de cenografia e fotografia portentoso. Não queremos que o filme acabe mas o fim chega, e com ele a promessa de que há mais histórias para contar. Com Wes Anderson no comando, é impossível não serem memoráveis. Venha o próximo!

Do vosso enviado especial a Ennui-Sur-Blasé
Atenciosamente,
Pedro Ginja

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