The Exorcist: Believer (2023)

de Bruno Sant'Anna

The Exorcist (1973) é verdadeiramente um clássico, não apenas do género de terror, mas do cinema como um todo. Sua atemporalidade pode ser atribuída à maestria do argumento de William Peter Blatty, que mergulha os espectadores numa situação complexa ao inserir um caso de possessão demoníaca num cenário realista, próximo ao nosso quotidiano. A narrativa apresenta-nos personagens céticas e com a fé abalada na igreja católica, forçando-os a confrontar o inexplicável e o sobrenatural. Todos os elementos do filme são um testemunho de excelência, desde a escolha do elenco até a grandiosa realização do saudoso William Friedkin, os impressionantes efeitos práticos, a maquilhagem e a banda sonora icónica de Jack Nitzsche.

Por causa do sucesso estrondoso de crítica e de bilheteria, The Exorcist foi acometido pela maldição dos estúdios hollywoodianos de transformar o filme num franchise, com filmes que vão de fracos para desastres tão retumbantes que mancham a reputação do original, como é o caso de The Exorcist II: The Heretic (1977). É inevitável: grandes empresas objetivam sempre o lucro, não importa o quanto isso possa esvaziar o conteúdo do seu produto. Atualmente, há uma moda de atualizar clássicos do cinema em forma de sequências, re-imaginações ou até histórias de origem, mas, não se enganem, todo esse movimento é uma demonstração da falta de criatividade crítica da indústria cinematográfica norte-americana e da sua ganância por dinheiro.

Quando The Exorcist: Believer foi anunciado, não veio sozinho. Originalmente propriedade da Warner, agora os direitos da história foram comprados pela produtora Bloomhouse em parceria com a distribuidora Universal Pictures, que anunciaram não só uma, mas três longas-metragens sobre The Exorcist. A ideia inicial era fazer um reboot em forma de trilogia, porém os fãs do original protestaram tão fervorosamente contra esse plano que os produtores decidiram optar por sequências que se passam 50 anos após os eventos do primeiro filme. Os responsáveis pelo projeto são David Gordon Green na realização e Danny McBride no argumento, junto com Scott Teems, o que já era um mau sinal devido aos seus envolvimentos em obras como a nova trilogia mais recente de Halloween (2018 – 2022) e alguns filmes da franquia Insidious (2010 – 2023).

Infelizmente, a história repete-se: The Exorcist: Believer é um filme que vive na sombra do primeiro mas sem ter qualidade suficiente por si só. A narrativa acompanha duas raparigas (interpretadas por Lidya Jewett e Olivia Marcum) que desaparecem na floresta e voltam três dias depois machucadas e sem memória do que aconteceu durante esse período. Os seus pais apercebem-se dos comportamentos estranhos das crianças e rapidamente descobrem que é um caso de possessão demoníaca, pedindo auxílio a alguém que já passou por isto antes: Chris MacNeil (Ellen Burstyn). O filme até é intrigante na primeira parte, mas carece de substância na metade e na conclusão do filme. É um argumento muito apelativo mas com falta de originalidade, tanto que não há cenas de diálogos entre as personagens possuídas com outras pessoas, pois as únicas coisas que elas dizem são falas icónicas recicladas do original.

A presença da Ellen Burstyn de volta ao seu papel como Chris McNeil é apenas para chamar a atenção do público, pois não tem nenhuma importância para a narrativa. A mãe da menina Regan (possuída pelo demónio no original de 1973) tornou-se numa estudiosa de exorcismos e toda a sua curta participação resume-se a esse facto, cuja personagem faz questão de repetir constantemente. Admiro-me que Burstyn – atriz extraordinária e com uma carreia espetacular – tenha aceite participar neste filme.

É estarrecedor o quanto realizadores e argumentistas podem ver e estudar uma longa-metragem com tantos ensinamentos cinematográficos e não conseguem, pelo menos, reproduzir algo mais competente. O questionamento sobre a fé e o ceticismo das pessoas envolvidas com o caso da possessão, dá lugar a uma propaganda cristã mal desenvolvida. Aliás, a cena do exorcismo em si roça o cómico, com um bando de pessoas sem conhecimento algum a tentar expurgar os demónios das meninas possuídas. Só não perdem para os espíritos possessores, pois os mesmos são tão genéricos e caricaturais que chegam a ser uma piada de mau gosto perto do que Pazuzu foi.

The Exorcist: Believer é uma obra que não se segura por si. Se formos analisá-la como instalação individual, é fraca, com muitas personagens desnecessárias, um clímax mal desenvolvido e uma conclusão exageradamente emocional. Ao lado de The Exorcist é definitivamente desnecessária a sua existência, já que nem arranha a superfície da excelência artística do original em nenhum requisito, usando apenas todas as suas qualidades técnicas para contar uma história menos interessante.

Serão ainda lançados dois filmes que darão sequência a esta história, um em 2025 e outro sem data confirmada.

2/5
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The First Omen (2024) - Fio Condutor 18 de Abril, 2024 - 22:33

[…] como Halloween (1980) ou The Exorcist (1973) – Nem Deus consegue perdoar-te por The Exorcist: Believer (2023), David Gordon Green –; ocasionalmente divertidas com uma ténue promessa de qualidade mas […]

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