The Black Phone (2022)

de Antony Sousa

Finney (Mason Thames) é um miúdo de 13 anos que sofre de bullying e partilha com a sua irmã, Gwen (Madeleine McGraw), o fardo de, como Finney refere várias vezes, “cuidar” do pai Terrance (Jeremy Davies), um homem alcoólico agressivo com os seus filhos. Um dia, Finney é sequestrado pelo serial killer, conhecido como The Grabber (Ethan Hawke), que vem assolando a cidade. O rapaz é preso numa cave, com o tempo de vida limitado pela vontade sádica do assassino. De repente, um telefone desconectado toca, criando uma aliança sobrenatural que procura evitar que o número de vítimas de The Grabber aumente.

Como acontece com muitos filmes considerados de terror e vendidos com esse rótulo, The Black Phone não é propriamente um filme assustador, capaz de nos fazer questionar se não valerá a pena regressar às noites de luz acesa, não vá o diabo tecê-las. É uma mensagem clara, forte e pessoal de superação, verdadeira coragem e crescimento. No entanto, é de referir que os poucos jumpscares existentes são eficazes, pois são utilizados de forma escassa, impedindo a audiência de estar à espera destes, o que no fundo é o maior segredo para um bom jumpscare.

Mason Thames é uma revelação, e a sua vida vai mudar rapidamente com a distribuição mundial deste filme. Não há um momento em que não estejamos do seu lado a pensar na melhor forma de o ajudar, mesmo antes do rapto. Isto é mérito de um argumento inteligente, no que diz respeito ao lado emocional e humano, da direcção comandada por Scott Derrickson, e do talento de Mason como actor, que apesar da sua pouquíssima experiência e do cenário de tensão constante, com cenas muito intensas, representa sem exageros. Quem complementa a personagem de Finney e aumenta o interesse pelo seu destino é a sua irmã, Gwen, que se destaca através de uma introdução pré-sequestro, que lentamente expõe a audiência aos crimes que sucedem, mas principalmente às motivações das crianças e às suas relações. Uma merecida menção honrosa para Madeleine McGraw, que apesar de ainda estar em plena aprendizagem e se notar algum desequilíbrio entre as cenas com as quais se sente mais confortável, e as que lhe são menos, contribui para a irmandade comovente que nos aproxima da história. Essa é uma das grandes vitórias do argumento.

No meio disto, existe porventura o maior motivo de curiosidade à priori de The Black Phone, Ethan Hawke. O actor é tão criativo como The Grabber que, de certa forma, quase joga contra ele próprio, porque cria vontade de ver outro filme com a perspectiva desta personagem, fora do contexto da cave onde está sempre mascarado e mais secundário. As várias versões de máscaras apresentadas são praticamente uma personagem por si só; muitas vezes acabam por ser factores de distracção ou algo demasiado semelhante a exemplares de outros filmes, mas o seu uso nesta história, surge com o elemento surpresa de aparecer com diferentes partes da face descobertas, que permitem a Mr. Hawke descobrir entregas imprevisíveis do seu diálogo, no recreio dos grandes actores.

Nem todas as personagens são essenciais ou bem pensadas; a caminho do final existe uma estranha adição à história que faz mesmo questionar qual o objectivo de acrescentar cenas que parecem ser de outro contexto, retirando até alguma credibilidade ao que havia sido anteriormente construído. O final é agridoce e não oferece nada de novo, mas é coerente com a verdadeira motivação por detrás do filme. Apesar de uma realização cuidada, uma boa edição e uma banda sonora que encaixa no mood de cada momento, fica a pecha de não ter concluído todo o crescendo bem montado com um clímax à altura.

The Black Phone é um dos bons filmes dos últimos tempos, dentro do género de thriller psicológico. Tem elementos sobrenaturais, que nunca são explicados (podem já retirar isso das expectativas), e uma forte estrutura emocional que cativa. Merece a atenção dos apreciadores do mundo de terror e associados.

3.5/5
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