The Batman (2022)

de Rúben Faria

No caminho certo

Com mais uma incarnação de uma das personagens mais icónicas da história da cultura pop, a questão que se impõe é a necessidade de mais um reboot que pode vir apenas para confundir a cabeça do público mais passageiro. No entanto, parece estar aqui o início de uma nova trilogia que procura desbravar alguns caminhos deste herói que ainda não foram explorados no mundo cinematográfico.

The Batman é a nova história do mítico cavaleiro das trevas, realizada e escrita por Matt Reeves, responsável por Cloverfield (2008) e War for the Planet of the Apes (2017). Desta vez, um Batman com apenas dois anos de existência e um Bruce Wayne ainda muito ingénuo são interpretados por um Robert Pattinson no seu mais emo possível, que se vê enrolado numa teia de crimes e conspirações em série, pela mão de um enigmático e perturbador Riddler, incorporado por Paul Dano.

É muito aparente a amálgama de inspirações e referências que Reeves deliberadamente adotou para esta obra, com vista em explorar o lado mais investigador de Batman, e assim mergulhar no film noir como suporte estrutural. Seven (1995), Chinatown (1974) e Zodiac (2007) são as mais evidentes, com este último a ser bastante responsável para a representação de Riddler. Também existe um elemento de Saw (2004) e homenagens a anteriores filmes do próprio Batman, bem como influência – maioritariamente visual – de Daredevil (2015-2018).

Este novo e original enredo de Batman procura dar uma versão realista e plausível do herói, mas pincelada com um ambiente gótico, místico e romantizado. Claramente quis-se fugir à já desgastada origem do personagem, mas ainda assim explorar os primórdios do Morcego. O que nos é apresentado é um Bruce completamente mergulhado na escuridão metafórica da sua identidade física dos cantos escuros da cidade. É um Bruce que acredita que precisa de ser um mito assustador de forma a ser eficaz na sua luta contra o crime, mas totalmente ingénuo para com o mundo que o rodeia e as consequências desta sua mentalidade, tanto para ele próprio como para os que o rodeiam.

O mais evidente é a existência de um arco bem definido – e clássico – para o herói. É caminhado o percurso da escuridão para a luz, do autodestrutivo para a esperança coletiva, do vigilante vingativo para o herói. Toda esta luta é representada assertivamente de forma visual. É um filme que fala através da iluminação, da cor e dos seus incríveis enquadramentos fotográficos. O uso da penumbra, e dessa dança entre o negro e a luz, é um veículo para transmitir as suas intenções morais e temáticas, traz várias camadas cativantes a um “simples” filme de super-heróis.

Como qualquer bom vilão do Batman, Riddler revela-se aqui como um espelho de Bruce e como ponto de referência para o mesmo fazer uma introspeção e perceber o herói que tem de ser para conseguir trazer uma ajuda real a Gotham. Todo este arco é delineado num argumento que alinha este filme como um thriller de crime, apenas focado em tentar fazer justiça à alcunha de “Melhor Detetive do Mundo” que há anos caracteriza o herói vestido de morcego. Na verdade, consegue este feito quase na perfeição, até à chegada do seu terceiro ato (parecendo-se mais com um quarto ato), que se prova desnecessário e traz a sensação de que o estúdio forçou um clímax mais extravagante, com a típica ação bombástica de um blockbuster.

Claro está que a atenção vai para a performance de Robert Pattinson no icónico fato do morcego, não desiludindo em nenhum aspeto. Pattinson entrega um Bruce Wayne nunca antes visto: muito silencioso, pessimista e dramático. Com um aspeto e personalidade extremamente melancólicos, este Bruce Wayne não usa a persona de playboy social seja para benefício da sua luta contra o crime ou para afastar o público da sua verdadeira identidade. Vemos antes um Bruce autoexcluído do mundo e viciado em vestir a pele de Batman para poder espancar inimigos em nome de apaziguar a sua raiva, autodenominando-se de “Vingança” e providenciando a Pattinson a oportunidade de exibir a sua interpretação muito tempo dentro da máscara. Vai também uma menção para o resto do elenco, que se mostra capaz de respeitar as origens das personagens, mas trazendo uma lufada de ar fresco às mesmas, em especial Colin Farrell como Penguin, que é uma delícia de ver.

Também se provou interessante a cidade de Gotham, que consegue ter uma voz própria e sentir-se viva, com influência de arquitetura gótica, um ambiente denso e uma estética negra, mas sem nunca perder a sensação de cidade moderna reconhecível. Tudo isto é graças a um filme tecnicamente inacreditável. A fotografia – apesar de um pouco pretensiosa ao parecer que quer forçar a beleza visual – é realmente bonita e, sem sombra de dúvidas, a melhor de todos os filmes do Batman. A banda sonora, composta por Michael Giacchino, é rainha do espetáculo, com inspirações na música clássica e dona de uma postura poética, assustadora e trágica. Junta-se a isso um excelente uso da Something in the Way dos Nirvana, e um ainda mais impecável uso da assombrosa Ave Maria.

The Batman é um filme muito melódico, tanto musical como visualmente, trazendo estilo à já apresentada substância, algo que The Dark Knight (2008) não conseguiu de forma tão evidente. No entanto, The Batman não deixa uma marca tão forte na história do cinema como o segundo filme da trilogia de Nolan. É mais óbvio e explícito do que The Dark Knight, nos seus simbolismos e temáticas, mesmo com o último a ter a típica exposição verbal do realizador de Inception (2010). Toda a estrutura deste novo filme encaixa na perfeição no lado detetive de Batman, mas de alguma forma parece que não nos deixa nadar em águas profundas o suficiente a nível temático e intelectual, sentimental ou psicológico. Nota-se que é moralmente menos complexo que The Dark Knight, ao traçar uma linha muito bem definida entre o bem e o mal, ao contrário do clássico de Nolan, que questionava constantemente qualquer decisão ética.

A conclusão pertinente está enraizada num campo muito mais subjetivo. O filme é muito forte tecnicamente, mas não conquista o lugar no trono do panteão máximo do cinema de banda desenhada, quanto mais no cinema em geral. É, no entanto, um excelente filme, principalmente para super-heróis. É único, com uma clara diferença para a fornada de entradas que temos tido no género. Pode dizer-se que é um filme que não merecemos como audiência de super-heróis, mas é aquele que precisamos neste momento.

4/5
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