Terrifier 2 (2022)

de Pedro Ginja

Os palhaços fazem parte do imaginário de qualquer criança. Era habitual vê-los nas anuais visitas ao circo, durante o período de Natal, em que faziam as tradicionais “palhaçadas” para nos fazer rir. No final dos anos 80 começaram a surgir filmes de terror em que eram os protagonistas, como Killer Klowns from Outer Space (1988), um dos clássicos de culto do gore horror. Em 1990 surge IT, como uma série de TV, e Pennywise é introduzido ao mundo, cimentando o estatuto do palhaço como vilão de excelência, mas sempre de um modo reduzido e para um público muito específico. Damien Leone foi um desses acólitos e reforça este estatuto de culto nos últimos anos com a curta-metragem, Terrifier (2011) e as longas-metragens, All Hallow’s Eve (2013) e Terrifier (2016). Este fenómeno acabou por culminar no êxito estrondoso do remake de IT (2017), de Andy Muschietti, trazendo finalmente o palhaço como vilão, ao espectador comum. Em 2022 chega-nos Terrifier 2 e Damien Leone continua interessado em expandir o fenómeno, começado em 2011, e a fazer das tripas coração para nos trazer terror, comédia e sangue com fartura.

Art, o palhaço, regressa, como é óbvio, para a sequela (da sequela), ressuscitado (mais uma vez) por uma suposta entidade malévola, segundo dizem. Miles County é novamente o destino de Art (David Thornton) com o intuito de aumentar o seu body count de adolescentes, durante o dia ideal para passar despercebido, o Halloween (shocker).

A primeira sensação é de dejá-vu, mas com um twist. Com cada sequela a ambição de Damien Leone cresce e com isso a possibilidade de crescimento do universo Terrifier é agora mais auspiciosa. Parece, quase, a sua missão levar Art ao maior número de pessoas possíveis, e os limites do que é preciso para o conseguir são testados ao limite neste filme. De um seguimento, que já vem de All Hallow’s Eve (2013), temos um maior orçamento que permite melhorar a qualidade dos efeitos mas sem deixar a imagem de marca da saga, de fazer tudo sem efeitos de computador. Tudo continua muito orgânico e artesanal, e por isso mesmo muito realista, transportando este universo, cada vez mais, para aquele lugar de estar a ver algo demasiado próximo da realidade para o nosso (meu) gosto.

Tudo é potenciado para níveis insanos de violência, que ficam no ecrã mais tempo do que deviam. As sequências de assassinatos de Art atingem níveis de grafismo difíceis de suportar para os sensíveis e aconselho entrar nesta visualização de estômago vazio se estiverem incluídos neste grupo; uma frase que deverá atrair tanto os fãs dos anteriores como assustar o comum dos espectadores de cinema. O estilo mantem-se consistente, um gore com abundantes laivos de slasher, mas a ambição de expandir a história retirou-lhe algum impacto por se estender demasiado (com uma duração de mais de 2h) e teria beneficiado de algum corte e costura na edição.

Art é a estrela do filme e a única razão de isto funcionar. Aterrador, sinistro e com um timing cómico perfeito, a relembrar um Jim Carrey sádico dos tempos do cinema mudo. A decisão, deveras inteligente, de o manter em absoluto silêncio, mesmo quando sofre danos consideráveis, é a principal razão de ser o mais assustador vilão da última década, pelo menos na categoria dos palhaços. De resto é um deserto no elenco, em que as vítimas, elas dependentes do “som”, estão sujeitas a um argumento com diálogos de qualidade duvidosa e em constante over-acting (os decibéis dos gritos são outro factor bastante irritante). A excepção reside em Sienna (Lauren LaVera), com um investimento claro do argumento em retratá-la como a mulher que enfrenta a maldade pura de Art com coragem – a “ultimate badass”. Consegue-o fruto de alguma contenção, ao contrário do restante elenco, e de perceber que é impossível suplantar o carisma de uma personagem tão marcante como Art, o palhaço. Um foco mais forte na comédia de terror é outra das grandes apostas desta sequela, mas acaba por ser esquecida no capítulo final, o que o torna especialmente difícil de digerir na sua conclusão.

Damien Leone reforça o estatuto de culto de Art e expande o universo Terrifier sem nunca perder de vista a essência do que o torna único no panorama do terror de culto. Continua é a ser à custa de um argumento mais retalhado do que as suas vítimas e também a uma constante necessidade de chocar para assustar. Mas se calhar é isso mesmo o objectivo principal de um clássico do slasher/gore, não?

2.5/5
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