Ted Lasso – 1ª Temporada (2020-)

de Antony Sousa

Para qualquer série funcionar é preciso criarmos uma relação com as personagens que se assemelha em tudo com amizade, preocupamo-nos com elas, queremos saber novidadesdas suas vidas, ficamos felizes nos momentos áureos e queremos confortá-las nas fases más. Ted Lasso contém todos os ingredientes para inspirar essa ligação com pessoas que não existem, mas que estão no nosso coração e na nossa memória para lá do final do último capítulo, pelo menos neste caso o último capítulo da primeira temporada.

Ted Lasso (Jason Sudeikis), um treinador de futebol americano com pouca expressão no seu país é contratado para orientar uma equipa de futebol da premier league inglesa. Cedo percebemos que algo não bate certo nesta opção de Rebecca Welton (Hannah Waddingham), a nova dona do clube, porque rapidamente se instala em nós a certeza de que Ted sabe tanto de futebol como eu sei de basebol (alguém me sabe dizer se quando alguém faz um home run acaba o jogo como no quidditch? 150 pontos e vão todos beber cerveja de manteiga?).

Se esperam ver um retrato fiel do dia a dia de uma equipa de futebol da premier league inglesa não percam tempo, vejam antes a série documental All or Nothing: Tottenham Hotspur (2020) para assistir a conversas exclusivas de José Mourinho. Mas se querem ser entretidos enquanto vos chegam ao coração e vos abraçam, Ted Lasso é para ver hoje, não é para agendar. Apesar de ter uma premissa que parece apontar para algo absurdo e mais previsível, a realidade que nos é apresentada nos 10 episódios desta primeira temporada é bastante diferente. Recebemos um banho de energia positiva, uma lição de humanidade, um recital de liderança saudável, e uma goleada de empatia com o desenrolar do enredo e a resiliência de Ted no seu contagiante optimismo, que mesmo roçando a ingenuidade consegue permanecer credível porque contém uma crença inabalável numa ideologia sustentada em sabedoria discreta.

Jason Sudeikis, ou seja Ted, é o líder da equipa e o “boss” da bondade, a pessoa que queres na tua vida, que não é livre de cometer erros, de passar pelas amarguras da dor e ansiedade, mas que não vacila nos seus princípios. É o homem que escolhe ver o melhor do outro e da vida, mas que não se deixa atropelar pela ingenuidade, gere com inteligência as baixas expectativas que a sua forma de estar provoca num mundo obcecado por uma e só versão de sucesso. É difícil dissociar Mr. Sudeikis de Mister Lasso, já que a genuinidade no seu Ted é tão evidente que se torna impossível imaginar o actor como alguém que fuja muito do que vemos aqui.

O restante elenco é a perfeita extensão e o complemento necessário para fazer a dinâmica da série funcionar. Brett Roldstein brilha como Roy Kent, o capitão que não sorri e que está em final de carreira, Hannah Waddingham é a antagonista mais humana que podia ser criada, Brendan Hunt é hilariante com o seu Coach Beard, que oferece muito do humor nonsense pontual que vemos na série, Keeley, interpretada por Juno Temple, dá uma forte contribuição para a face mais emocional da história, e Nick Mohammed é o roupeiro Nathan, o underdog invisível que representa o potencial surpreendente daqueles que menosprezamos por estarem no fundo da hierarquia.

Mia Couto disse em 2015 aquando do discurso referente ao título Doutor Honoris Causa atribuído pela universidade politécnica de Maputo que “é preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros. Histórias em que o herói não é o lambe-botas, nem o chico-esperto.”, e Ted Lasso é a personificação deste pedido perspicaz. É uma masterclass de comédia refinada (porque afinal de contas, é uma comédia), o humor não é desconcertante mas é muito consistente, de mãos dadas com a inquietude de nos fazer pensar em quem somos e quem valorizamos nas nossas vidas. Se isto não é arte em serviço da vida… depois de me explicarem como é que conquista um ponto no basebol, expliquem-me como é que a arte pode servir a vida de forma mais certeira.

O mundo precisa de Ted Lasso, mais do que nunca, é a lufada de ar fresco que tem o potencial para se tornar num clássico, assim persista na sua intenção corajosa de não sucumbir a clichês, e em não se esquecer de nos fazer rir pelo caminho.

4.5/5
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