Suspensão (2020)

de João Iria

Umas chaves, um jarro com flores a murchar e o zumbido de um enxame de moscas a flutuar por cima de um homem deitado numa cama. Os seus traços a rodear este como rabiscos de pensamentos penosos, repetitivos e frustrados com um som intenso do bater das suas asas que ensurdece e retira qualquer forma de paz à personagem ou a este ambiente vazio, até capturar os insetos com a sua mão e prender estes no punho, fixando o olhar expressivo e detalhado nestas irritantes criaturas, enquanto tentam fugir.

Dentro do espaço de um minuto, compreendemos a frustração de estar preso a um momento, a uma mão e à indefinição. O zumbido permanece como ASMR de terror existencial. Nesta curta-metragem, um jovem triste e contido, deitado numa cama, encontra-se fechado num ciclo de indecisão, confinado em exaustão e hesitação, enquanto outro homem, sentado à janela, troca olhares com o jovem e de seguida observa as ruas, refazendo este processo sem parar. A premissa de Suspensão reside nesta atmosfera entre o tempo, espaço e posições chave de decisões suspensas pelo ambiente e movimento, num ciclo infinito de possibilidades e inação.

A realização de Luís Soares insere uma intensidade explosiva na excelente animação, como uma bomba cronometrada, que beneficia de um estilo minimalista, semelhante a storyboards em movimento durante a produção, com os corpos límpidos e descarregados, vazios por natureza, prestes a implodir a qualquer momento na execução de um pensamento em ação. Pertence tudo a um único instante repetido várias vezes na incerteza, demonstrando como estamos num limbo apocalíptico de decisões, escolhas e múltiplas possibilidades numa única passagem. Através da banda sonora de Luís Soares e António Porém Pires (responsável também pela sonoplastia e mistura de som) elabora-se um clima incomodativo, como se as moscas persistissem em voar constantemente por cima das nossas cabeças, mesmo após a sua captura. O crescendo sonoro aumenta como um tumor implantado no canal auditivo, enchendo a mente como um balão translúcido que ultrapassou o seu prazo de resistência terminal.

Suspensão é uma história cativante sobre um ciclo de recorrência e a ansiedade do poder de decisão; por mais pequeno que este seja, funciona sempre como um loop de alternativas infinitas e opções que algemam um indivíduo a uma cadeira, ou a uma cama ou até a um carro, suspenso no mundo pelo futuro. A excelente equipa técnica concebe uma complexidade de conceitos alegóricos em formato de animação com visuais hipnóticos e engenhosos, dentro de um curto espaço de tempo, oferecendo uma sensação apavorante, onde os nossos traços são permanentes, recordando-nos constantemente do antes e do depois, nas nossas vidas. Este é um buraco existencial que se repete incessantemente como um relógio onde o tic tac é substituído pelo bater das asas de insetos, o motor de um carro e os passos de uma pessoa, prendendo a audiência ao tempo e ao pensamento, enquanto aguardamos que esta mão nos liberte e possamos regressar a voar com uma autonomia ingénua como antigamente, ainda que seja tarde demais e inconscientemente estejamos atualmente cientes da nossa prisão.

4/5

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