Sundown (2022)

de Pedro Ginja

A família é algo muito importante na nossa vida. É no seu seio que nos formamos como pessoas e nos tornamos em quem somos para os outros, para o bem ou para o mal. São o nosso primeiro contacto com o mundo, em criança protegidos como numa “bolha” fechada e lentamente “libertados” para enfrentar o mundo real, mas acabam por ser o nosso porto de abrigo quando algo corre mal. Há uma espécie de “amarra invisível” que nos une e, ao mesmo tempo, nos prende a estas pessoas com as quais passamos muito tempo e no qual se forma um código de honra e dever. É sobre a família Bennett, uma igual a tantas outras, que recai a história deste filme, e de como nunca conhecemos alguém realmente, mesmo quem está perto de nós 24h por dia.

Michel Franco realiza Crepúsculo (título em português), a sua 7ª longa-metragem, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza em 2021. Acompanha Neil (Tim Roth) e a restante família Bennett numas férias luxuosas em Acapulco, México. Após a morte de um ente querido, a família regressa ao Reino Unido para tratar do funeral, mas Neil abandona-os no aeroporto e continua de férias no México. As razões são desconhecidas mas acabam por criar um fosso muito difícil de superar nas relações familiares e no futuro da família Bennett. 

O desconhecido acompanha-nos desde o primeiro segundo do filme, não havendo grandes explicações de quem é esta família fora deste período. Neil aparenta estar em sintonia familiar nas acções, mas o seu olhar diz algo diferente, e após a tragédia que assolou as suas férias já não consegue fingir mais. Este é um sentimento que atravessa todo o filme por nunca sabermos o que vem a seguir. Quando pensamos saber, Michel Franco e o seu argumento conseguem sempre surpreender. Crepúsculo reflecte também sobre o actual estado do México, com referências ao crime violento e errático, o estado das prisões e dos prisioneiros e, claro, as grandes divisões sociais entre os muito ricos e os muito pobres. 

Tudo isto parece secundário quando comparado com Tim Roth, sempre em primeiro plano e presente nos seus 82 minutos de duração. Neil Bennett não é, de todo, o tradicional herói ou alguém por quem a audiência torce, mas sim um homem apático, triste, de olhar vazio e sem objectivos além de viver a sua vida longe de preocupações. Um egoísta em busca do prazer que Tim Roth consegue rodear de uma aura de ambiguidade e assim dar ao espectador o benefício da dúvida ou da possibilidade de uma eventual redenção. Com uma interpretação tão dominante é normal as restantes estarem subaproveitadas, com Charlotte Gainsbourg a única com a possibilidade de criar uma personagem para além de uma caricatura, mas o tempo no ecrã é demasiado pequeno para deixar marca. Pequena referência também para Iazua Larios, no papel de Berenice, que subverte o clichê da mulher em busca de dinheiro fácil com um homem mais velho, questionando também os nossos preconceitos.

Assim como a vida Crepúsculo leva-nos por caminhos inesperados e indesejados, aqui sempre com Tim Roth – com quem nem sempre queremos estar – e consegue criar um retrato do México actual e de alguns dos seus problemas sem generalizações banais. Económico em termos de tempo mas complexo na história e emoções de um homem em busca de si próprio mas sem saber onde se encontrar, é nessa incerteza e luta que o espectador consegue perceber Neil e, acima de tudo, o que Michel Franco quer mostrar. 

4/5
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