Sopa Fria (2023)

de Pedro Ginja

Sopa Fria, de Marta Monteiro, fala das recordações do passado de uma mulher vítima de violência doméstica durante inúmeros anos, e dos sentimentos experienciados durante a sua vida familiar. Conhecendo a premissa desta curta-metragem de animação é urgente recordar algo que é uma realidade há mais de 20 anos no nosso país: desde 1999 que o crime de violência doméstica é um crime público em Portugal e, por isso, passível de ser apresentado às autoridades sem o conhecimento da própria vítima.

Ora nunca sabendo a data a que os crimes revelados em Sopa Fria reportam, é seguro afirmar que esta mulher, que os confessa, não teve a proteção da sociedade que necessitava. E o argumento de Marta Monteiro não se coíbe de nos mostrar a face da violência doméstica na sua totalidade. Não se restringe apenas aos episódios mais violentos ou traumáticos, mas também aos momentos de dúvida pessoal, de vergonha, de sacrifício por um bem maior (os filhos), de felicidade (porque também os há, mesmo pontualmente) e da esperança de um futuro colocado em espera de uma melhor oportunidade para quebrar o ciclo. Nestes 9 minutos de filme, o espectador passa por um espectro de emoções enorme, fruto de um sentimento de ansiedade, brilhantemente construído no desenrolar da história. Apresenta diversas confissões onde revela o desejo em abandonar o agressor, mas que é adiado por diversas razões, bem documentadas em vítimas de violência doméstica.

O que torna este filme tão pessoal (e próximo) de cada um de nós, é a escolha do meio da animação, em diversas técnicas distintas, para nos apresentar as memórias de um passado de sofrimento em silêncio. Ao juntar colagens (de fotos reais, louças, móveis e objectos) ao qual se sobrepõe uma animação a tinta preta centrada na simplicidade e rematada com uma paleta centrada em duas cores: uma variação de vermelho e outra de azul-turquesa, a estrutura minimalista da técnica utilizada revela uma simplicidade para despir de artifícios a animação e centrar a força no problema central – a violência doméstica.

Existem outros pormenores que podem passar despercebidos, mas todos, em conjunto, contribuem para tornar esta história de todos nós e para todos nós. Poderia referir a opção por destituir todas as personagens de informação facial ou da censura, por ocultação das pessoais reais presentes, nas fotos de família (que poderia ser qualquer uma em Portugal) ou ainda no uso de loiças que eram populares, e parte de qualquer enxoval, nos anos ’70, ’80 e ’90. A isto junta-se a banda sonora, ligeiramente dissonante, que amplifica o sentimento de angústia da vítima, cuja entonação monocórdica e documental da sua história, na voz da actriz Filomena Gonçalves, apenas exacerba a dessensibilização a que muitas vítimas acabam por sucumbir. Aliás, ouvir a vítima, diversas vezes, a humanizar o agressor acaba mesmo por ser o soco no estômago que o espectador não espera, mas que sente com mais intensidade. Todos somos cúmplices, no presente, se ouvimos, vimos e nos calamos.

Sopa Fria revela um novo talento da animação portuguesa em Marta Monteiro e é o prego final, há muito desejado, no já antiquado ditado popular “entre marido e mulher não se mete a colher”. Este silêncio ainda acontecer 25 anos após a aprovação da lei do crime público para a violência doméstica é uma vergonha que TODOS devemos carregar. Por isso digo, meta-se a colher e o que mais houver na proteção da mulher.

Ps: Se és vítima de violência doméstica ou conheces alguém que o seja, contacta as autoridades competentes e a APAV – não fiques em silêncio.

4/5
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