Smoke Sauna Sisterhood (2023)

de Pedro Ginja

O filme revela-nos que esta tradição da Estónia de uma sauna de fumo no meio da natureza é património cultural imaterial da humanidade pela UNESCO. Mais do que uma surpresa, surge como uma comprovação do seu impacto no espectador depois de tudo o que vemos e, principalmente do que ouvimos. Existem alguns momentos no filme em que nos lembramos do Haka, a dança maori usada pelos seus descendentes, na sua origem como uma celebração da vida sobre a morte e mais tarde com um carácter intimidatório e de tradição antes dos famosos jogos de rugby onde jogavam os “All Blacks” – vindos da Nova Zelândia. Em Smoke Sauna Sisterhood ouvimos os mesmos gritos guturais, vindos também de algum local recôndito da mente dos seus sujeitos, e a repetição de mantras que reflectem essa mesma sensação de orgulho e da força de uma tribo. Em ambos os casos não compreendemos o que se passa na sua totalidade mas o impacto em nós é inegável.

As semelhanças ficam-se por aí pois as energias de onde provem esse poder tem origens bem distintas e desde cedo que Anna Hints, neste seu documentário e estreia em cinema, nos evidencia isso. É uma celebração da feminilidade e do que é ser mulher nos dias de hoje, nas histórias e confissões de vida de um grupo de mulheres estonianas durante os rituais tradicionais em saunas de fumo.

De mulheres e para mulheres é o sentimento dominante para um homem que assiste a esta obra de Anna Hints mas também de estarmos a vislumbrar um segredo. De algo guardado no segredo dos deuses por milénios e milénios. Da adoração a uma divindade representada pelo corpo de cada mulher que entra na sauna, se despe de todas as constrições da sociedade e se abre à partilha perante os seus pares. A câmara de Ants Tammik percorre cada curva dos seus corpos com uma reverência e um respeito comovente, celebrando cada traço, ruga, estria, seio e afastando o ideal de uma beleza utópica e da constante sexualização do corpo da mulher imposta pela sociedade. Há antes uma glorificação da beleza feminina reminiscente do Renascimento no modo como retrata o corpo da mulher usando técnicas de pintura chiaroscuro para o iluminar em distintas intensidades de luz. Mas são as confissões que nos prendem a atenção e o coração tal é o sentimento de segurança imposto por Anna Hints e restante equipa de filmagem. Há um cuidado extremo em manter o anonimato de quem está a partilhar, mantendo quem fala oculto, com o uso de planos de pormenor do seu corpo, da ocultação da sua face com objectos dentro da sauna ou bloqueando-as com o seu próprio corpo. Surgem faces mas são sempre das que ouvem e nas quais vemos espelhados os sentimentos das que partilham e de nós próprios, como espelhos das mulheres da nossa vida. As histórias variam de momentos cómicos de primeiros encontros, das pressões da sociedade, de doença, de amor e da constante ameaça invisível mas sempre presente que os homens exercem na sua vida. A tragédia está sempre implícita, mesmo por detrás de uma gargalhada, e são esses os momentos que acabam por nos apanhar desprevenidos. O momento mais dramático surge de repente e sem aviso, apenas separado por uma respiração e um silêncio. Uma história banal torna-se rapidamente uma de terror, tal e qual na vida real, e sem poder vislumbrar quem nos conta a história parece que vislumbramos, na nossa mente, a cara da nossa mãe, da nossa irmã, da nossa esposa, da nossa filha, da nossa amiga e compreendemos como, também nós, somos cúmplices e parte do problema mesmo, e principalmente, quando nada fazemos.

Anna Hints enriquece as leituras e reflexões da história com o uso de inúmeras metáforas. Os exemplos são claros e em grande número. Por exemplo, redobra essa aura de mistério com o uso (e abuso) da metáfora do fumo e do vapor. A ideia de que o que é dito na sauna fica na sauna, dissipando-se quando a porta se abre e as mulheres voltam à sua vida, é implícito mas muito real. A água é a facilitadora do ambiente criado e actua como purificador das sensações e sentimentos libertados – uma lavagem da alma diria. Há ainda uma voz de uma anciã, continuamente desfocada, que relembra o passado trágico recente da condição feminina mas é também um aviso de que este passado é ainda um presente para muitas mulheres por esse mundo fora. Tudo isto é amplificado através do brilhante design sonoro que parece recriar um ambiente de transe na audiência, também ela com estas mulheres na sauna de fumo e partilhando o seu poder purificador.

Smoke Sauna Sisterhood é uma poderosa reflexão sobre a identidade feminina e um inequívoco serviço público para qualquer homem. O maior trunfo de Anna Hints é colocar-nos, ao espectador, na intimidade destas mulheres num transe osmótico de partilha de sensações e emoções. É provável que nunca as compreenda na sua totalidade, como homem, mas é inegável o seu profundo impacto.

4.5/5
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