Severance – 1ª Temporada (2022-)

de Pedro Ginja

Severance é um termo jurídico, em inglês, usado quando uma empresa paga uma soma única em dinheiro a um empregado quando termina o seu contrato antes de tempo ou sem razão justificada. Uma espécie de proteção contra abusos por parte do empregador e como salvaguarda do trabalhador. Um termo cada vez mais em extinção graças ao aumento do trabalho precário nos tempos que correm. Poderia ser a discussão presente nesta série mas existe ainda outro significado para a palavra. O outro termo formal que descreve Severance é o acto de terminar uma conexão/relação ou de ser separado de uma pessoa ou lugar, um significado bem mais próximo do que trata esta série. Esta acompanha a vida de um grupo de empregados de uma empresa que cria um processo médico que permite a um empregado separar a sua vida pessoal da sua vida laboral, ou seja as memórias ou problemas pessoais não afectam o trabalho tornando o empregado mais eficaz e livre das preocupações diárias na vida real. Tudo muda com o desaparecimento de um chefe de departamento que leva Mark (Adam Scott) à chefia e a conhecer o processo de recrutamento. O que se passa nos corredores da empresa Lumen Industries não é o que Mark esperava.

Tudo começa com a chegada de um substituto, ou melhor, de uma substituta de nome Helly R. (Britt Lower) e desde o primeiro segundo em que acorda no escritório sem saber como lá foi parar que a tensão cresce e o equilíbrio e ordem existente no trabalho é alterada. “O que acontece no trabalho, fica no trabalho” é uma premissa assustadora e ao mesmo tempo apetecível. Quem já não desejou esquecer aquele dia de trabalho horrível em que tudo correu mal e o transportou para casa e para as suas relações. O ambiente de trabalho tem um efeito muito forte no modo como vivemos a nossa vida e ter essa possibilidade de “apagar” más memórias tem sido inúmeras vezes seguido em filmes de ficção científica mas não de modo exclusivo. Na maior parte das vezes o processo de esquecimento não é falado ou é feito sem a aprovação da pessoa. O único exemplo de escolha foi em Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004) para apagar desgostos amorosos mas no caso de Severance é na vida profissional.

Poderia parecer muito menos interessante, assim de repente, mas tudo nesta série é valioso. Começa logo no genérico inicial que é uma excelente porta de entrada no universo da série e introduz outros dois grandes pontos fortes da mesma, a fotografia e a cenografia. O trabalho de fotografia aposta numa luz opressiva monótona e uniforme a reforçar o ambiente labiríntico do local de trabalho e quando aplicado na vida real transforma-se num local de sombras, reforçando o mistério e as dúvidas instaladas na narrativa. Nos primeiros episódios o local de trabalho é um santuário e com o avançar da série começam a surgir as sombras, a variação nas cores de iluminação e o psicadelismo a lembrar os loucos anos 60 Americanos. O abuso nos planos simétricos no trabalho (passando até na comida servida com cocktails de fruta simetricamente perfeitos) criam esse ambiente de ordem, organização mas ao mesmo tempo paranoia e a ideia de que algo macabro se esconde por detrás de toda esta “encenação”. Na cenografia, igualmente genial, vemos o moderno misturado com o vintage, e o minimalismo na decoração reforça as ideias e adensa o mistério do que se está a passar no ecrã.

O próprio efeito de quando as personagens entram no trabalho e as suas memórias são “alteradas” tem um interessante truque de perspectiva reforçado pelas expressões faciais dos atores, com destaque para Adam Scott, cuja personagem Mark não poderia ser mais diferente, quando no trabalho e no instante que regressa à vida real. Numa mudança de olhar Scott mostra-nos isso e muito mais, e enquanto o Mark no trabalho é metódico, eficaz e monótono, na vida real a dor da perda, o trauma, a personalidade mordaz e o seu humor negro é um contraponto precioso para a série. Mas o nosso coração (e mente também) está com Britt Lower como Helly R. pois é ela com quem a audiência se identifica mais. Como ela, também nós não sabemos nada deste mundo, e com ela vamos descobrindo as regras, procedimentos e ordem que regem este “mundo alternativo”. Lentamente os segredos vão sendo revelados e assim como Helly R. também em nós cresce esse sentimento de terror, do desconforto e do macabro, arrisco-me a dizer, por detrás das Lumen Industries. E depois ter “a sorte” de incluir atores secundários como Cristopher Walken, John Turturro e Patricia Arquette a habitar este universo atribui um espectro caleidoscópico de emoções, medos e dúvidas reforçadas a cada momento no brilhante argumento que acompanha o arco narrativo. O final chega com algumas respostas mas muitas mais dúvidas e ainda mais possibilidades de onde esta série nos pode levar (A segunda temporada está já confirmada).

Passou a ideia que Ben Stiller era o criador da série (Realiza 6 episódios) mas esta é da autoria de Dan Erickson, que entra num universo televisivo em constante mutação e qualidade cada vez maior, e consegue criar esta série absolutamente surpreendente e ao mesmo tempo familiar. Vê-se influências de várias séries como The X Files (1993-2018), Mad Men (2007-2015) e uma absoluta reverência ao universo de Kubrick e ao seu apuro técnico, misturando o melhor dos dois mundos: Cinema e TV. Na escolha da próxima série a ver, Severance é um dos melhores candidatos a saltar para o início dessa lista de “eventos televisivos” a não perder. O estatuto de uma das mais originais, intrigantes e verdadeiramente empolgantes séries dos últimos tempos é inegável. Carreguem nesse botão de Play o mais rápido possível.

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