Robot Dreams (2023)

de João Iria

No silêncio, uma amizade despoleta e floresce com a estação, despida de inibições, constrangimento ou vergonha e reinada por uma conexão além das palavras, representada nas honestas expressões faciais e corporais que não conseguimos evitar quando alguém importante nos elogia ou olha para nós com um carinho especial. Essa contemplação é uma recordação que somos verdadeiramente amados, que realmente existem pessoas, animais ou seres que encaram a nossa presença com amor, cuja vida melhora consideravelmente precisamente pela nossa ligação emocional – ainda melhor, que partilham estes sentimentos connosco – é um simples olhar que controla o nosso físico, dominado por esta euforia, por esta felicidade espiritual, impossível de conter num sorriso. É no silêncio que conseguimos desvendar as relações verdadeiramente resistentes, profundas e honestamente afetuosas. Porque é no olhar que comprovamos este amor. É reconfortante.

Baseado na graphic novel de Sara Varon, Robot Dreams é aptamente descrito como uma obra reconfortante, refletindo esta abstração emocional através de uma produção única, isenta de diálogos ou comunicação verbal, maioritariamente movida pela sua animação, pelo seu design de som e pela sua narrativa melancólica acerca da amizade entre um solitário cão, chamado Dog, e um entusiasmado robot, chamado Robot. Simples e eficaz. Os nomes destes protagonistas transmitem a atmosfera pretendida pelo cineasta Pablo Berger: uma clareza singela visual, no seu mundo e nas suas personagens, que permite esta história de expandir dramaticamente pelo horizonte dos seus frames, proporcionando ao público a oportunidade de experienciar este conto com uma atenção particular às suas imagens. Cada movimento, dentro do silêncio, ganha importância ao nosso olhar; todas as formas de expressão destacam-se no seu enquadramento. Ao colocar a sua essência nos seus visuais, Robot Dreams representa uma experiência mundial, explicitamente e naturalmente compreensível para o público, independentemente de idade, local ou identidade.

Situado em Manhattan durante os anos ’80, Berger elabora um liame particular referencial com o cinema, ostentando um clima de self-awareness, consciente de ser uma obra artística audiovisual onde o protagonista não precisa de ter um emprego, apenas necessita de existir – similar a inúmeras comédias desta época; e manifestando diversas menções frontais a clássicos da sétima arte como The Wizard of Oz (1939), Psycho (1960) e Frankenstein (1931). Robot Dreams concebe uma fundamental impressão do cinema como uma inevitável vinculação da vida e das suas significativas relações. Uma canção é continuamente associada a uma pessoa, a um companheiro. Um filme passa a ser o nosso filme. É uma valorização da cultura e das artes que o seu cineasta sente a necessidade de apontar, constatando a sua relevância e o seu impacto nas ligações emocionais humanas. Profundamente unidos para sempre.

Surpreendentemente, esta longa-metragem espanhola/francesa contrasta as suas vívidas cores resplandecentes e o seu ambiente divertido reminiscente das comédias silenciosas de Chaplin, com um conceito pesarosamente realista sobre crescer além de uma relação. As pessoas mudam perante as suas circunstâncias. É uma distância espacial e sentimental que suspende ligações; uma metamorfose individual que compele indivíduos a voar à procura de uma nova casa enquanto os restantes permanecem à sua espera, sem asas, incapacitados e impedidos de seguir as suas paixões ou conexões. É o solstício invernal da vida. Presos a uma perpétua noite, ansiando pela salvação numa luz inexistente, longe do seu futuro. Robot Dreams está soturnamente ciente que por mais que uma amizade ultrapasse barreiras corporais ou emocionais, é sempre influenciada pela inevitabilidade aleatória de uma realidade cuja força excede o nosso ínfimo poder.

Consequentemente, quando uma pessoa está parada na vida, tudo o que consegue fazer é sonhar. Sonhos auspiciosos e pesadelos angustiantes invadem os seus momentos esperançosos, alastrando-se pela tela, transformando-se numa aventura musical pela estrada amarela, retratando a desconexão atual dos seus protagonistas, cujas aspirações de reunião diferem completamente. Felizmente, Berger impede que esta triste realidade prejudique o seu clima optimista. É apenas uma história que se recusa a culpar as suas personagens, meramente reconhecendo os elementos que atormentam aquilo que devia ser simples.

Ocasionalmente, o realizador perde-se na repetição, dependendo abusivamente do seu charme para prolongar uma história que beneficiava de uma duração contida. Ainda assim, é impossível de resistir a este charme. Robot Dreams recorda obras de animação clássicas ao desfrutar da sua simplicidade visual para explorar complexas emoções. A amizade como uma aurora boreal: uma ligação profunda, sentimentalmente além deste mundo, que carregamos connosco eternamente. Mesmo sendo somente uma única passagem no distante e duradouro espectro das nossas vidas é uma combinação de elementos aleatórios que perfazem um colorido evento único celestial. Como pessoas estamos constantemente a evoluir. A crescer emocionalmente e fisicamente. Relações perdem-se no tempo mas o seu impacto perdura. Aliás, muitas dessas transformações são reflexões precisamente dessas amizades. A longa-metragem de Pablo Berger capta perfeitamente esta sensação, consciente que palavras são desnecessárias neste meio artístico audiovisual para descrever este singular amor.

Basta olhar e sentir.

4/5
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