Ranked: Pixar

de Pedro Ginja

Muitos associam a verdadeira origem dos estúdios Pixar ao fundador da Apple – Steve Jobs. No entanto, ela surgiu da mente de Alexander Schure que sonhava criar um filme de animação computorizado na década de 1970. Fundou a Computer Graphics Lab e, após um investimento de 15 milhões, pouco conseguiu fazer. George Lucas (sim, o próprio) descobriu a companhia e convidou-os a juntarem-se à sua Lucasfilm. Foi neste período que produziram as suas primeiras curtas-metragens como The Adventures of Andre and Wally B (1984) e Luxo Jr. (1986), este último responsável por dar à companhia a sua mascote – o icónico candeeiro cinzento do seu genérico.

George Lucas acabou por vender a Pixar a Steve Jobs, para reduzir custos, e é Jobs que transforma a Pixar no estúdio de animação pelo qual é hoje conhecido. Em 1995, com John Lasseter ao leme, estreia a primeira longa-metragem de nome Toy Story, um sucesso estrondoso que catapultou o estúdio para uma carreira absolutamente extraordinária que conta atualmente com 27 filmes. Apesar de uma vida difícil pós-pandemia, devido ao fantasma dos sucessos do passado e o avanço do mercado do streaming, ambos a conspirar para dificultar a presença de espectadores na sala de cinema, não há como negar o seu papel nos avanços tecnológicos do cinema moderno, de revitalizar o mercado adulto para o cinema de animação norte-americano e de sempre procurar a educação das crianças para a realidade actual e os problemas que irão enfrentar no futuro. É esse o seu legado e responsabilidade para as gerações vindouras.

27.  CARS 2 (2011) de John Lasseter e Bradford Lewis

“Finn McMissile. British Intelligence. Tow Mater. Average Intelligence.”

Não é com grande surpresa que Cars 2 se encontra no fundo da tabela de filmes da Pixar. Já o primeiro filme sofria dos mesmos problemas, como um argumento pouco imaginativo (o clássico “change of heart” do protagonista para uma melhor pessoa), neste caso centrado na vergonha de Lightning McQueen (V.O. – Owen Wilson) do seu grande amigo Mater (V.O. – Larry the Cable Guy). Tenta disfarçar o verdadeiro cerne da questão brincando com filmes de espiões (James Bond, obviamente) e misturando inúmeras histórias paralelas, mas acaba por não ter mãos para tratar todas com a mesma atenção. No final é o mesmo resultado da sua história original: o visual e a animação é de qualidade excepcional, mas o coração e a nossa mente nunca são verdadeiramente estimulados. Desapontante seria a palavra ideal para descrever Cars 2 com exatidão.

26. ONWARD (2020) de Dan Scanlon

“For a spell to work, you have to speak from your heart’s fire.”

Onward tem muitas temáticas que me tocam de um modo muito especial como o luto, a figura paterna, a importância da família, criaturas fantásticas, magia e fantasia; e até consegue ter um cameo de uma “Gelatinous Cube”, o meu monstro favorito do jogo Dungeons & Dragons. Tinha tudo para dar certo mas acaba por falhar em todas as frentes. As referências estão lá mas depois o “clique” nunca se dá. Falta a chama e, acima de tudo, falta o coração. Do ponto de vista de animação ou na qualidade dos efeitos visuais o nível é elevado a cada filme da Pixar, mas faltou acender o “fogo” para levar a história onde ela merecia. Irónico quando existem manticoras e dragões a expeli-lo por todo o lado.

25. CARS (2006) de John Lasseter

“Because we are a town worth fixing.”

É tão difícil amar esta tentativa da Pixar de tornar os carros humanos. Um conjunto de pistões, cilindros, pneus e carroçaria mas com olhos nas janelas e boca no para-choques. Tudo parece estranho desde o primeiro minuto em que vemos carros a correr à volta de uma pista enquanto o público são… carros. Este vosso crítico nunca foi grande fã de automóveis ou de velocidade e isto poderá ter influenciado a decisão mas acabo por admitir que a sensação de velocidade, a fotografia, os reflexos de luz, as pinturas reluzentes dos carros e a animação de topo é o melhor que temos por estas bandas. Lightning Mcqueen (V.O. – Owen Wilson) é o nosso herói mas é difícil torcer por ele quando é um narcisista detestável nos primeiros 50 minutos. Acaba por recuperar o nosso respeito e ter um arco interessante mas é tão previsível que no fim já não queremos saber. Não é por isso uma grande surpresa que este se encontre no fim da lista dos filmes da Pixar. Uma nota final, e muito especial, para a presença da voz de Paul Newman no seu último trabalho como actor.

24. THE INCREDIBLES 2 (2018) de Brad Bird

“Done properly, parenting is a heroic act. DONE PROPERLY.”

Não poderia estar mais de acordo com a personagem de Edna Mode (V.O. Brad Bird), uma das mais icónicas do universo “The Incredibles”, mas neste caso aplicando-o ao argumento. Longe de ser mau, mas quando o original é quase perfeito é impossível não defraudar as nossas expectativas com esta história sem pingo de originalidade ou sentido de risco. Nem tudo é mau como, por exemplo, a introdução dos novos poderes de Jack-Jack, com um crescendo de intensidade, risco e fofura ou, claro, no confronto épico Jack-Jack vs. Guaxinim. Jack-Jack, praticamente ignorado no primeiro filme, acaba por ser a única personagem a crescer neste universo e isso é um pecado difícil de ignorar. Apenas a melhoria na animação e nos efeitos visuais impede este filme, inferior em quase tudo face ao original, de ser um desastre completo.

23. THE GOOD DINOSAUR (2015) de Peter Sohn

“Sometimes you gotta get through your fear to see the beauty on the other side.”

Arlo (V.O. – Jack MacGraw e Raymond Ochoa) vive com a família mas está insatisfeito com quem é. Tanto os pais como o irmão e a irmã têm algo que os define e os torna forte enquanto Arlo, por outro lado, sente-se um cobarde. Após um acidente, o dinossauro acaba por se separar da sua família, ficando completamente sozinho no mundo. O medo instala-se até que conhece um humano que o leva a ultrapassar limites para assim poder voltar a casa e à sua família. Mais uma história Coming of Age da Pixar , de superação e acima de tudo sobre o poder do amor e da amizade. Mesmo um Pixar menor, como é este The Good Dinosaur, não deixa de ser uma história emocional (principalmente na belíssima conclusão) e com alguns detalhes inesperados, principalmente na humanização dos dinossauros com direito a profissões, inseguranças e sentimentos, enquanto os humanos adquirem uma natureza mais animal. Uma lição da Pixar, talvez?

22. BRAVE (2012) de Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell

“Our fate lives within us. You only have to be brave enough to see it.”

Brave é a história de Merina (V.O – Kelly Macdonald), uma jovem princesa em busca de quebrar tradições milenares e perseguir os seus sonhos custe o que custar, nunca tendo em consideração os sentimentos dos outros membros da família. É esta atenção ao pormenor (a imagem de marca da Pixar), principalmente como as acções de Merina afectam a personagem da mãe, que criam o cerne e o coração deste filme. É o regresso da Pixar ao caminho que sempre lhe trouxe dividendos, retirando a prioridade na melhoria técnica da animação, para regressar às dinâmicas familiares e às relações complexas que por lá se estabelecem. Longe de ser o seu melhor por faltar rigor na adaptação de uma realidade europeia (escocesa neste caso); as personagens masculinas são totalmente estereotipadas – o feitiço vira-se contra o feiticeiro? – e as histórias paralelas falham em se manter relevantes quando chega o clímax do filme. O suficiente, no entanto, para uma nota positiva.

21. FINDING DORY (2016) de Andrew Stanton

“I remember it like it was yesterday. Of course, I don’t really remember yesterday all that well.”

Dory (V.O. – Ellen DeGeneres) é um peixe cirurgião-patela segundo o Google. E, para a Pixar, é um peixe que sofre de amnésia. Esquece rapidamente o que aprende ou quem a rodeia. Finding Dory, a sequela de Finding Nemo, centra-se em Dory e traz o seu passado para o centro da história, quando memórias da sua família levam-na a sair em busca dos seus pais. Retirar o protagonismo de Nemo (V.O. – Hayden Rolence) e Marlin (V.O. – Albert Brooks) e passa-lo para Dory é uma boa decisão pois abre este universo para uma realidade e, acima de tudo, para um tema que ficou nas entrelinhas em Finding Nemo. A saúde mental. Neste, vemos os efeitos que o seu problema de memória tem na sua visão do mundo e os efeitos nocivos na sua vida pessoal. Não se cinge a esta personagem, expandindo-o para uma baleia beluga de nome Bailey (V.O. – Ty Burrell), que sofre de ansiedade e de problemas de auto-estima, ao passo que o polvo Hank (V.O. – Ed O’Neill), após sofrer uma mutilação, desenvolve stress pós-traumático. Porventura, posso estar a ver mais do que realmente está no filme, mas é bonita a mensagem da Pixar de aceitar as diferenças e de trabalhar em equipa para as ultrapassar. Sozinhos podemos pouco, mas com a ajuda de quem nos ama podemos muito mais. Estas mensagens por detrás dos seus argumentos, continuam a ser a principal razão da sua relevância tanto no entretenimento como na educação das crianças. E cada filme da Pixar tem isso no seu ADN.

20. LUCA (2021) de Enrico Casarosa

“It’s just the greatest thing that humans ever made…it’s the Vespa!”

A Vespa como o nirvana deste duo formado por Luca (V.O. – Jacob Tremblay) e Alberto (V.O. – Jack Dylan Grazer). A possibilidade de viajarem, livres, por toda a Itália é o prémio que procuram para fugir a uma vida que não querem. O twist de Luca é serem monstros marinhos a habitar numa vila conhecida que os tenta perseguir e matar. O ambiente de tensão entre as comunidades é bem estabelecido com a desconfiança mútua sempre presente. Luca e Alberto formam uma bonita amizade com Giulia (V.O. – Emma Berman) que os aceita pelo que são, criando uma metáfora, acerca do mundo actual, bem conseguida e relevante no presente. Como pontos menos positivos existe um vilão de papelão e um argumento demasiado óbvio que desilude, mas um gato desconfiado (a roubar cada cena), um ambiente de descoberta/aventura delicioso e a beleza da vida simples acabam por nos conquistar. No final fica apenas um pensamento – “Quero ir de férias”!

19. LIGHTYEAR (2022) de Angus MacLane

“Her Grandma saw something in me so I started looking for it too.”

Desde que surgiu a personagem de Buzz Lightyear, um ranger espacial em forma de brinquedo, em Toy Story (1995), que parecia haver uma curiosidade em saber mais sobre a sua personalidade. Por exemplo, a constante necessidade de narrar a sua vida, o seu sentido de dever e honra inabalável e a amizade que o uniu a Woody, uma das mais bonitas alguma vez transportadas para o grande ecrã. Tudo isso se materializa neste Lightyear, que para além da polémica mudança de voz (de Tim Allen para Chris Evans), consegue dar explicação para o que o torna no Buzz Lightyear. Mas isso acaba por ser também o seu maior pecado – demasiada informação. Longe da genialidade e da originalidade de tantos outros títulos da Pixar não deixa de ser uma excelente proposta de entretenimento para todos, sejam crianças ou adultos. É seguro e competente, mas Lightyear necessitava de algo que o transportasse para o infinito e bem mais além.

18. A BUG’S LIFE (1998) de John Lasseter

“It’s a bug-eat-bug world out there, princess. One of those Circle of Life kind of things. Now let me tell you how things are supposed to work: the sun grows the food, the ants pick the food and the grasshoppers eat the food…”

O sempre difícil segundo filme, de qualquer estúdio, depois de um grande êxito como Toy Story (1995). Apesar da concorrência com Antz (1998), também sobre formigas, do estúdio concorrente Dreamworks, a criar uma situação tensa e de guerra aberta, a Pixar não cede à pressão e ganha a confiança tanto do público como da crítica no mercado da animação que cada vez se torna mais apetecível. Em equipa que ganha não se mexe, e com Lasseter no comando, Randy Newman na música e Andrew Stanton no argumento, esta equipa consegue criar uma história que ressoa com crianças e adultos. O risco e a glória de trilhar um caminho único, desafiando expectativas e as normas da sociedade, é algo tão próprio do ser humano que a viagem só poderia ser um triunfo. Centrado em Flik (V.O. – David Foley), o desajustado, Lasseter consegue humanizar uma formiga, e torná-lo um de nós. É notória a melhoria nos aspectos técnicos da animação digital e o excelente casting de vozes reflete-se na história carregada de tensão, aventura, acção e muita emoção. Algumas piadas perderam o impacto e outras revelam o peso do tempo mas confirmam a Pixar como o estúdio a bater na animação americana.

17. CARS 3 (2017) de Brian Fee

“Don’t fear failure, fear not having the chance”.

A franchise Cars parece continuar a ter sempre oportunidades de reinvenção, ao contrário de outros filmes da Pixar que mereciam muito mais ter uma sequela. Ainda não estão no caminho ideal, como no universo Toy Story, mas este terceiro filme é de longe o melhor. Porquê? Com as personagens estabelecidas nos capítulos anteriores o argumento opta, acertadamente, por colocar Lightning McQueen (V.O. – Owen Wilson) no seu maior desafio. É o único que ressoa a nível humano, com a ideia de nos tornarmos obsoletos naquilo que fazemos melhor, um sentimento comum a todos. A idade e envelhecer é uma das certezas da vida e nesta história Lightning McQueen torna-se, finalmente, “humano”. Continua apenas competente e a inovar pouco a nível visual, mas a excelente animação e a sempre brilhante sensação de velocidade da saga Cars compensam por isso tudo. No final, encontra o coração que lhe faltava num herói inesperado, mas acaba por dar um tiro no pé em termos de sequela. Mas isso foi o que eu pensei após o primeiro filme, por isso é melhor não apostar contra esta saga. No próximo não aceito menos que uma obra-prima.

16. MONSTERS UNIVERSITY (2013) de Dan Scanlon

“Just reach deep down and let the scary out.”

A inevitável sequela de um dos mais originais argumentos da Pixar, passado no mundo dos monstros de Monsters Inc. (2001). A sequela, ou melhor dizendo a prequela, centra-se em Mike (V.O – Billy Crystal), durante o tempo em que conheceu Sullivan (V.O. – John Goodman) na universidade, terreno fértil para as comédias americanas. Mais uma vez, o seu ponto mais forte é o excelente casting de vozes com Billy Crystal, John Goodman e Steve Buscemi ao qual se juntam ainda Helen Mirren, como a directora da universidade, de nome Hardscrabble, e Alfred Molina como professor Knight. Os temas de superação pessoal, redescoberta interior e o conhecer o nosso verdadeiro valor repetem-se e esse torna-se o seu principal problema. O argumento e os momentos cómicos continuam a ser de grande qualidade mas acrescentam pouco a este universo, continuando a tradição de, nas sequelas, apenas a saga Toy Story conseguir surpreender ou reinterpretar o que é a sua essência. É isso mesmo que uma futura sequela de Monsters Inc. precisa urgentemente de descobrir.

15. FINDING NEMO (2003) de Andrew Stanton

“When life gets you down, you know what you gotta do? Just keep swimming.”

Há ecos de Bambi (1942) no início da história, mas desta vez transfere-se para a “floresta” do oceano, o recife de coral. A inevitabilidade da vida e também a sua dureza são a nota dominante do argumento. Acompanha a grande viagem de um peixe-palhaço, Marlin (V.O. Albert Brooks), à procura do seu filho desaparecido, Nemo (V.O – Alexander Gould), retirado do mar por pescadores submarinos e levado para a longínqua Sydney. Acaba por adquirir a ideia de um road movie na maior “estrada” do planeta Terra, o Oceano. As peripécias e perigo são partilhadas com Dory (V.O. – Ellen DeGeneres), um peixe com memória curta mas com um coração enorme. O argumento explode de tanto coração que tem e os temas da Pixar ressoam para adultos e graúdos. Desde a emancipação dos filhos, ao poder da paternidade e do sentido de família (mesmo a que nós escolhemos nesta vida) e o desafiar de expectativas. Brincando com os clichês do oceano e do mar resulta num argumento cómico e dramático em igual medida e impacto. Começa nesta 15ª posição a grande qualidade do universo Pixar que tornou o top muito difícil de escolher.

14. RATATOUILLE (2007) de Brad Bird

“Anyone can cook, but only the fearless can be great.”

Sem dúvida uma das premissas mais polémicas do estúdio. Ratos a cozinhar numa cozinha de um restaurante de renome e os problemas higiénicos nesta sociedade da Pixar só surgem perto do final? Este rato, de nome Remy (V.O. – Patton Oswalt), é ainda um génio inesperado que esconde o seu talento natural para cozinhar da sociedade. Isto sim, já parece mais Pixar, não? Vivíamos, por esta altura, a época de ouro do estúdio, com êxito atrás de êxito e a qualidade sempre assegurada. Neste Ratatouille passava o motto de “Todos Podem Cozinhar”, e só a Pixar conseguiria tornar esta história improvável num clássico instantâneo. Linguini (V.O. – Lou Romano), o herói humano, é irritante e tem um arco pouco interessante, mas tudo o resto assenta que nem uma luva. Ícones do cinema como Peter O’Toole, Ian Holm e Brian Denehy, atribuem gravitas a um elenco extraordinário, mas é Patton Oswalt, na voz de Remy, o famoso rato cozinheiro, a estrela maior. Um argumento inteligente, intenso e sem tempo para respirar, com um dos finais mais inspirados da Pixar, a virar a página do suposto vilão e a emocionar por completo o espectador. Talvez a sua única falha seja em não conseguir captar a atenção das crianças tão bem como o faz para os adultos.

13. COCO (2017) de Lee Unkrich e Adrian Molina

“We may have our diferences, but nothing is more importante than family.”

O dia dos mortos é um feriado com uma grande importância no México. É o dia logo a seguir ao Halloween e nele celebra-se os que partiram antes de nós, com visitas aos cemitérios. Um dia de família e para a família. Em Coco a nossa viagem é com Miguel (V.O. – Anthony Gonzalez), um miúdo com queda para a música, vindo de uma família de sapateiros de várias gerações, onde a pressão é grande para continuar a tradição familiar. Aliado a isso está o grande ódio da família contra a música que tudo faz para impedir o seu sonho de abraçar a carreira artística. Uma maldição acaba por levá-lo para o mundo dos mortos e é aqui que o filme ganha vida. Um verdadeiro assombro visual, com cores vibrantes, cenografia de outro mundo (literalmente) e um dos mais inspirados na criação, de raiz, de um mundo absolutamente inesquecível. Aliado a isso o excelente trabalho sonoro e musical (“Un Poco Loco” é de longe a favorita) e a perfeita homenagem a uma cultura, assente na família, é onde o filme vai buscar a emoção para verter bastantes lágrimas, mesmo adivinhando o final muito antes de chegar. Notas finais para alguns excelentes twists na narrativa e a personagem Dante, um cão de raça Cholo, originária do México. Leal, corajoso e maluco na perfeita proporção, Dante rouba cena atrás de cena e tem o arco mais interessante da história.

12. TOY STORY (1995) de John Lasseter

“To infinity and beyond.”

Todo o percurso anterior da Pixar teve como objectivo a produção da sua primeira longa-metragem – Toy Story. Uma viagem ao mundo secreto dos brinquedos onde, quando os humanos não estão por perto, ganham vida e têm personalidade, sentimentos e também medos e defeitos. O processo de humanização de objectos/brinquedos é conseguido de um modo natural e orgânico e tanto Woody como Buzz parecem de carne e osso. O elenco de vozes ajuda, com Tom Hanks e Tim Allen (respectivamente) a encarnarem as personagens, e a música de Randy Newman é perfeição absoluta. Começa aqui também a sua história com a Disney, sendo o primeiro filme da Pixar protegido pelo grande estúdio mas com uma total liberdade criativa. Com participação no argumento de alguns grandes realizadores futuros da companhia, como Pete Docter e Andrew Stanton, este é ainda um “filho” de Lasseter ainda aqui em pleno na produção e na realização. Começa também a tradição da Pixar de ensinar as crianças sobre sentimentos negativos como a inveja, vingança e de como os nossos erros podem custar caro, mas também sentimentos positivos com o poder transformativo do arrependimento e perdão como forma de nos tornarmos melhores pessoas. Toy Story fez história, em 1995, e mudou o panorama da animação mundial para sempre.

11. UP (2009) de Pete Docter e Bob Peterson

“You will always be my greatest adventure.”

Somos introduzidos a Carl (V.O – Edward Asner), enquanto criança, numa sala de cinema, maravilhado a ver um dos seus heróis de nome Charles Muntz, um explorador destemido, em constantes aventuras e descobertas extraordinárias. Logo após surge Ellie (V.O – Elie Docter) e o filme transforma-se num adorável “Boy meets Girl” com um dos 10 minutos iniciais mais emocionais da história do cinema. Sabendo que é impossível suster este nível emocional, o argumento de Pete Docter, Bob Peterson e Tom McCarthy salta, com segurança, para uma aventura adiada pelo casal Carl e Ellie durante uma vida inteira. Este sentimento é algo comum a todo o ser humano e mais prevalente quanto mais velhos ficamos. Um dos filmes mais adultos da Pixar nas suas preocupações, mas ciente de nunca esquecer os mais novos para os quais o mercado da animação se move. São muitos os twists, a excelente comédia (Dug, o cão, e Kevin, o pássaro, conseguem as maiores gargalhadas) e os momentos de acção conseguem colocar grandes filmes de imagem real como meros amadores. Aquela icónica imagem de uma casa a sobrevoar as ruas de Seattle com o auxílio de balões multicoloridos transporta-nos para quando em criança tudo era possível – se o podemos imaginar, pode ser feito.

10. TURNING RED (2022) de Domee Shi

“I’m Meilin Lee. And ever since I turned thirteen, I’ve been doing my own thing. Making my own moves, twenty-four-seven, three-sixty-five.”

É assim que somos introduzidos ao mundo de Meilin (V.O. Rosalie Chiang), uma adolescente em pleno momento de entrada na puberdade. Parece ser a história habitual de Coming of Age (já tanto por aqui falada) mas vai por caminhos inesperados e bastante corajosos. Nunca a entrada na adolescência foi tratada com tanta honestidade e os sentimentos à flor da pele como em Turning Red. Sente-se o caos emocional de Meilin aquando da transformação “mágica” num panda vermelho gigante (metáfora brilhante para a menstruação) mas também entra na obsessão com os rapazes, música e o sentimento de nos sentirmos presos nas nossas obrigações. Também Ming (V.O. Sandra Oh), a mãe dominante e controladora de Meilin, acaba por ser vista nas suas imperfeições e nos traumas nunca ultrapassados, acabando ela por ter de confrontar a sua própria adolescência. Esta profundidade emocional não impede este Turning Red de ser muito engraçado, com um ritmo muito próprio (e intenso) e uma homenagem sentida à comunidade oriental a viver em Toronto. Pena foi nunca ter tido a oportunidade de brilhar nas salas de cinema.

9. TOY STORY 4 (2019) de Josh Cooley

“If you sit on a shelf for the rest of your life, you’ll never find out.”

Este Toy Story 4 foi injustamente apelidado de apenas existir para fazer dinheiro pois a saga tinha concluído com Toy Story 3 (2010) de forma muito satisfatória, com a passagem de “testemunho” de Andy ao entregar os seus adorados brinquedos a outra criança. Apesar de concordar, em parte, com esta afirmação, não acho que seja um Toy Story menor. Aqui voltamos à companhia de Bonnie, a nova dona de Woody e Companhia, de uma maneira inesperada. Um brinquedo de nome Forky, criado por Bonnie, feito de lixo, torna-se o ponto central da história. Cada vez mais secundarizado no seu dia-a-dia, Woody torna-se mentor e redescobre um novo sentido para a sua vida. O argumento pensa e questiona a saúde mental como parte fundamental da nossa vida. Quem nunca se sentiu como lixo como Forky sempre nos relembra? Ao centrar-se, para todas as personagens, na saúde mental e nos efeitos visíveis em cada, perde um pouco da leveza e aventura característica da história para uma reflexão mais adulta e profunda (talvez isso tenha afastado quem esperava algo mais leve). E o seu final emocional não deixa ninguém indiferente.

8. ELEMENTAL (2023) de Peter Sohn

“Elements cannot mix.”

Um dos maiores triunfos de Elemental está na forma como Peter Sohn usa a sua história pessoal e a sua verdade como alicerce da narrativa. E essa história é de Ember (V.O. Leah Lewis) e Wade (V.O. Mamoudou Athie), uma adorável “boy meets girl” com uma previsibilidade aconchegante mas não menos intenso por isso na emoção que nos provoca. Quem não estiver a chorar quando o filme faz a sua “vénia” final é melhor verificar se tem pulso. Para além da dúvida se é um sucesso comercial ou não, a mais importante é o de colocar a Pixar no caminho certo do que a torna única – criatividade, emoção e um grande coração. 

7. MONSTERS, INC. (2001) de Pete Docter

“Kids, these days. They just don’t get scared like they used to.”

O elenco de vozes neste filme é absolutamente extraordinário, com um casting perfeito que inclui John Goodman, Billy Crystal, James Coburn e Steve Buscemi. Toda a atenção dada a cada uma das personagens nota-se no resultado final graças a um argumento delirante, intenso e sem tempo desperdiçado. A animação e a qualidade técnica dos efeitos utilizados dão-lhe uma aproximação à realidade tão grande, que este mundo onde monstros ganham a vida a assustar crianças no escuro do quarto (quem nunca em criança pediu para deixar a luz acesa por medo do escuro?) relembra o terror de infância tanto aos filhos como aos pais. Estamos, nestes 90 minutos, de volta àqueles momentos de puro terror há muitos anos atrás. Mas o sentimento dominante não é o terror, mas sim a nostalgia e o poder das emoções como forma de dar brilho à vida. O final não poderia ser mais sacarino mas isso não o impede de ser o final ideal para terminar esta história. Um clássico da Pixar, e em termos visuais, um dos que menos “envelheceu” dos tempos iniciais da companhia.

6. TOY STORY 2 (1999) de John Lasseter

“I can’t stop Andy from growing up. But I wouldn’t miss it for the world.”

A sequela era inevitável após o êxito tremendo do primeiro filme. Menos esperado era a qualidade da sequela ser superior ao original, mas John Lasseter consegue o impensável e melhora o que já era muito bom. E como o consegue? Com um excelente argumento carregado de emoção, comédia, referências a grandes clássicos do cinema e, como será apanágio da Pixar – uma grande lição para a vida. Começa, aqui, o fascínio da Pixar pela passagem do tempo como desestabilizador do equilíbrio emocional mas também como o bem mais precioso que todos temos – Carpe Diem. Com Lasseter, Docter e Stanton no argumento e o talento de vozes absolutamente irrepreensível, o grande segredo está, no entanto, em não menosprezar os adultos, que trazem os filhos ao cinema, e, inteligentemente, optar por uma história simples na execução – “It’s a Heist Movie” – mas complexa na teia de sentimentos criada ao levar cada um de nós àquelas longas tardes de domingo a brincar e a criar magia com os nosso brinquedos favoritos. A sinergia completa-se com os pequenos momentos musicais dentro do filme e no génio musical de Randy Newman – “You’ve got a friend in me” querida Pixar.

5. SOUL (2020) de Pete Docter e Kemp Powers

“This is where new souls get their personalities, quirks and interests before they go to Earth.”

Uma das ideias mais interessantes exploradas por Soul é a construção de uma alma e do que a motiva e inspira. É eterna a questão de nascermos com um talento, algo que nos diferencia e torna especiais. Para Joe (V.O. – Jamie Foxx) é a música, mais precisamente o jazz, o centro da sua vida. Esta constante luta entre segurança/dever e risco/talento dá a tensão necessária a uma história acerca da constante luta de Joe por “voltar” à vida. No entanto é no aspecto visual, principalmente na vida depois da morte e dos seus intervenientes, que se nota a Pixar a tomar riscos em termos visuais, desde o uso de monocromia, de explosões de cor, as brincadeiras com animação surrealista combinada com uma cenografia inspirada e um minimalismo inspirador. É mesmo na simplicidade que a vida é mais especial e Soul é exímio a demonstrá-lo.

4. THE INCREDIBLES (2004) de Brad Bird

“Hey, come on. We’re superheroes. What could happen?”

Ao rever todos os filmes da Pixar novamente este foi, provavelmente, a maior surpresa. O seu argumento é de longe o melhor argumento da Pixar por várias razões. Tem o melhor vilão de todos os seus filmes. Há dor, há humilhação, há sonhos destruídos que pervertem a sua essência e o transformam numa pessoa desprezível. O facto da vilania não cair do céu e ser um processo de muitos anos revela uma maturidade e inteligência no que realmente importa na construção de um vilão, muitos anos antes do triunfo que foi Thanos. Mas não se fica por aqui com referências deliciosas a James Bond (circa anos 60′), dos clichês de espiões e de super-heróis, e de nunca esquecer de colocar um coração por detrás de todo o espectáculo. Acaba só por desiludir apenas na animação que não envelheceu tão bem como em outros clássicos do estúdio. Mas é impossível negar o seu charme e a posição única que ocupa no universo Pixar (vamos esquecer a existência da sequela por favor).

3. TOY STORY 3 (2010) de Lee Unkrich

“The thing that makes Woody special is that he’ll never give up on you.”

Este será, possivelmente, a posição deste top mais polémica (ou talvez não) mas após esta afirmação não há volta a dar. Como dizem os ingleses – “third time is the charm”. John Lasseter deixa as redes da realização, em exclusivo, para Lee Unkrich e, com um argumento de Michael Arndt, comete a difícil proeza de tornar a segunda sequela melhor que a primeira. Que por sua vez já era melhor que o original. E porquê? Existem várias razões para este ser o melhor filme da saga Toy Story mas a principal é apenas uma – o sentimento de “letting go”. Tentei arranjar uma tradução equivalente mas ela não existe. É algo tão universal, independentemente de cultura/religião/sexo ou qualquer outro ponto definidor da nossa essência, que torna este Toy Story 3 parte de todos nós e por isso mesmo tão especial. Nunca a amizade foi tão bem retratada como na relação entre Woody (V.O – Tom Hanks) e Buzz (V.O – Tim Allen) e este arco narrativo espelha-o na perfeição. Há fugas de prisões, brinquedos aterradores (mais negros que o esperado num filme Pixar), comédia visual inspirada, traições, mentiras e a possível génese do filme Barbie (2023) de Greta Gerwig, fruto de uma das muitas side-stories presentes. A atenção ao pormenor e aquela cena final com a personagem de Andy, transportam-nos para aquele momento, na relva, a pegar nos nossos brinquedos favoritos sem sabermos que era a última vez.

2. INSIDE OUT (2015) de Pete Docter e Ronnie del Carmen

“Do you ever look at someone and wonder what is going on inside their head?”

Riley (V.O. Kaitlyn Dias) é uma criança feliz e com uma vida abençoada no Minnesota. Até que, por razões profissionais, os pais decidem mudar-se para São Francisco e o seu mundo fica virado do avesso. Mais do que o mundo, são as suas emoções que adquirem o papel principal da história – literalmente. E é este também o seu ponto mais delicioso, com as 5 principais emoções de Riley – Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Repulsa a tomarem as rédeas do filme. A criação deste conceito é um dos momentos mais brilhantes da Pixar e marca o regresso às obras-primas após o genial Wall-E (2008), 7 anos antes. Complexo, emocional, inventivo, original e tantos outros adjectivos não seriam suficientes para enaltecer esta história sobre Riley e a miríade de emoções que reflectem a complexidade humana na mente de uma criança. Se tivesse de aconselhar apenas um filme da Pixar para levar para uma ilha deserta este seria o escolhido.

1. WALL-E (2008) de Andrew Stanton

“I don’t want to survive… I want to live.”

A história de amor é um clássico intemporal do cinema. As iterações são imensas e muito variadas mas nunca se tinham debruçado sobre dois robôs, desta forma, como neste mágico Wall-E. Wall-E vagueia por um planeta Terra vazio de vida e cheio de lixo. Dia após dia, limpa e compacta-o, cumprindo a directiva de limpar todo o planeta. Após séculos de trabalho chega à terra uma sonda em busca de vida, de nome Eve. Nos primeiros 35 minutos, sem qualquer diálogo, a magia acontece e a Pixar cria uma das suas jóias da coroa. Nem sempre atinge a perfeição desses 35 minutos iniciais, mas nunca desaponta. Considero-o ainda mais presciente hoje do que quando estreou nas salas de cinema em 2008, com o cada vez mais inevitável problema do lixo humano e a nossa inabilidade para mudar a nossa maneira de usar os imensos recursos que o planeta nos deu, mesmo com os sinais cada vez mais perto de todos. Mais assustadora ainda é a evolução da Inteligência Artificial nos últimos anos e como agora parece ainda mais perto de se tornar uma realidade. Nunca sair da sua zona de conforto foi tão bem executado como neste clássico da animação mundial. Ou, arrisco dizer, da história do cinema.

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