Prey (2022)

de João Iria

Durante a primeira metade do ano, as salas de cinema brilharam com a magia criativa de obras como Everything Everywhere All At Once (2022), The Northman (2022) e Top Gun: Maverick (2022) que se destacaram como experiências verdadeiramente cinemáticas. Apesar destas espetaculares criações, 2022 revela-se desapontante na qualidade dos seus blockbusters gigantes, demonstrando franchises em declínio e arrastando talentosos artistas como Taika Waititi e Sam Raimi para a mediocridade. Enquanto estas produções procuram justificar novas sequelas desprovidas de sentido, Prey surge repentinamente como uma surpresa para recordar as audiências que: se sangra, ainda tem vida.

Após realizar o melhor filme da trilogia Cloverfield10 Cloverfield Lane (2016) – Dan Trachtenberg regressa às longas-metragens com a nova entrada na saga do Predator, intitulada nacionalmente como O Predador: Primeira Presa. Situado no Século XVIII, Prey segue uma jovem indígena Comanche, Naru (Amber Midthunder), numa viagem para concretizar o seu sonho de ser uma habilidosa caçadora como o seu irmão Taabe (Dakota Beavers), e legitimar o seu valor na tribo. Nesta jornada, Naru depara-se com um inimigo inaudito cuja existência ameaça a vida da sua família e da sua nação.

Trachtenberg substitui helicópteros por cavalos e testosterona por astúcia, todavia, mantém o charme, violência e intensidade do original nesta espantosa prequela, que presta homenagem a uma das criações mais musculadas dos anos 80′ e revigora uma franchise cansada, abrindo caminho para um futuro esperançoso. Estes elementos vitoriosos sucedem através de uma consciência que o enredo de uma película com propriedade intelectual precisa de captar o espectador mesmo sem a presença da propriedade intelectual.

Amber Midthunder ratifica este ponto, revelando-se como uma estrela em ascensão na sua posse do ecrã com o carisma jovial de uma protagonista engenhosa, juntamente com Dakota Beavers, cujo sorriso é suficiente para seguir esta personagem contra um medonho alien assassino. O elenco, principalmente composto por atores indígenas, cria um cordão de fidelidade histórica e acrescenta relevância emocional a uma narrativa acerca de valor humano, numa alegoria ao colonialismo. Um componente que se estende até à sua estreia no serviço streaming do Disney+, onde existe a opção de assistir esta longa-metragem inteiramente na língua Comanche.

Armadilhado com uma resposta machista e imatura online, acerca da disputa entre a protagonista contra esta monstruosidade, manifestada por espectadores celibatários involuntários que ignoram conceitos básicos narrativos, Prey afirma a sua posição como uma história de David e Golias que instala medo na própria existência desta criatura e coloca a franchise num clássico monster movie com a adição das especiarias comuns atuais em Hollywood.

O Predador é despido das suas armas tecnológicas que retrocedem para uma forma primitiva na sua raça – ainda que permaneça avançada para a espécie humana – e recebe um novo design asqueroso com uma distinta máscara de guerreiro. A criatura espalha o seu poder pela audiência, reforçando constantemente as suas capacidades de sobrevivência superiores e a sua letalidade que coloca o público como uma criança, escondido atrás de Naru, a heroína underdog desta história. As caças gloriosas desta longa-metragem são guerras triunfantes na nossa realidade.

Mesmo celebrando as suas conquistas na batalha de franquias, onde obras aplicam-se a fundar a sua importância para com o público, Prey fraqueja na sua dependência de CGI, predominantemente utilizado em animais selvagens e em momentos sangrentos, que interrompe sequências de intensidade crescente, estabelecidas na edição e realização sagaz, com distrações próximas do efeito uncanny valley. Dan Trachtenberg impede os efeitos visuais de atingirem níveis descuidados ou de prejudicarem as suas cenas de ação potentes, ao encontrar o cerne emocional da sua protagonista e desenvolver uma viagem empolgante com crânios suficientes para um Predador regressar ao seu planeta, exibindo um sorriso indecifrável no seu rosto (?). Aliás, por cada peça duvidosa que retém esta prequela de ser o melhor filme desta saga, sobressai um aspecto, como o seu ritmoconsistente, a sua direção de fotografia lustrosa, uma banda sonora tocante ou o seu formato simples, direto e eficaz, que nutrifica o seu vigor como um dos melhores blockbusters deste ano.

Enquanto distribuidoras algemam audiências a franchises dececionantes nas salas de cinema, Prey ressalta com uma penosa verdade arrastada nos seus créditos finais, entre o reflexo da luz na televisão, irrompendo pelas janelas do quarto ou da sala de estar, e o frustrante alerta de bateria fraca no portátil. É uma experiência cinemática presa num ecrã caseiro.

4/5
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