Piccolo Corpo (2022)

de Francisca Tinoco

Piccolo Corpo de Laura Samani integrou o seletivo programa da Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2021, destinado a destacar novas vozes do cinema mundial. Uma longa-metragem de estreia para a realizadora italiana, chega aos cinemas portugueses no final de fevereiro de 2024, pelas mãos da RISI FILM, e merece atenção e curiosidade.

Contemplativo e ponderado, o filme segue a travessia de Agata, interpretada pela estreante Celeste Cescutti, pela floresta e montanha do nordeste de Itália, em 1901, na tentativa de levar o seu bebé nado-morto até um santuário remoto onde, segundo se conta, poderão reavivar a criança tempo suficiente para ser batizada. Segundo a religião católica, bebés que nascem sem vida, por nunca terem realmente vivido, não podem ser abençoados, relegando a sua alma a um limbo eterno.

Durante a sua viagem, Agata cruza-se com uma pessoa fugitiva, Lynx (Ondina Quadri), que conhece bem os caminhos enganadores e perigosos da natureza e, prometendo-lhe a caixa que carrega, sem revelar que contém o cadáver do seu bebé, pede-lhe que a acompanhe e guie até ao santuário.

Samani, que escreve o argumento com Marco Borromei e Elisa Dond, antigos colaboradores na curta de 2016, La Santa Che Dorme, explora com delicadeza e mestria o conflito entre os elementos da feminilidade e maternidade e os limites que a religião lhes impõe. Permeando toda esta temática, sente-se um apreço e admiração pela cultura da região italiana de Friul-Veneza Júlia da qual a realizadora é oriunda. As personagens falam o dialeto friulano, sendo que Cescutti foi selecionada através de uma open call para atrizes amadoras fluentes nesta língua, e a própria estrutura de odisseia permite a Samani explorar os recantos extensos desta região que junta o Mar Adriático aos Alpes.

É um filme denso, repleto de simbolismo, mas que, na sua essência, retrata a coragem de uma mulher que pretende trazer a paz eterna à sua criança e que, para tal, se subjuga a múltiplos desafios, condições extremas, e problemas de sanidade. Expõe, sem pudor, a beleza e os horrores que coexistem na experiência de ser mãe e mulher, ancorados por uma prestação estoica e destemida de Cescutti.

Por sua vez, a personagem de Quadri adiciona uma camada extra aos temas de género que Piccolo Corpo se propõe a examinar. Torna-se difícil encontrar a linguagem certa para abordar esta linha narrativa secundária de Lynx, uma vez que as respostas para as questões que a mesma levanta não nos são dadas de forma explicita no filme. Além disso, explorá-las aqui iria revelar demasiado acerca de uma das poucas reviravoltas que se podem encontrar em Piccolo Corpo. Ainda assim, fica a nota desta personagem enquanto um dos elementos mais fascinantes do filme de Samani, que adiciona muito à viagem de Agata não só no sentido literal da palavra, como nos sentidos emocional e espiritual.

Piccolo Corpo é uma produção minimalista que aproveita ao máximo as potencialidades realistas dos cenários lindíssimos e imponentes da província de Udine, recorrendo o mínimo possível a ferramentas cinemáticas artificiais. A história é contada de forma linear, acompanhando Agata quase em tempo real, e as performances de todo o elenco são de uma naturalidade desarmante.

Por tudo isto, os seletos momentos surrealistas com que Samani escolhe pontuar o seu filme adquirem ainda mais impacto. Apesar de se destacarem dentro do hiper-realismo do filme, são bem integradas dado o desconforto e misticismo inerente à sua premissa, sendo que logo nos primeiros minutos somos deparados com rituais religiosos estranhos, a tragédia que é ver nascer um filho já morto, e a loucura da decisão de Agata de, dias após o parto, decidir partir numa viagem longa até ao topo de uma montanha com a sua criança fechada numa caixa que leva às costas. Afinal, a própria maternidade é a coisa mais natural e, ao mesmo tempo, surreal que pode haver.

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