Perfect Days (2023)

de Pedro Ginja

Dias Perfeitos ou a Arte do Contentamento Contente.

Um dia perfeito, segundo Lou Reed, seria beber sangria no parque, alimentar os animais no zoo e, claro, ver um filme também. Todos, sem excepção, temos a nossa própria lista de actividades que nos preenchem, no nosso íntimo, de um modo mais especial. Para o Sr. Hirayama (Kôji Yakusho) a sua felicidade é retirada da sua vida quotidiana, como assistente operacional de higiene na prefeitura de Tóquio. Seja através da música que ouve de cassetes durante as viagens para o local de trabalho, de olhar para cima para as copas das árvores e o registar com a sua câmara fotográfica, durante as suas pausas no parque, ou de ler um livro, religiosamente, todas as noites até os seus olhos cansados cederem. Tudo isto e todos os que se cruzam com o Sr. Hirayama compõem os seus dias perfeitos segundo Wim Wenders.

Não é inocente o uso de assistente operacional de higiene como maneira de descrever a sua profissão pois é comum, nos dias de hoje, disfarçar a verdadeira natureza do que fazemos por vergonha do julgamento de amigos ou da própria sociedade. Na verdade, ele circula pela cidade a limpar casas de banho públicas e fá-lo com um brio tal que não pode ser nada menos que profundamente comovente. Mesmo antes de iniciar o seu dia brinda-nos com um sorriso de orelha a orelha no momento em que sai de casa e olha para o céu. Este “ritual” repete-se por inúmeros dias e durante este tempo partilhamos a vida do Sr. Hirayama na beleza da simplicidade de um aceno de agradecimento de uma criança, num fechar de olhos emocionado a ouvir uma canção ou na partilha de um momento com alguém sem o uso de palavras, mas também no julgamento dos outros, na indiferença ou no aproveitamento destes da sua bondade natural.

Kôji Yakusho circula pelos meandros deste homem como um maestro conduz uma orquestra. Cada gesto, cada olhar, cada silêncio preenche a personagem de uma complexidade emocional, sem qualquer pista do seu passado, levando o espectador a querer preencher esse vazio. Essa constante aura de mistério revela o Sr. Hirayama no agora e não no que era ou no que há-de vir. A realização do espectador desse facto permite-nos apreciar, ainda mais, o trabalho deste grande actor, justamente premiado com o prémio de melhor actor em Cannes. E ver a subtileza e o uso primoroso do silêncio vencer sobre qualquer maniqueísmo ou truque de marketing é sempre particularmente satisfatório.

Wim Wenders e Takuma Takasaki revestem o argumento de pequenos “presentes” para nos indicar o caminho ou uma solução possível para quem é este homem mas a beleza de reflectir sobre eles, no final do filme, é de percebermos que são momentos fugazes e irrepetíveis e nunca as pistas de que pensávamos necessitar para dar um sentido à história. Esse momento de clarividência acontece no plano final, numa fusão plena entre alegria e tristeza como também visto em Inside Out (2015) de forma tão brilhante, funcionando como a catarse emocional desejada.

Ao mostrar a beleza da vida na sua natureza repetitiva Wim Wenders consegue, com este Perfect Days, conjurar o mais belo poema sobre o sentido da vida. Não sabemos quando será a próxima vez de Wenders a explorar a sua veia narrativa mas este agora foi particularmente sublime. Rejubilemos.

Ps: Da próxima vez que olharem para cima reparem naquele solitário raio solar que atravessa a densa copa de uma árvore enquanto um suave vento embala as folhas com um sopro de vida. A essa “dança” de luz e sombra, intemporal e irrepetível, chamam os japoneses de Komorebi (木漏れ日). Não se esqueçam de o aproveitar.

5/5
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1 comentário

António Lourenço 20 de Dezembro, 2023 - 15:55

De ressaltar o tal excesso de perfeição e minucia do protogonista, que vai ao ponto de observar, com uma lupa, o rebordo interior das sanitas.
Por outro lado não diria “como um Maestro’ pois nestes implica uma introspeção, interioridades e uma fila de emoções, não pertinentes num ‘toilete cleaner’, isto respeitando cada macaco no seu galho…

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