Pátria (2023)

de Pedro Ginja

E se de repente em Portugal houvesse, novamente, uma ditadura e a liberdade fosse uma utopia? Uma sociedade dividida entre “expatriados” e os apoiantes do regime, o SSK. Mário (Tomás Alves) é um dos expatriados, derrotado pelo regime numa revolução anterior, que acaba condenado a trabalhos forçados. Jonas (Rafael Morais) é um membro da milícia popular do SSK, o partido do poder, e responsável por controlar a população de expatriados onde habita. Um homem com plenos poderes para impor as leis do regime, sem controlo dos poderes invisíveis.

É neste desequilíbrio entre Mário e Jonas que Bruno Gascon nos introduz a história de uma realidade alternativa de Portugal em que nos é dada muito pouca informação. Expatriado é um termo muito utilizado na história e representa os exilados, condenados por crimes contra a pátria. Esta pátria é um mundo unido e sem fronteiras onde existe apenas um líder, o comandante supremo do mundo. A explicação é dada por supostas imagens de arquivo desta realidade mas tudo muito generalista, sem subtileza e com a repetição de “chavões” de uma qualquer ditadura distópica, como George Orwell no seu livro 1984, do qual este filme parece retirar bastante inspiração mas pouco conteúdo.

Existem dois lados, heróis e vilões e não parece haver espaço para ficar nas margens desta sociedade. O uso exagerado de insultos e linguagem vulgar, como é tão repetitivo, acaba por tornar-se irritante e retirar ao espectador o interesse pelo destino dos seus protagonistas. Do lado dos heróis, a liderança está a cabo de Tomás Alves, como Mário, com semblante preso num esgar permanentemente zangado e, para além de algumas conversas ao telefone repetidas inúmeras vezes como explicação do seu estatuto de expatriado, pouco mais oferece ao papel para além do seu arco de herói relutante à espera de um sinal para a revolta. Do lado dos vilões, Rafael Morais, como Jonas, tem um pequeno arco em que espera por uma comunicação oficial do seu estatuto. Isto cria alguma tensão pessoal e no seio do grupo mas quando chega a resolução não passa de um fait-divers sem qualquer relevância na história. É, no entanto, notória a tentativa de dar a este Jonas um pouco mais do que é pedido. Principalmente quando partilha as cenas com Iris Cayatte no papel de Hanna. Há uma loucura instalada neste amor que é difícil de explicar por palavras mas que dá à história um factor de imprevisibilidade muito bem-vindo. Quando estão sozinhos ou separados essa energia perde-se e o filme sofre com isso. Na galeria de actores secundários destacam-se Matamba Joaquim e Michalina Olszanska, como Ismael e Sarah respectivamente. Ismael é o catalisador para o “renascimento” do espírito revolucionário de Mário enquanto Sarah é o seu interesse amoroso e uma outra razão para Mário “acordar”. A magia, no entanto, não se repete nesta ligação amorosa, onde a química entre Michalina e Tomás não existe. Cria-se ainda um elemento de tensão entre Ismael e Sarah, mas a falta de convicção na sua personagem, por Michalina Oszanska, retira em ambos os casos o investimento emocional do espectador na sua personagem. Ismael tem os seus momentos, apesar de breves, mas logo é esquecido quando não é útil ao desenrolar da narrativa.

Face ao investimento bem menor que muitos produtos de Hollywood é relevante mencionar o trabalho de cenografia e de design dos elementos desta sociedade utópica como positivos. A primeira sequência de acção, um encontro infeliz para a personagem de Mário com uma patrulha do SSK, abre a esperança de um trabalho consistente dado os parcos recursos, com uma edição inteligente, uma fotografia competente e um trabalho de caracterização louvável. Mas infelizmente o mesmo não se passa durante a restante duração do filme. Os diálogos ganham preponderância e a acção acaba por ser ou cortada antes do seu início ou efectuada fora do ecrã. É preciso esperar até ao desenlace para ver esta qualidade novamente, principalmente em alguns planos marcantes e decisões de direcção de fotografia fenomenais mas a ambição desmedida de produzir um confronto final épico acaba por precipitar a desilusão.

Como é repetido constantemente em críticas de filmes nacionais, é clara a ambição de trazer ao público português propostas diferentes na maneira de fazer cinema em Portugal. Pátria é mais um destes exemplos de uma clara evolução na forma de diversificar as possibilidades da indústria. Falta um maior cuidado na escrita do argumento, para além de generalidades e frases feitas, e a procura de soluções alternativas para compensar a nossa falta de fundos. Bruno Gascon consegue-o em alguns momentos mas acaba por falhar no resultado final.

2.5/5
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Cinquentenário do 25 de Abril: A Liberdade no Cinema - Fio Condutor 24 de Abril, 2024 - 22:33

[…] filmes como Pátria (2023) de Bruno Gascon e O Que Podem as Palavras (2022) de Luísa Marinho e Luísa Sequeira se difundam e […]

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