Paraíso (2021)

de Rafael Félix

O Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, serviu de sede ao governo brasileiro até este estabelecer Brasília como capital administrativa durante a década de ’60. Ficaram os Jardins do Palácio – agora o Museu da República – que todas as tardes são invadidos por homens e mulheres, quase todos de rostos profundamente marcados de rugas e costas dobradas sob o peso dos seus 80, 90 ou alguns 100 anos de vida, para pintarem os jardins com tons de seresta. Os intérpretes trazem as suas vozes, não raras vezes já trémulas da idade, e os músicos locais dão o ritmo ao som de guitarras e cavaquinhos, colocando as suas cordas à mercê de qualquer um que tenha em si a vontade de dar cor à música brasileira, alguma dela mais antiga do que qualquer um dos idosos que lhes dão vida.

É aqui que Sérgio Tréfaut volta, 40 anos depois de deixar o Brasil, para reencontrar um país que ficou na sua adolescência e que agora a sua vida adulta quis redescobrir. O encanto por este Paraíso de música e beleza popular é tão claro que se tornou o título do seu documentário, que vislumbra esta cultura de seresta pelos olhos de um estranho perdido de amor por estes jardins cheios de música, velhas estrelas, brilhantes anónimos e vidas simples. Entre longas e sucessivas secções de canções e guitarras, é-nos permitido espreitar para os bastidores da vida destes intérpretes; para as suas habitações precárias e degradadas, marcadas pela pobreza, e as suas existências isoladas e feitas de sonhos esquecidos de uma juventude que já lá vai, mas onde a música brasileira abunda, se não em vinil, pela voz e coração dos seus velhos habitantes. Fica, no entanto, a sensação de que estas pessoas não são olhadas como seres tridimensionais, e Paraíso não nos permite conhecê-las tão bem como deveria, dando primazia à identidade coletiva que marca estes jardins, mas perdendo pelo caminho as emoções e histórias individuais que a constroem.

Ainda assim, estes momentos não são abundantes. Na realidade, são raros os períodos em que não estamos a ouvir uma versão bela de Não Deixe o Samba Morrer ou uma cantiga de saudade interpretada pela voz de uma reformada com paixão por Chico Buarque e a sua Madalena foi pro Mar. A música é de uma beleza inegável, mas a sua sucessão incessante instala por vezes uma monotonia que, se por um lado é congruente com o quotidiano dos seus protagonistas que passam os seus dias de reforma à sombra das árvores dos Jardins do Palácio, por outro torna-se uma sessão de hits que se sente repetitivo ao fim dos primeiros 45 minutos.

Vale não esquecer que as gravações de Paraíso são pré-pandemia. A sua fase final debruça-se sobre a tragédia que assolou esta geração de brasileiros, abandonados à mercê do Covid-19, para morrer e definhar perante o olhar tácito e implacável do governo de Bolsonaro, trazendo um silêncio sombrio aos jardins que outrora se encheram de vida, cor e música. Paraíso tornou-se, ainda que acidentalmente, sobre estes homens e mulheres, deixados para trás numa sucessão de atos institucionais que se assemelham a genocídio, e que a sua voz e espírito Sérgio Tréfaut eternizou em película, dedicando-lhes também o filme. O papel de dar uma voz a quem sentiu nos seus últimos dias que não a tinha, é um legado de um valor incalculável e é um legado que, de forma agridoce é certo, deveria encher Tréfaut de orgulho.

3/5
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Pedro Ginja 23 de junho, 2022 - 00:43

Bonita análise e homenagem a mais um filme que passou despercebido do comum dos mortais.

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