Os Demónios do Meu Avô (2022)

de João Iria

Encarcerado por memórias, o corpo mantém-se fisicamente encaminhado para um futuro emocionalmente distante, enquanto o desejo por dias melhores perdura em constantes pensamentos diários. A saudade de uma emoção que nunca existiu ou que nunca foi permitido existir, permanece no povo português e transparece nos seus movimentos artísticos. Desde os géneros musicais intrínsecos à identidade lusitana como o fado, até aos clássicos da sétima arte que exploram uma tristeza inerentemente portuguesa refogada em vinho e gargalhadas, o coração luso sempre demonstrou a melancolia poética de continuar a viver nas suas obras artísticas. Todavia, as últimas décadas exibiram, em termos comerciais, uma crescente separação profunda dessas origens e dessa identidade nacional no entretenimento. Indivíduos mudam com o seu país e uma transformação essencial ocorre para escapar de um passado de verdadeiro sofrimento.

Com os olhos no futuro, Rosa (Voz: Vitória Guerra) dedica-se a uma vida solitária de trabalho para atingir os seus objetivos profissionais. Sem tempo individual, tudo o que resta é refletir sobre o passado e recordar os dias de infância com o seu avô, numa aldeia transmontana onde cresceu. Apesar deste anseio por regressar a estes dias de simplicidade, Rosa expressa consciência da distância física e emocional que existia entre os dois, principalmente manifestada pela própria. Enquanto lê as cartas perdidas do seu avô Marcelino (Voz: António Durães), a jovem recebe um telefonema com a notícia do seu falecimento, incentivando o seu retorno a Vale de Sarronco.

Assim inicia a primeira longa-metragem portuguesa em animação stop motion, Os Demónios do Meu Avô, uma coprodução internacional realizada por Nuno Beato. Inspirado pelas figuras de barro da ceramista Rosa Ramalho, esta narrativa é um passeio pelo folclore nacional que navega por temas tradicionais e contemporâneos acerca da força da comunidade e a sua simultânea reforçada fragmentação. Estes conceitos são inseridos na construção dos visuais desta história com uma utilização inteligente de animação 2D, semelhante aos vídeos de publicidades genéricas que passam antes dos vídeos que queremos realmente ver no Youtube, e uma impressionante produção deste mundo transmontano, onde estas figuras ganham vida.

Nesta passagem e transformação de imagem, encontramos os pequenos demónios de barro, construídos por Marcelino, a invadir o espaço de Rosa. As criações personificam os habitantes deste local como também os medos e os pecados do seu avô, cujo espírito é evocado pelos cantos desta casa destruída pelo tempo e pelas suas ações perante a aldeia. Através da sua presença, Rosa sente-se motivada a erguer as pontes derrubadas por um homem perturbado pela solidão e pela auto-reflexão. São estas pausas que as personagens sentem na sua alma que propulsionam Os Demónios do Meu Avô para uma encantadora obra emocional.

O seu elenco formidável proporciona um ambiente charmoso à narrativa, na energia de Vitória Guerra; na voz soturna de António Durães e na vivacidade dos atores secundários, como Nuno Lopes a representar João, o amigo mais próximo de Rosa; Ana Sofia Martins, interpretando a amigável vizinha Laura e o seu adorável filho, Chico, com voz de Martim Carvalho Balsa. Através de uma estética lusa e personagens carismáticas, esta equipa criativa transmite para a audiência, um regresso aos tempos onde existia força numa comunidade próxima e até nas próprias famílias.

Este charme consegue resgatar o filme nos seus momentos visuais mais limitados, devido ao seu orçamento restringido, e nos instantes em que o argumento se perde no seu mundo e nos seus sub-enredos. A principal magia desta longa-metragem surge quando Os Demónios do Meu Avô entra na sua atmosfera de fábula, formada na relação entre Rosa e Marcelino, e na harmonia que cresce entre a jovem e a sua aldeia de infância; são cenas cativantes que retiram um pouco do estímulo dramático noutros aspetos narrativos, em comparação. Uma consequência natural, nomeadamente porque é uma história acerca da falta de magia na presente identidade lusitana. A consciência dessa saudade é o elemento fundamental para elaborar o conceito de uma assombração como a memória de um desejo perdido.

Os Demónios do Meu Avô é um sucesso no género da animação que espalha orgulho no cinema nacional. O seu imaginário abre um futuro de imensas possibilidades para este meio artístico em Portugal; refletido nas suas inspirações visuais e nos seus métodos tradicionais e atuais de filmagens, esta é uma recordação da necessidade de batalhar os demónios antigos e remendar os danos causados por essas criaturas; incluindo a distância criada entre o povo português e o seu passado. Uma mensagem esperançosa sobre existir entre o melhor dos dois espaços temporais, no nosso país e na nossa arte.

3.5/5
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