Mais um ano. Mais um top de melhores filmes. Podemos afirmar 2025 como um ano grandioso repleto de surpresas inesperadas e blockbusters excelentes que rivalizaram o cinema independente. Neste ano tivemos um equlíbrio perfeito entre ambição financeira e visão artística, com Ryan Coogler a finalmente estabelecer o seu nome em projectos originais e Paul Thomas Anderson a recordar que consegue criar uma longa-metragem acessível para o público geral, sem perder a sua voz. No lado internacional tivemos o grande regresso de Jafar Panahi para o cinema de ficção, Aproveitamos para mencionar que entram na lista apenas os filmes que estrearam em Portugal em 2025, seja em sala de cinema ou em streaming.
Apresentamos, então, o top de filmes de 2025 da equipa do Fio Condutor, juntando as escolhas do grupo com os tops individuais de cada um. Aproveitem para ver estas excelentes obras dignas da vossa atenção, do vosso tempo e do vosso amor.
Menção Honrosa: Black Dog, de Guan Hu

“Há filmes que não procuram deslumbrar pela grandiosidade, mas antes pela contenção obstinada. Black Dog (Cão Preto), de Guan Hu, é um desses gestos raros: uma narrativa seca, quase brutal, na qual a redenção não se grita, antes se adivinha nos silêncios e nos gestos suspensos. Regressando a uma escala intimista, depois de incursões em épicos históricos, Hu descobre no deserto uma metáfora árida para uma China em mutação e, na ligação entre um homem e um cão, uma inesperada afirmação de humanidade. Vencedor do Un Certain Regard em Cannes, no ano passado, onde também foi agraciado com o segundo lugar no Palm Dog, Black Dog é um filme de fronteiras — entre géneros, entre tempos, entre vidas esvaziadas — que se impõe não por excesso, mas por um rigor emocional raro no cinema contemporâneo.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Matilde Garrido aqui.
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Menção Honrosa: Weapons, de Zach Cregger

“A elevação estética do cinema de terror, a sua capacidade de conquistar bilheteiras milionárias e aclamação tanto do público como da crítica têm alimentado campanhas de marketing cada vez mais agressivas para os grandes estúdios terem projetos que serão os seus potenciais destaques. Todos os anos, frases como “o novo clássico do género” ou “tão aterrorizante como ‘The Exorcist’ (1973)” surgem estampadas em cartazes e análises de selecionadas produções. Algumas dessas obras, de facto, marcam a época e redefinem o género, como The VVitch (2015), Get Out (2017) e Hereditary (2018). Outras, porém, revelam-se desilusões monumentais, como aconteceu com Longlegs(2024) – e, infelizmente, Weapons (Hora do Desaparecimento), do realizador e argumentista Zach Cregger, segue pelo mesmo caminho.”
Leiam a crítica (ironicamente negativa) ao filme, escrita por Bruno Sant’Anna aqui.
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10. Chainsaw Man – The Movie: Reze Arc, de Tatsuya Yoshihara

“Reze Arc é extraordinário porque atrás da violência, da sexualidade e da insanidade existe uma história profunda sobre inocência perdida e o poder regenerativo do amor. É um romance. Um romance brutalmente poético, mágico e fatídico que envolve um homem motosserra a calvagar um Tubarão Demónio por prédios a explodirem, durante um tufão. É precisamente esta combinação de loucura e alma que eleva Chainsaw Man além do seu conceito banal dentro do universo de animes e mangas, uma moda meio cansativa no Japão com excessivas criações sobre caçar demónios. Fujimoto ultrapassa os seus contemporâneos ao explorar este mundo sem receio de afastar audiências, aprofundando os clichés dos shōnens. Personalidades são ocasionalmente detestáveis (sempre fascinantes), pessoas com feridas impossíveis de cicatrizar manifestam as suas dores, a sua tristeza e sofrimento através de vícios; de violência e sexualidade – ambas retratadas com significado, com propósito além de satisfazer os fanboys excitados por sangue e mamas. Chainsaw Man atribui significado ao sangue e às mamas. A sua estranheza funciona porque nunca se esquece de ter um coração. O autor e o realizador Tatsuya Yoshihara compreendem que a felicidade é como uma granada de mão sem uma cavilha. Esta é a sua tragédia. Uma flor não sobrevive contra uma bomba.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por João Iria aqui.
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9. Bring Her Back, de Danny e Michael Philippou

“Se a narrativa não possui a mesma sensação de novidade e criatividade do filme anterior – que surpreendia por parecer algo genuinamente único -, compensa na forma como aborda um tema já bastante explorado no terror: a possessão demoníaca. As personagens parecem não ser elas próprias, como se estivessem possuídas pelo próprio luto – por uma tristeza que não cabe nos limites físicos do corpo e que não compreendem. Outras vêem na possessão o único caminho possível para lidar com a dor, como se fosse uma forma distorcida de manter os mortos por perto ou, pelo menos, de não afundar com os vivos. O diferencial está no olhar que os realizadores lançam sobre estes tópicos, construindo múltiplas camadas emocionais ao seu redor. Há a dor inconsolável de uma mãe que perdeu a filha, o vazio de irmãos órfãos, a angústia de pais que não sabem se o filho desaparecido está vivo ou morto e, talvez o mais instigante, o alívio silencioso que pode surgir quando a pessoa que nos causava sofrimento finalmente morre. É nessa ambiguidade afectiva que o filme se ancora, dando profundidade a uma história conhecida.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Bruno Sant’Anna aqui.
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8. Frankenstein, filme de Guillermo Del Toro

“Ao contrário da adaptação de Whale, que privilegiava o terror expressionista e a iconografia do monstro, Guillermo del Toro conduz a narrativa para um território mais íntimo e trágico. Aqui, o cientista e a sua criação são espelhos de um mesmo trauma. Victor, filho de um pai abusivo, repete inconscientemente o ciclo de violência quando dá vida à criatura – construída a partir de fragmentos de corpos que ele considera perfeitos. Porém, a perfeição que procura é apenas uma tentativa de corrigir as feridas da sua infância. Quando a criatura desperta, o horror que se instala é mais psicológico do que físico: é o pavor de um pai perante um filho que reflete o pior de si mesmo.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Gabriela Castanheira aqui.
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7. The Brutalist, filme de Brady Corbet

“Filmado em VistaVision 70 mm, The Brutalist tira partido deste formato para criar uma profundidade visual fascinante, que amplifica a vastidão das paisagens e a imponência das construções. Combinando a influência da Bauhaus — visível de forma mais explícita nos créditos — e da arquitetura brutalista, o filme constrói uma estética que simboliza perfeitamente a dicotomia entre criação e destruição na busca pela grandeza, invocando o legado de The Fountainhead (Vontade Indómita, 1949). As suas imponentes e inóspitas estruturas contrastam com os momentos mais delicados e reflexivos da narrativa, afirmando-se enquanto um reflexo visual das lutas internas do protagonista e da complexidade da sua jornada.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Matilde Garrido aqui.
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6. Queer, filme de Luca Guadagnino

“O realizador italiano mantém o seu gosto de inspiração literária ao dividir o seu filme em capítulos, que em si carregam pouca narrativa no sentido mais clássico. Em vez disso vamos passando pelos inúmeros encontros entre Allerton e Lee. Uns em que o amor emerge descontrolado e no seguinte é o desconforto do primeiro que aparece, evitando os avanços angustiados de um Daniel Craig que parece sempre a meio caminho das lágrimas ou de uma falsa gargalhada. O que vemos é uma relação profundamente tóxica entre duas personagens aterradas com a ideia de não serem o que deveriam ser. Dois homens em negação: uma roça o patético, a passar de humilhação em humilhação por migalhas de atenção, o outro indiferente ao sofrimento que está a causar, mas assustado com a verdadeira natureza dos seus sentimentos. Queer não é uma história de amor. É uma sobre os efeitos perversos deste quando os seus intervenientes não sabem quem são. “
Leiam a crítica ao filme, escrita por Rafael Félix aqui.
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5. Nosferatu, filme de Robert Eggers

“Nosferatu é romântico, gótico, sensual e aterrador. É o filme com a estrutura mais clássica da carreira de Eggers, assim como, talvez, o mais percetível: um filme de estúdio com identidade e maneirismos de autor. Sente-se o fim de um ciclo. Encontrou a equipa de artistas que funciona numa simbiose perfeita – Blaschke, Muir, Ford e Lathrop – e com eles, Eggers cumpriu o sonho que era Nosferatu. Até aí chegar criou alguns dos filmes mais marcantes da última década, mudando a face do terror moderno pelo caminho. The Northman (2022) já havia deixado indícios disso e parece ter chegado o momento de o realizador partir para outros mares. Estes, já os domou.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Rafael Félix aqui.
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4. It Was Just an Accident, filme de Jafar Panahi

“A colaboração com atores não profissionais é comum ao corpo de trabalho de Panahi, tendência herdada da Nova Onda Iraniana e comumente utilizada pelo seu mentor Abbas Kiarostami para pintar um retrato contemporâneo da sociedade. É nestas atuações que misturam o real com o artifício, o profissional com o amador, que nasce uma fórmula de narrativa singular, onde o elenco é transformado em veículos do trauma de inúmeros presos políticos no Irão. As personagens representam uma amálgama de experiências, memórias vividas pelo realizador ou por com quem ele se cruzou durante o encarceramento, replicando vivências que persistem até hoje. Alguns conseguem, até certo ponto, continuar a sua vida, outros afundam no rancor do que se perdeu. Esta multiplicidade de experiências vai sendo evidenciada pelas personagens ao longo da narrativa através da tensão constante entre o ato moral e o impulso punitivo.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Eduardo Sacadura aqui.
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3. Ainda Estou Aqui, filme de Walter Salles

“Salles, às costas de uma performance absolutamente inspiradora de Fernanda Torres, utiliza as dinâmicas familiares dos Paiva para expor os horrores da ditadura: os desaparecimentos, perseguições, a tortura – física e psicológica – dos cativos e dos seus, a insegurança, o medo. Tudo isto presente na primeira parte do filme, onde conhecemos o charme gigante de Selton Mello como Rubens Paiva e a devoção de Eunice Paiva ao marido, aos filhos e aos amigos. Salles vai com pressa durante este período. Somos presentados com jantares, festas, dança, música, beijos roubados, amores adolescentes. Erasmo Carlos, Gal Costa, Tim Maia enchem Ainda Estou Aqui, num misto de celebração, dor e resistência que vem da rádio e se sobrepõe às filmagens em Super 8 captadas pelas câmaras portáteis dos adolescentes Paiva, que captam a felicidade de viver e o calor familiar do Rio de Janeiro. O medo do regime está latente, todavia Salles parece afogá-lo no meio de um espaço familiar tão idílico que aparenta ser impermeável ao caos e violência do exterior.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Rafael Félix aqui.
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2. One Battle After Another, filme de Paul Thomas Anderson

“Ao longo da sua história, o Cinema, na sua vertente mais realista, tem estabelecido uma relação íntima com as ideologias e movimentos políticos dominantes nas suas diversas eras. De Griffith (The Birth of a Nation, 1915) a Eisenstein (Battleship Potemkin, 1925) esta ligação é tão profunda que associa determinadas obras a inovações estruturais da linguagem cinematográfica. Os filmes citados, intimamente influenciados pelo contexto histórico, extremista e divisório em que foram criados, revelam-se artefactos propagandistas fiéis às convicções dos seus criadores, moldando a realidade à sua ideologia e ecoando um discurso unidirecional e autocrático para a audiência, impossibilitando à mesma a construção de uma visão democrática e plural sobre os eventos representados. Felizmente para nós, enquanto espectadores e espécie, a evolução do Cinema Político tem-se alinhado com o desenvolvimento do pensamento crítico individual, substituindo os “heróis” de outrora e as suas verdades absolutas por personagens complexas que ocasionalmente observam os seus comportamentos na oposição que abominam, denunciando as incongruências presentes na esperança de uma reforma social. A mais recente obra de Paul Thomas Anderson, One Battle After Another, apresenta-se como um dos contributos mais influentes da década para esta autorreflexão contínua que vamos realizando no grande ecrã.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Eduardo Sacadura aqui.
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1. Sinners, filme de Ryan Coogler

“A paixão de Coogler por esta história, elevada pela fotografia ampla e destemida de Autumn Durald Arkapaw, é evidente em cada plano, cena, e sequência. Sinners é especial pela sua habilidade de transformar conceitos familiares em algo maior, em serviço de um todo que é bem mais do que a soma das suas partes. Um conto visceral e apaixonado, mas também sensual e dinâmico que dialoga com o género popular do terror que, por sua vez, dialoga com o folclore e as tradições ancestrais que em tanto informam a experiência afroamericana. O resultado é uma sinergia cantante e dançante, tematicamente motivada, que proporciona 138 minutos de puro divertimento feito exclusivamente para a experiência escura e envolvente da sala de cinema.”
Leiam a crítica ao filme, escrita por Francisca Tinoco aqui.
