Oppenheimer (2023)

de Rafael Félix

“E o que significa o J?”, alguém pergunta. “Nada” é a resposta. O J em questão vem de Julius, o primeiro nome, esquecido pela História, de J. Robert Oppenheimer, o batizado “pai da bomba atómica”, diretor do Projeto Manhattan que, durante 3 anos, construiu as armas de destruição maciça que viriam a incendiar centenas de milhares de pessoas em Hiroshima e Nagasaki em Agosto de ’45.

Christopher Nolan baseia-se no livro de Kai Bird e Martin J. Sherwin, The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, vencedor de um Pullitzer, para recontar a história do físico norte-americano, desde os seus tempos em Cambridge, passando pela estadia em Los Alamos, o desenvolvimento da A-Bomb, e as comissões de inquérito que o viriam a perseguir sob a vaga anti-comunista de McCarthy e Hoover, sempre sob a sombra projetada pelas possibilidades cataclísmicas que o seu trabalho pode implicar.

A história do homem é longa e as 3 horas de Oppenheimer têm um trabalho difícil em mãos, trabalho esse que tem sido, desde há muitos anos, a batalha constante de Nolan: o equilibro entre conceito e personagem. Se Tenet (2020) foi o exemplo mais grotesco de uma ideia boa que se esqueceu de ter personagens pelo meio, Oppenheimer tinha a vantagem de ser todo ele centrado à volta de uma única figura. Nem isso é suficiente para arrancar o realizador dos seus maus hábitos, ainda que com resultados mais satisfatórios.

A ambição destes filmes em recusarem-se a ter uma estrutura temporal linear é um veículo interessante que dá espaço a que o inesperado aconteça numa História que está contada há 70 anos, mas paga sempre o preço de se perder algo pelo caminho. Mesmo com a interpretação brilhante de Cillian Murphy, rodeado de metade de Hollywood (a metade branca, pelo menos), Robert Oppenheimer é pouca manteiga para tanto pão, e no meio de sequências e sequências de discussões políticas, teóricas e militares, nem sempre o guião de Nolan consegue penetrar a mente de “Oppie” o suficiente para carregarmos com ele o peso da responsabilidade que este leva aos seus magros ombros. Estes dilemas morais, que aparecem de forma espaçada no filme, são substituídos por momentos que podiam ser retirados de um filme de espionagem, por entre sessões de interrogatórios sobre ligações a comunistas e agentes soviéticos sem gigantesca nuance, e sequências de brilhantismo estético de cortar a respiração como o realizador tanto nos habituou; desde raios de luz ofuscantes e ensurdecedores a momentos de fantasia erótica que saltam à vista maioritariamente por parecer estarem no filme errado.

Oppenheimer é um filme em conflito consigo mesmo, um malabarismo que tenta manter no ar uma biopic, um blockbuster e um character study em que mais tarde ou mais cedo alguma das peças terá de cair com estrondo no chão. Quando cai, os outros elementos conseguem quase sempre segurar o barco, ainda que de forma algo atrapalhada. A estrutura e a avalanche de nomes tornam-se avassaladores de acompanhar, roubando impacto dramático a momentos que deviam ser de relevação e tornam-se apenas um exercício constante de memória demasiado rápido para ser resolvido, mesmo quando as personagens estão diretamente a descrever o que se tem estado a passar ao longo do filme.

O excesso de linhas narrativas e diluição das temáticas deixam um vazio em Oppenheimer, que tem sido sintomática de Christopher Nolan, contínua vítima de si mesmo. Há discussões sobre a natureza do comunismo, sobre o papel moral do cientista perante aquilo que vai trazer ao mundo e sobre as consequências, danos colaterais e destruição que assombram o caminho daqueles que mudam o mundo, sejam eles Oppenheimer, Lewis Strauss (num trabalho incrível de Robert Downey Jr.) ou o Presidente Truman (Gary Oldman), e tantas outras pedras de toque que o argumento toca e mesmo com as suas 3h, parece sempre que nada é particularmente aprofundado.

Com isto, também é facto que Oppenheimer é profundamente ambicioso naquilo que procura fazer e é levado a cabo por atores no seu primor e, mesmo na sua longa duração, cada momento se sente fulcral para o filme seguir o seu percurso, mas ficando sempre um sabor amargo a potencial não concretizado. Cada elemento do 10º filme de Christopher Nolan traz consigo todo um mundo de genialidade assim como grãos de areia que dificultam o normal funcionamento do mecanismo, como uma banda sonora que, apesar de inventiva, já não é particularmente nova a Nolan, que, a cada filme, se desafia a torna-la cada vez mais endurecedora – um elemento que piorou desde que começou a colaborar com Ludwig Goransson; a fotografia belíssima para projeção em IMAX de Hoyte Von Hoytema mantém a insistência em close-ups que nem sempre permitem apreciar o excelente trabalho de design de Ruth de Jong que traz vida a salas que nas mãos de outro iriam parecer estéreis; e personagens femininas bem atuadas por Florence Pugh e Emily Blunt, mas que, como sempre com Nolan, são pobres e ao serviço do homem central.

“Now I am become Death; the destroyer of worlds. As famosas palavras que Oppenheimer proferiu sobre o que sentiu após o teste do projeto Trinity, apenas um mês antes de Hiroshima e Nagasaki, soam vazias apesar de cativantes e isso é curto, as vozes dos mortos e o calor das chamas estão presentes, mas são adereços visuais em vez de assombrações e há a possibilidade de assim o ser por defeito. Nunca estão claras as motivações de Oppie para desenvolver o projeto – seja um desejo de vingança pela sua herança judaica, arrogância, o sonho das Nações Unidas faladas por Roosevelt, ou todas elas –,  nem a sua relação com o monstro que a deu vida, e mesmo quando estas são verbalizadas diretamente para o público – mais um hábito de Nolan – essa frieza, propositada ou não, reduz aquilo que podia ser um filme transcendente sobre uma das figuras mais complexas do século XX, num blockbuster de acessibilidade limitada com ritmo frenético que se mantém em modo cruzeiro durante mais de metade da sua duração, tendo todos os elementos para fazer melhor do que aquilo que acaba por fazer.

Oppenheimer eleva-se quando se deixa levar pelas implicações dos pequenos atos e da sensibilidade humana. As reações em cadeia que preconizam o fim do mundo podem ser trazidas pela separação do átomo ou pela fragilidade masculina de um ego demasiado volátil, e se todo o filme se centrasse à volta dessa ideia, Oppenheimer seria aquilo que devia ter sido sempre: um filme sobre espíritos, não engenhos, habilitando-se a ficar perdido no mar da História como se perdeu o J. do nome do homem que voou demasiado perto do Sol.

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