Old (2021)

de Sara Ló

Querendo ou não querendo, há que admitir que M. Night Shyamalan tem o seu lugar no mundo do cinema. É impossível sair de um filme de M. Night sem que este tenha deixado uma marca bem vincada no espectador – seja ela positiva ou negativa, nunca é indiferente. Depois de altos e baixos na sua carreira, chega-nos em 2021 a sua obra mais recente, Old no pun intended -, uma bizarra peça de entretenimento, vagamente adaptada do graphic novel francês Sandcastle (2010), de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters.

A história segue a família de Guy (Gael Garcia Bernal) e Prisca (Vicky Krieps), numas férias bem merecidas num luxuoso resort, longe dos problemas e stress da vida real. Juntamente com os seus filhos Trent (Nolan River), de 6 anos, e Maddox (Alexa Swinton), de 11 anos, são levados pelo chauffeur do resort – interpretado, nada mais nada menos, pelo próprio Shyamalan que não resiste ao seu cameo habitual – a uma praia paradisíaca e super-secreta, exclusiva para os hóspedes mais especiais, que neste caso incluem: o rapper chamado Mid-Sized Sedan (Aaron Price); o cirurgião Charles (Rufus Sewell – que, diga-se de passagem, é o destaque do filme) e a sua família; o enfermeiro Jarin (Ken Leung) e a sua companheira Patricia (Nikki Amuka-Bird).

A praia é, de facto, um lugar especial. Rodeada de rochedos e com uma atmosfera mística, uma série infindável e sucessiva de eventos estranhos começam a tomar conta da narrativa. Além de desmaiarem sempre que tentam sair da praia, apenas para aparecerem miraculosamente na areia, algo sinistro começa a acontecer fisicamente a todas as personagens: rugas nas suas caras, feridas que saram a um ritmo extraordinário, os fatos de banho dos miúdos ficam cada vez mais apertados e desconfortáveis. E eis que chega a revelação: o tempo naquela praia comporta-se de forma diferente. TAN-TAN-TAN!

Claramente uma alusão à mortalidade e à forma como o ser humano lida com a terrível e inevitável condição de – passo a redundância – ser humano (a mutação dos nossos corpos, da nossa voz, da nossa mente), Old contorna as linhas gerais daquilo que é um mistério tradicional. Aqui, não é propriamente importante descobrir o que raio está a acontecer a este grupo de pessoas. Talvez seja mais fácil de ver e gostar de Old se for visto como um terror surrealista, em vez de um thriller que precisa de explicações. O melhor seria não pensar muito no assunto, deixar as justificações de lado e não tentar arranjar lógica para os acontecimentos. 

O filme está no seu melhor quando se foca no absurdo e irracional, mas como isto é um filme de M. Night Shyamalan, há voltas e voltinhas e pseudo-plot twists que infelizmente fazem o filme descambar quando decide oferecer à audiência explicações lógicas, numa tentativa de ligar pontas soltas, completamente desnecessárias.

De forma a manter o rating de PG-13 (o guia que define que o filme pode ser visto a partir dos 13 anos), há claramente uma restrição nas cenas – supostamente – mais violentas. Num filme que deveria abraçar o body horror, pela temática que está a abordar, o gore é maioritariamente escondido pelo desviar da câmara, e não da forma brilhante que Se7en (1995) o faz, onde também o conteúdo gráfico é off-screen.

Mesmo com as fortes tentativas dos actores de darem a sua melhor performance com o argumento que lhes foi dado, os diálogos são cringe, desajeitados e dignos de um valente eye-roll. A premissa (já oriunda do material de origem) é intrigante, mas nas mãos de M. Night acabou por se tornar mais humorístico do que aquilo que seria a sua intenção inicial. Com The Happening (2008) já tinha acontecido – no pun intended –  exactamente o mesmo, apesar de estar num nível de absurdidade mais hilariante.

É pena.

2.5/5
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