No Time to Die (2021)

de Marco Sardinha

(Some) Women want him. And (some) men want to be him. 
Eu queria. Desde que tenho 7 anos.

O Bond está para mim, como a Marvel estará certamente para tantos outros, mas eu sou altamente parcial, porque spy films são um dos meus géneros favoritos. E este é o meu espião favorito, não só porque é ele que define o arquétipo, mas porque nunca nenhuma outra personagem conseguiu cativar a minha imaginação com esta dose extra sacarosa de “suaveness“, sophistication, e glamour exótico. Mas bem, como se não fosse já óbvio o suficiente: eu gosto muito deste franchise. Tanto, talvez, que acho que ele apanha um blindspot na minha mente, onde aqueles que são os pontos problemáticos do franchise, da fórmula, e da personagem, me parecem passar completamente ao lado. A negação é uma coisa linda, não é?

Em No Time to Die (de Cary Fukunaga), mais do que em qualquer um dos outros 4 filmes que compõem a pentalogia de Craig (Casino Royale, Quantum of Solace, Skyfall e Spectre), a história respeita e ao mesmo tempo presta tributo a todas essas coisas boas que fazem da fórmula clássica algo tão bom. Ainda que os elementos clássicos desta receita estejam, mais do que nunca, presentes, é interessante ver como há aqui uma subversão subtil destas ideias. Bond não é só o womanizer implacável por excelência. Ele que carrega nos seus ombros o peso de amores passados e perdidos. Bond é um homem falível, fragilizado e humano, que procura, quase tanto quanto honrar o serviço de Sua Majestade, alcançar o (quase) raramente imaginado: uma vida de paz, em família.

A história mostra-nos um James Bond (Daniel Craig) reformado, a viver as belezas do amor em Itália, quando, por razões que não poderei aqui indicar, se vê forçado a retornar ao activo, a fim de travar um “novo” e misterioso vilão (não tão novo assim talvez, já que os paralelos traçados com o Dr. No são muitos), Safin (Remi Malek), e o seu plano de terrorismo global com subtilezas próprias. O filme lida com a tensão e confronto com um novo 007 que ocupou o lugar de James Bond, fazendo-o confrontar com uma dura realidade: de que todos somos substituíveis. 

No Time to Die é o filme de Bond mais clássico do que qualquer um dos seus antecessores, e não o digo só pela quantidade ridícula de easter eggs e fan service que presta ao espectador – e eventualmente fã – do espião. A formatação desta história assenta nos pilares clássicos e já bem conhecidos que fazem de um filme de “Bond”, um filme de “Bond”: o clássico local exótico; a clássica perseguição de carro; o clássico vilão psicopático borderline; a clássica base do vilão. Até a clássica gunbarrel sequence está presente. E isso deixa-me feliz. Porque ainda que seja expectável, faz sentido. E também porque esta dose ligeira de subversão e nostalgia acaba por nos saber bem. É um sabor familiar, diferente o suficiente para não parecer o mesmo. 

Como se o próprio título do filme não fosse já um nod reforçado à ideia de “fim”, ao longo das suas quase três horas de duração, torna-se óbvio que o filme tem uma consciente e clara noção da sua própria finitude, já que por entre as várias constantes que este filme apresenta, a ideia de “fim” e, indissociavelmente, de “tempo” são as maiores, e que tendo em conta o que este filme acaba por ser, abona a favor da história, porque tudo se parece mover – tal como o próprio tempo – numa só direcção: esse inevitável final. As pontas soltas são rematadas, mas não de uma maneira forçada. Tudo parece ser consequente; um reflexo directo de uma narrativa maior e bem estruturada, e de uma arca que pretende fechar em si mesma.

É um filme genuinamente divertido. Deixa-nos de maneira igualmente genuína com vontade de visitar esses sítios exóticos que servem de setting à história. Não nos maça com doses forçadas (e talvez até desnecessárias) de realismo. Um filme é uma construção, e um filme de Bond, mais do que ser uma só mais uma história séria sobre um espião e um qualquer drama mundial, deve ser sempre tido (na sua essência), como algo que é entertaining. Ver este tipo de filme é um evento, tal como todos os outros que o antecederam. Uma swan song praticamente perfeita, que injecta a dose certa de fantasia numa narrativa estruturalmente mais realista: o contraponto perfeito. 

Gostei de ser bombardeado com referências a Bonds anteriores. Gostei de ver os seus carros. E gostei de ver os gadgets. Gostei de ver grafismos que poderiam ter saído dos 60s, do mesmo modo que gostei da sensação de familiaridade da fórmula. Há um equilíbrio entre o que se espera, e o que nos surpreende, que nos deixa fixados nesse limbo ideal de “belief”. É um sabor familiar, diferente o suficiente para não parecer o mesmo.

Ao contrário de Brosnan, que não teve oportunidade de fechar o seu capítilo, Craig teve – e tem – essa oportunidade com este filme. E parece-me também que esta consciência colectiva de finitude – quer por parte das personagens, do próprio filme, e do próprio espectador -, acabam por elevar a experiência. Poderia ser potencialmente um filme menos bom. Poderia ser só mais um filme do 007. É justamente esta consciência colectiva de “fim” que fazem deste 25º Bond um filme tão especial, que consegue fazer um acto de malabarismo que é quase impossível: honra as nossas expectativas, honra um património de 56 anos, e resolve uma história desenvolvida ao longo de 16 anos. Está assente no seu próprio presente, e sabe que o presente não dura mais do que um momento. E diziam eles que there was “No Time to Die”? Afinal há. E o momento certo é agora.

4.5/5
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1 comentário

Ju 13 de outubro, 2021 - 15:29

“A negação é uma coisa linda, não é?” Adorei esta line! Eu penso igual e amo James Bond!! Muito bom!! E ainda não vi o movie, mas vou ver asap!

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