Não sou Nada – The Nothingness Club (2023)

de Pedro Ginja

“E eu ser só, e ser só eu, eu eu eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha”; “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Esta contradição nas citações não é inocente. Não ser nada ou ser apenas eu? Não ter outra vida senão a minha ou ter em mim todos os sonhos do mundo? Pensar ou não pensar, eis Fernando Pessoa, o eterno estudante da alma humana. O verdadeiro multiverso habita em cada um de nós, com as inúmeras vidas e realidades que podemos viver no seu interior. E neste multiverso da mente a contradição é o prato do dia.

Edgar Pêra dá o mote mesmo antes do filme começar. O próprio realizador afirma, isto é um cinenigma baseado na obra de Fernando Pessoa. O argumento tem a ousadia de ser uma amálgama de escritos, poemas, pensamentos e desabafos da mente do grande poeta quase em exclusivo. Ou mais precisamente dos seus inúmeros heterónimos aqui representados por mais de 70 desde os verdadeiros aos imaginados pela história de Edgar Pêra e Luísa Costa Gomes, num argumento labiríntico e complexo.

Fernando Pessoa (Miguel Borges) surge como editor de uma revista, a Orpheu, no chamado Nothingness Club, impresso a néon nas paredes da “mente” do poeta caso o espectador não tivesse reparado. Pessoa comanda os seus heterónimos, com pulso de ferro, na produção da sua obra literária e sem pingo de empatia por eles. Miguel Borges carrega na sua expressão toda a dor de alma do poeta, em constante sofrimento por não ter lugar no mundo, mesmo no seu mundo interior que aqui é o único existente. Carrega também uma dose de loucura no olhar, perfeito para ser Pessoa em toda a sua plenitude. Tarefa ingrata tentar ser um dos maiores poetas mundiais mas Miguel Borges cumpre-o com distinção por conseguir equilibrar as suas várias facetas conhecidas. Toda a sua afeição está reservada para o seu primeiro e único amor, Ophélia Queiroz (Victoria Guerra). Ora um anjo inocente incerta dos seus desejos ora uma femme fatale (parece saída de um film noir dos anos 50) desestabilizadora da ordem natural do mundo de Fernando Pessoa e encarnada, de forma notável, por Victoria Guerra. Ela própria a personificação idealizada do poeta, sempre com motivos ulteriores, e por isso, de certa forma, também um dos seus muitos alter-egos num caminho de constante autodestruição. O caos, em forma de Pessoa, recaí sobre Álvaro de Campos, interpretado por Albano Jerónimo, escolha perfeita para o encapsular e aparentando estar a divertir-se como ninguém. Destaque final, merecidamente, para Vítor Correia no papel do heterónimo Ricardo Reis, misto de loucura, razão e de uma energia masculina/feminina inesperada mas fiel à obra do poeta. Há ainda muitas outras surpresas e heterónimos que pululam neste argumento e apesar de haver pouco tempo para cada um deles todos deixam a sua marca indelével e acabam por maravilhar, ainda mais, o espectador para este puzzle complexo da essência e da verdade inscrita na obra de Fernando Pessoa.

Mas um cinenigma só poderia ficar completo com uma identidade visual própria e adaptada ao homem que pretende retratar. Jorge Quintela, director de fotografia; Ricardo Preto, director de arte e Júlio Alves em conjunto com Ana Meleiro, como designers de set, conseguem criar uma palete de cores apelativa e distinta para cada um dos ambientes principais da história – A redacção da revista Orfeu e o hospício. Na primeira, a escolha são os tons quentes em forma de néon ou sangue em contraste com o preto e branco do guarda-roupa do poeta, comum a ambos os locais, enquanto no hospício a opção são os tons frios onde dominam os verdes e variadas tonalidades de azul num cenário banhado com uma luminosa fotografia. Parece querer dizer, com esta diferença acentuada, de estarmos perante uma iluminada loucura do poeta enquanto a sua obra vive na penumbra, nunca facilmente interpretada e carecendo de um olhar mais apurado para a discernir. A edição caminha, lado a lado, com as ideias presentes na criação dos cenários, com o uso de uma infinidade de soluções como efeitos de prisma, sobreposições de imagens, flashes de luz a variadas velocidades criando efeitos estroboscópicos e brincando com a nossa percepção da realidade dentro do escuro do cinema. De uma edição lenta e controlada passamos para um “metralhar” de várias imagens em meros segundos e a confusão instala-se. Estamos mesmo dentro da mente de Fernando Pessoa e não há um único lugar para escondermo-nos. O som junta-se à “conspiração” instalada do realizador com um verdadeiro assalto aos sentidos na imensidão de opções apresentadas e sempre com o bater nas teclas da máquina de escrever como omnipresente e omnisciente. Talvez o único ponto fraco acabem por ser as opções musicais, deliciosas quando centradas nos diálogos com o piano e o órgão e roçando o genial quando as dissonâncias musicais antecipam o caos ou a loucura. Quando se afasta desse instrumento já não o sentimos como parte de Pessoa e acaba por perder a relevância. Talvez um pouco picuinhas demais mas parece-me apropriado que um filme sobre Fernando Pessoa não seja perfeito pois causaria “repugnância” – parafraseando o próprio poeta “ O perfeito é desumano porque o humano é imperfeito.”

Não Sou Nada – The Nothingness Club é um prazer para os olhos e um deleite para a alma. Tenta desvendar o eterno mistério de quem é Fernando Pessoa e falha redondamente como era suposto. É nessa qualidade indecifrável, de constante assalto à nossa mente e no revelar contínuo de becos sem saída que Edgar Pêra conquista o espectador. E deixa Pessoa onde ele gosta de estar – nos mais recônditos e escuros recantos da nossa mente.

4.5/5
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