Monster (2023)

de Bruno Sant'Anna

Saori Mugino (Sakura Andō) é uma jovem viúva e mãe solteira do pré-adolescente Minato (Sōya Kurokawa), que começa a apresentar comportamentos estranhos após o começo do novo ano lectivo: desde cortar o próprio cabelo na casa-de-banho, nódoas negras no corpo, até fugas de casa. Com a pouco informação que consegue arrancar do seu filho, Saori suspeita que ele está a sofrer abusos físicos e psicológicos do novo professor da escola, o senhor Michitoshi Hori (Eita Nagayama). Após reuniões frustrantes e inconclusivas com os membros e directora da instituição (Yūko Tanaka), Saori confronta Hori pessoalmente sobre a situação e acaba por descobrir que, talvez, o seu filho é quem está a praticar bullying com outro estudante, Yori (Hinata Hiiragi).

Acreditem: quanto menos souberem sobre a longa-metragem japonesa Monster (em português, Culpado – Inocente – Monstro), melhor será a experiência em assisti-la. Hirokazu Kore-eda, realizador do filme, é um especialista em apresentar personagens e vidas simples (até marginalizadas e anónimas em algumas ocasiões) e, a partir dessa premissa, construir reflexões profundas e universais sobre o comportamento do ser humano. Seja sobre os diferentes conceitos de família abordados em Shoplifters (2018) ou a área cinzenta entre a lei e o crime em Broker (2022), é impossível o espectador não se identificar e não ficar sensibilizado com as suas histórias e, neste novo projecto, Kore-eda trabalha no máximo da sua potência cinematográfica para entregar uma obra que transcende os limites do ecrã do cinema.

Primeiramente, é de se apontar que Monster segue uma estrutura conhecida como “o efeito Rashomon”, em referência à longa-metragem de Akira Kurosawa de 1950 com mesmo nome, em que um evento é mostrado através de diferentes pontos de vista. O diferencial e a genialidade da obra é que, ao invés de objectivar a busca por uma verdade ou as múltiplas formas em que ela pode ser interpretada, a narrativa possui esse formato para desarmar o espectador de qualquer sentimento de vilanização que ele possa ter em relação às personagens principais. Não se trata da exaustiva repetição de um acontecimento, mas a construção gradual de um entendimento completo do ocorrido, que nos faz questionar a predisposição do ser humano em julgar os outros. Isso mesmo: o “monstro” do título pode mesmo ser quem está a assistir ao filme.

Normalmente, Kore-eda escreve os seus próprios filmes, porém, neste projecto, resolveu trabalhar com o argumento de Yuji Sakamoto. O realizador viu o potencial desta história e conseguiu trazer uma harmonia entre a parte técnica e as reviravoltas da narrativa. Digo isto porque há uma diferença no ritmo, fotografia e enquadramento de cenas em cada uma das perspectivas apresentadas. Um exemplo disso é o ponto de vista da mãe, que, por ser o primeiro, é estreito e com elementos que a colocam sempre num canto do ecrã, simbolizando a sua procura pela verdade, mas sendo sempre posta de lado pela burocracia da escola. Essa coesão entre todos os elementos cinematográficos só amplifica a experiência e a sensibilidade da história, que ganhou merecidamente o Prémio de Melhor Argumento na 76ª edição do Festival de Cannes.

As actuações estão noutro patamar de competência, mas quatro destacam-se. Sakura Andō tem a difícil tarefa de carregar a carga dramática da primeira parte do filme, e entrega-a com uma naturalidade e firmeza espectaculares. A personagem da directora pode ser secundária na história, porém, a veterana Yūko Tanaka dá-lhe tantas camadas e uma das cenas mais lindas da obra. Dito tudo isto, a real preciosidade do elenco são as duas crianças vividas por Sōya Kurokawa e Hinata Hiiragi. Os dois actores são esplêndidos em expressar angústias e felicidades que talvez eles mesmos não consigam descodificar por causa da sua tenra idade. As cenas em que estão juntos são de uma beleza lúdica tão emocionante que conseguem transformar uma carrinha abandonada num universo só deles.

Monster é uma das raras obras cinematográficas que nos tocam tão profundamente que sentimos que não somos mais os mesmos após o término da experiência. Todas as vezes que condenamos uma pessoa por causa de pré-julgamentos nossos, estamos a caçar nossa própria individualidade e daqueles que nos são mais próximos. No meio de tantos filmes que pregam o niilismo e a banalização do mal, chega a ser renovador depararmo-nos com uma longa-metragem que nos mostra que a vida, nas pequenas coisas, pode ser bela e poética.

5/5
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