Licorice Pizza (2021)

de Rafael Félix

Quase 20 anos depois de conhecermos Barry e o seu harmónio em Punch Drunk Love (2002), Paul Thomas Anderson volta a San Fernando Valley onde cresceu, viveu e filmou, além do filme de Adam Sandler, o excesso de Boogie Nights (1997), a “anfibiadade” de Magnolia (1999) e o psicadélico de Inherent Vice (2014). O território é familiar a Anderson, mas nunca ele foi tão uma personagem como na história de amores, desamores e dores de crescimento que é a de Alana Kane (Alana Haim) e Gary Valentine (Cooper Hoffman) na LA dos anos 70’ de Licorice Pizza.  

O título remete para uma loja de discos que podia apenas ser encontrada naquela zona da Califórnia durante as décadas de 70′ e 80′, e assenta que nem uma luva à jukebox com nomes de The Doors até David Bowie e que passeia – ou corre, melhor dizendo – Gary, um child-actor de 15 anosncom o seu prazo de validade a terminar, e Alana, numa clara crise dos 25 e ainda a tentar encontrar-se em termos amigáveis com a vida adulta, pelas ruas quentes e suadas da periferia de Hollywood. Um amor algo arriscado que balança entre o platónico, o romântico e o carnal, e do qual o filme sai praticamente ileso desde a primeira cena pois estabelece desde cedo que este é apenas tornado possível pelas circunstâncias do acaso encontrarem duas almas relutantes em aceitar que o seu lugar no mundo já não pode ser aquele a que se agarraram até então.

Anderson capta na interpretação de Alana Haim – uma das duas melhores do ano e no seu primeiro papel – o terror que é ser um jovem adulto à deriva num espaço que é ao mesmo tempo familiar e desenquadrado, sendo a única anomalia da família (interpretados pela totalidade da família Haim) que não tem a vida organizada e adia este processo com a sua inabilidade (e azar) com relações adultas, acabando a passar todo o seu tempo com “miúdos”, como ela própria diz várias vezes no filme, num misto de frustração e resignação. Isto encontra-a com Cooper Hoffman – assustadoramente parecido ao seu pai na forma como mistura confiança e uma fragilidade a borbulhar por baixo – e à sua arrogância juvenil que lhe foi permitida pelo seu sucesso infantil, mas que está lentamente a ser esmagada pelo peso inevitável do fim deste período dourado. 

Juntos correm por uma LA fotografada com a luz, a cor e o calor que já encontrámos em anteriores trabalhos de Anderson e é claramente o filme que vê o realizador americano regressar a território próximo ao de Punch Drunk Love, não só a nível visual, mas também na inconsequência da sua história e a ternura com que medeia uma relação improvável. Encontramos duas pessoas com pouco ou nada em comum, mas ligadas pelo desajustamento aterrador da adolescência e dos períodos de transição do crescimento, criando uma dinâmica absolutamente adorável e apaixonante que é apenas mitigado com um pouco habitual passo em falso que Anderson comete, nomeadamente num final de filme que parece atraiçoar a jornada de crescimento que Alana vai construindo ao longo da longa correria de Licorice Pizza. Acabou a dar ao público o final que o filme merecia, mas não aquele que a personagem necessitava. 

Ainda assim, não é suficiente para abalar as maravilhas do nono filme de um dos melhores (senão o melhor) realizador da sua geração. É uma maratona pela ansiedade de crescer e do amor fervoroso e fugaz da adolescência nos subúrbios de Los Angeles repletos de estrelas de cinema, caos e oportunidade. Licorice Pizza, como os melhores filmes de Paul Thomas Anderson, deixa de lado a coesão narrativa e deixa aos seus personagens a oportunidade de dar a sua voz e contar a sua própria história, o que numa história de amor e crise juvenil, é particularmente apropriado. 

Sinal dos tempos também que Paul Thomas Anderson tenha finalmente o seu primeiro filme encabeçado por uma mulher. Com os resultados esperados. Obviamente.

4/5
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