La Tana (2022)

de João Iria

Contemplar uma pessoa desconhecida e apaixonar-se pelo seu mistério num breve instante visual. Um olhar que define uma ideia de amor no espaço da imaginação ilimitada, onde os pensamentos elaboram uma personalidade, um passado, um presente e um futuro para este indivíduo. Um lugar onde uma pessoa existe somente como uma expressão. Inegável o aspeto apelativo neste conceito, de permitir que a nossa identidade se transforme nos desejos e fascínio de outrem, de adotar uma vida de sedução enigmática em que o silêncio domina o tempo e a única forma de comunicação está no olhar, uma nova casa para um novo ser.

Giulio (Lorenzo Aloi) celebra o seu 18º aniversário num passeio pela sua habitação de férias no campo, perdendo-se no encanto de uma estranha cujos passos parecem perseguir o jovem. Como um feitiço transmitido através de um erotismo insondável, Giulio entrega-se à sua paixão por esta desconhecida, cujo nome é tudo o que possui – Lia (Irene Vetere), uma vizinha de infância desaparecida nas últimas décadas, e que regressa agora à sua casa de férias acompanhada por dor. Apesar do enredo soar como um romance, La Tana (ou The Den, o seu título em inglês) não é um romance. É um drama sobre esta mulher e o segredo que esconde no seu quarto.

A realizadora, Beatrice Baldacci, juntamente com os seus co-argumentistas, Andrea Paolo Massara e Edoardo Puma, tiram proveito do seu orçamento minúsculo e de um setting isolado e majestoso, para explorar os temas desta narrativa. Os tempos distantes do nosso lar, particularmente em lugares associados a infância, funcionam como uma oportunidade de abandonar a nossa identidade temporariamente e assumir uma nova persona. Para Giulio, Lia é uma fotografia. Uma mulher com poder para admirar, carregando o mundo consigo num aspect ratio de 4:3. O problema, é que Lia não quer encarnar uma nova persona, ela quer esquecer a sua pessoa. Dominada por emoções desequilibradas e descontroladas, o seu interesse desliga-se de si própria e de partilhar elementos da sua vida a este jovem, manifestando-se fortemente em habitar no seu desejo carnal.

Com uma sensualidade agressiva, os dois participam em jogos de sedução onde a atração nasce precisamente dessa instabilidade entre um beijo e a loucura. Os corpos nus tomam posse de um primeiro encontro oficial, criando intimidade artificial no desconhecido. Intimidade é o ponto principal desta longa-metragem, na sua direção de fotografia serena que coloca as personagens em planos próximos do documental, seja na iluminação ou no próprio enquadramento. Um aspeto aprofundado no seu segundo ato.

Nesta mudança de perspetiva, quando La Tana começa a revelar as suas respostas, o ritmo perde o charme misterioso captado nos primeiros trinta minutos e a sua carga dramática entrega-se completamente à atriz. São momentos absolutamente comoventes acerca da realidade de uma pessoa que enaltecem esta história ao expor a verdadeira identidade do filme; contudo esta surge com um impacto desconexo no seu terceiro ato apressado, ofuscando os temas desta longa-metragem com uma banda sonora e novos conceitos que entram em conflito com o tom estabelecido anteriormente.

La Tana demonstra-se como um formoso assombro visual, oferecendo temas profundamente interessantes de refletir. Ainda que tropece ocasionalmente nesta exploração, as suas intenções e ideias são resgatadas na compaixão que insere pelo pesar desta personagem interpretada por Irene Vetere – a verdadeira estrela emocional desta obra, seduzindo a tela inicialmente com o seu poder apenas para depois destruir esta parede com uma performance repleta de destreza emocional.

“Para mim, era inconcebível que uma flor pudesse ser feia. Para mim, as flores só podiam ser belas.” menciona Lia para Giulio, uma personagem vazia o suficiente para o espectador se inserir na sua posição e facilitar uma identificação pessoal do público nesta relação. Quando Lia ganha vida distante do olhar deste seu admirador e a sua verdade permite ser lida, esta continua a persistir como um enigma humano para o jovem e para a audiência. Beatrice Baldacci elabora uma obra com similar natureza; uma história que mesmo após ser desvendada permanece um mistério nas nossas memórias.

3.5/5
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