La Sociedad de la Nieve (2023)

de Antony Sousa

Em 1972 uma história chocou o mundo. Um avião com 45 passageiros despenhou-se nos Andes, e apenas foram encontrados 72 dias depois. Ao contrário do que se esperava, um número significativo de pessoas sobreviveu. La Sociedad de la Nieve retrata o que se terá passado nesses mais de dois meses em puro estado de sobrevivência.

J.A. Bayona, realizador e um dos argumentistas desta produção da Netflix, regressa a um género com o qual já o vimos triunfar, quando realizou The Impossible (2012). Esta tudo lá, a representação fiel do instinto de sobrevivência do ser humano, o imparável poder que a Natureza tem para nos relembrar do quão pequenos somos, excelente elenco, e visualmente conquista-nos ao ponto de nos tirar o fôlego em diversas cenas, tanto pela beleza como pela dureza do que nos é mostrado. Tudo o que precisamos ver numa história cujo final já conhecemos, mas que tem o objectivo de nos agarrar ao que acontece até esse epílogo para que quando ele chegue, o que era apenas informação se torne em imagens reais que nos atingem com força, qual avalanche de emoções.

Só sabemos do que somos capazes quando somos testados a transformar o impossível em possível, e a empurrar os nossos limites como quem empurra uma montanha com fé de que a vai mover. O ser humano contém dentro de si um arsenal de resiliência que se esgota, é certo, mas que se multiplica quando mais precisamos dele. Os sobreviventes do terrível acidente de Andes são a prova disso mesmo, e o respeito por cada um deles está espelhado em cada minuto de filme. Quando os registos fotográficos oficiais irrompem no ecrã sentimos uma proximidade com cada alma retratada, o final marca o início da nossa relação com esta história, e isso só pode ser conseguido graças a um trabalho rigoroso de realização, direcção de actores e a um trabalho extraordinário do departamento de arte! 

Mesmo que com uma lareira por perto é quase inevitável puxarmos de uma manta para nos cobrirmos enquanto visualizamos La Sociedad de la Nieve, tal é a credibilidade das condições hostis que assistimos. A nossa barriga começa a dar horas, tal é a fome que grita no olhar de cada personagem. Os dilemas morais assombram-nos, quando os recursos dos sobreviventes acabam, devido à excelência do acting. O desespero toma conta de nós quando todas as ideias para encontrar ajuda esbarram na Natureza, um sentimento que cresce meticulosamente na trama, através de um argumento perfeitamente equilibrado e uma edição de grande competência.

O elenco não possui nomes de nomeada, mas mais importante que isso, é composto por actores de grande nível. É verdade que Numa (Enzo Vogrincic) assume o papel de narrador, e parece ter um destaque ligeiramente maior que os restantes, mas isso só sucede para facilitar a narrativa, já que não há heróis nem vilões aqui. Só homens e mulheres a fintar a morte em equipa, numa união que transborda do papel. É do domínio público que um dos grandes factores de mediatismo do acidente de Andes é o canibalismo. Seria fácil colocar esse aspecto da sobrevivência como protagonista, no entanto o que passa para nós é algo muito mais profundo e impactante, passa que dificilmente algo poderia aproximar mais aquelas pessoas do que as suas circunstâncias imparcialmente catastróficas, do que as suas equivalentes probabilidades remotas de se manterem vivas e fundamentalmente, do que as suas “teimosias” para negarem a morte iminente. Com o auxílio de belíssima caracterização, os actores elevaram as suas performances para patamares dignos do voo mais alto das suas carreiras.

Para quem aprecia este específico género de sobrevivência La Sociedad de la Nieve é imperdível! Só não mexe com as emoções de quem é mais frio do que as montanhas dos Andes a 3,500 metros de altitude. A Netflix falha muitas vezes, mas quando acerta, por vezes compensa boa parte dos falhanços.

4.5/5
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