Ju-on: Origins – 1ª Temporada (2020-)

de João Iria
Ju-On-Origins

Tudo na cultura pop é cíclico. Nos anos 90, o cinema de terror atingia o extremo do slasher, que, devido à predominância do cinema americano no mercado mundial, demonstrava-se desesperado por novidades. O medo de Serial Killers em filmes voltou a desaparecer e a aproximar-se de paródia, o que abriu caminho a uma nova vaga de horror, que se focava na imaginação da audiência e no conceito de “menos é melhor”. Um subgénero que existiu no passado até perder a sua inovação.  

O repetitivo fracasso americano nesse período, resultou na descoberta do famoso J-Horror que se tornou influente no género, a um nível mundial. 10 anos depois, regressou a uma fase de estagnação e o cinema Americano voltou a destacar-se no terror, procurando uma nova moda de influências antigas para rejuvenescer.  

Nos últimos anos temos experienciado o renascimento de vários títulos antigos e neste ciclo de franchises a iniciarem como clássicos do género e a acabarem como piadas, existe uma que nunca se deixou morrer. Enquanto Sadako perdeu-se em irrelevância, Ju-On lutava pela sua sobrevivência, apesar da premissa estar esgotada. A sua última tentativa fracassou, mesmo nas mãos de um realizador interessante.   

Ju-on: Origins (2020) reinventa a franchise ao colocar o conceito num novo formato e recuar até muito antes dos filmes originais. Iniciando uma narrativa que segue várias histórias paralelas, focando-se numa atriz e num investigador paranormal que procuram compreender a misteriosa casa que parece espalhar uma maldição pelas pessoas que a visitam. A premissa habitual, contudo, a seguir uma direção diferente da que estamos acostumados e a afastar-se da icónica Kayako.  

Origens caminha numa linha entre ambiente minimalista e o Extremo Francês nesta narrativa violentamente gráfica, intensa no seu silêncio e desconfortável nos seus corpos difamados. Uma visão refrescante para uma franchise que sempre se aproximou do grotesco, mas finalmente ultrapassou neste caso.   

Atrás das assombrações, descobrimos um espelho da nossa trágica realidade, com vários instantes que atraem atenção a eventos reais e na forma como impactam as personagens desta história. Este exercício de brutalidade e na inescapável dor dos traumas físicos e emocionais infligidos, foca-se em ideias abstratas, criando uma perspectiva negra em relação ao nosso mundo e desenvolvendo uma ligação entre terror factual e o ficcional.   

Um limite questionável entre reflexão e exploração ocorre nos momentos mais intensos, danificando um argumento que parece não ter fé em si próprio. O progresso dos episódios é desnecessariamente complicado, tornando-se por vezes demasiado confuso para causar um maior impacto emocional. Exige um maior nível de atenção para acompanhar o enredo, o que pressiona o seu desfecho e encurrala este com poucas alternativas de qualidade.  

Encontramos um interesse superior no desenvolvimento das personagens, aos filmes anteriores, produzindo alguns momentos inquietantes que conseguem nos abater. Esta oportunidade de aprofundar o elemento em falta nestas histórias, num formato apropriado, acaba por se perder na abundância de atores espalhados pelos episódios que surgem somente quando conveniente para o progresso do argumento, tornando a sua existência fútil. Felizmente, a realização compensa na empatia perante os protagonistas.  

A decisão de manter cada episódio com menos de 30 minutos favorece o enredo e assegura um ritmo fácil para uma maratona da série numa noite. Quero dar destaque para o quarto e quinto episódio que misturam horror e comédia de uma forma incrível, reminiscente de Evil Dead, entrando em caos total de violência que consegue fazer-nos rir às gargalhadas e perturbar-nos com o seu surrealismo tenebroso.   

Sinto pena de não revisitar Kayako, contudo, compreendo que era necessário seguir um novo caminho para revitalizar esta saga. A nova versão mantém-se fiel ao espirito do original, enriquecendo a mitologia e elaborando um mistério interessante com novas imagens arrepiantes que rivalizam as dos primeiros filmes. É um labirinto de perguntas que adquire esperança no futuro desta propriedade, ainda que as respostas sejam desapontantes.  

Existe sempre uma cultura de influências variadas que viajam ao passado para ressuscitar o novo subgénero relevante e popular. Uma ação que se prolonga numa série de efeitos futuros como na teoria do caos. Assim funciona no cinema e na realidade, um tema explorado nesta série sobre como atos de horror humano geram um ciclo de crueldade interminável. Um dos aspectos mais arrepiantes é perceber que mesmo quando Ju-On atinge o exagero, sentimos consciência da ligação entre facto e ficção. Essa é a verdadeira tragédia desta saga e apesar de não alcançar o fenómeno do original, prova que ainda existe sangue para derramar.   

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