I Care a Lot (2020)

de João Iria
i care a lot

Comédias negras demonstram uma complexidade paradoxal necessária na sua intenção de provocar gargalhadas numa audiência emocionalmente restringida por convenções sociais, políticas ou culturalmente morais, presa no proibido. É um género que exige uma visão satírica mordaz, capaz de caminhar pelas brasas éticas com um passo seguro e nítido discernimento na ridicularização do taboo e na exploração do absurdo da realidade. Somente realizadores que compreendem verdadeiramente o cerne dos temas analisados e a sua natureza macabra é que conseguem dissecar comédias hilariantes acerca de indivíduos desprezíveis ou conteúdo desagradável e confrontar e desafiar o espectador a rir e de seguida refletir. I Care a Lot é desprovido de tal perceção. 

Marla Grayson (Rosamund Pike) é uma tutora legal que desenvolve um esquema para defraudar os seus clientes e atingir o sucesso milionário ambicionado. A sua cobiça é interrompida pela sua nova vítima, Jennifer Peterson (Dianne Wiest), uma idosa com um passado misterioso e ligações ao poderoso e violento Roman (Peter Dinklage), cuja associação obstruí o plano de Marla. Ideias interessantes sobre exploração humana como a chave principal do capitalismo, corrupção judicial e do sistema de saúde e a dessensibilização sistemática patriarcal num jogo de peões comparável a tráfico humano surgem e desaparecem num instante pois I Care a Lot danifica o potencial dos seus conceitos fascinantes com um argumento pobre e repelente, tão vazio quanto a alma da sua protagonista. 

J Blakeson retira a substância dos resíduos de um sistema quebrado no seu guião ao optar por um caminho confuso e frívolo que desiste de explorar o seu conteúdo, compensando nos aspetos técnicos com ação e preenchendo a tela com uma palete de cores forte que contrasta com o guarda roupa de Rosamund Pike, apropriado para distrair das suas falhas. O argumentista impede também o aprofundamento das suas personagens, transformando Marla numa protagonista frustrante de acompanhar, despojada de charme e o flamboyance de um vilão entusiasmante e de caracterização significativa, simplificando esta a uma Girlboss em overdose de incoerência infundada. 

A realização de Blakeson exibe competência na criação de sequências intensas e no fornecimento de um estilo atrativo que mantém a história cativante em momentos espaçosos. Durante o primeiro acto, por mais cansativa que Marla seja como personagem, I Care a Lot providencia entretenimento válido e promessa na sua construção narrativa e no seu tom possivelmente irónico. Estes elementos desvanecem no segundo acto quando a linguagem visual sugere apoiar esta personalidade asquerosa, caindo numa armadilha que incapacita o desenvolvimento emocional e expõe esta comédia a cinismo e ignorância, evidenciado principalmente na sua estrutura que transmite as piores conclusões do seu build up, atropelando os conceitos estabelecidos com uma decisão disparatada de substituir a sátira do absurdo por eventos genuinamente absurdos propagados com total seriedade.  

Através de uma manobra banal e superficial, a audiência é forçada a torcer por Pike quando esta enfrenta um adversário moralmente inferior à protagonista. Ao imaginar Jordan Belfort de The Wolf of Wall Street (2013) em confronto com outro indivíduo de superior crueldade e ganância, facilmente compreendemos os motivos para essa escolha ser evitada na longa-metragem de Scorsese. Uma comparação inevitável, devido ao desespero de Blakeson em recriar semelhante ambiente na sua obra, sem sucesso. Ao contrário desse degenerado ex-corretor de bolsa, Marla é suposto ser encarada como uma espécie de anti-heroína, o que prejudica o good will acumulado da conceptualização deste filme. 

A formação de personagens revela-se desapontante perante um elenco talentoso, com Peter Dinklage a entregar uma performance grandiosa, reduzida pela ineptidão ilógica de Roman; Eiza González a representar Fran, presa a um papel definido meramente como “namorada e colega de trabalho de Marla” e a lendária Dianne Wiest a sofrer idêntico processo ao de Jennifer Peterson: usada e esquecida. O peso narrativo depende da sua estrela principal, Rosamund Pike, que investe fisicamente em Marla com entusiasmo, contudo, a sua paixão notável é infligida por uma personagem unidimensional destituída do charme ou o mistério intrigante de Amy em Gone Girl (2014), sufocada em monólogos genéricos sobre poder e enfraquecida pela direção de enredo.  

Dentro do mundo da comédia negra é essencial um elemento satírico que combine humor e tragédia no absurdismo da realidade disfuncional. I Care a Lot está isento dessa exploração criativa, de análise subversiva ou humor desenfreado pois Blakeson ataca temas intensos com escopo limitado e um argumento oco que corrói a sua crítica e perturba a ótica e tom da realização. Está simplesmente demasiado apaixonado pelo seu próprio cinismo extraviado pobremente definido para atingir o sucesso que procura desesperadamente obter e neste sentido I Care a Lot defrauda a audiência e a sua própria história. 

2.5/5
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