How to Have Sex (2023)

de Sofia Pereira

How to Have Sex acompanha as adolescentes britânicas Tara (Mia McKenna-Bruce), Em (Enva Lewis) e Skye (Lara Peake) durante as suas férias de verão em Mália, na Grécia. Álcool, festas e sexo pulsam os seus dias, mas não sem deixar mazela: se há coisa que a adolescência não é, é inócua e neste filme isso revela-se pelos piores motivos.

São múltiplos os clichés cinemáticos – e de outro tipo – que falam sobre a inconsequência e rebeldia dos adolescentes, mas How to Have Sex afasta-se de todos eles, pois não se trata de um lugar-comum…. Infelizmente, a história que apresenta aproxima-se mais da realidade do que gostaríamos de imaginar, sendo apresentada aos ecrãs de forma única.

A falta de sororidade entre as mulheres, notória na adolescência, por exemplo, na “luta” pela atenção e pelo desejo masculinos que pauta a sua vivência heterossexual – sendo um sintoma incontestável de uma sociedade e vivência patriarcais, as amizades tóxicas e dissimuladas que constituem muitas vezes (demasiadas vezes) os principais relacionamentos de muitas meninas de 15, 16 e 17 anos e nomeadamente a cultura absurdamente sexual que repassa a vida dos adolescentes fazendo-os acreditar que a virgindade é um motivo de vergonha e traço de infantilidade que os torna desinteressantes e que o sexo, por oposição, é um motivo de orgulho e ostentação, sinal de maturidade são alguns dos vários temas que nos atingem durante o filme.

Em How to Have Sex a ambiência é, com efeito, claro está, de sexualização implícita incessante, que apela de modo igualmente implícito e incessante para a prática sexual, onde o consentimento é tomado por garantido e a intimidade, a verdadeira intimidade é vista como estando nos antípodas do sexo, sendo por isso evitada e até ridicularizada em qualquer tipo de relação afetiva e não há forma de não nos sentirmos enojados e incomodados a assistir a tudo isto, o que é mérito de Molly Manning Walker, realizadora do filme, pois não deve existir outra forma de falar sobre estes temas senão aquela que incomode, que choque, que açule, que, no fundo, nos deixe desconfortáveis.

Nesta película o assédio não é tido como assédio, mas sim como galanteio irrecusável para as jovens, o consentimento é um conceito abstrato no entendimento de alguns rapazes e raparigas e para elas também na verbalização, pois, tristemente, são aculturadas para o sim, sempre para o sim, para colocar o seu corpo à mercê dos desejos carnais masculinos independentemente da sua vontade e desejo. Ora, enfim, o sexo pelo sexo, a busca pela diversão inconsequente que evita a todo o custo a conexão representada em How to Have Sex caracteriza lamentavelmente a adolescência de muitos jovens.

O enredo choca acima de tudo pela falta de comunicação no geral da geração que retrata, mas particularmente quanto ao nível emocional, que se torna mais perturbante entre o grupo de amigas referido: a desconexão emocional total involuntária e até voluntária, algumas vezes culminada em indiferença e desprezo pelo que se está a passar com quem está ao nosso lado – no caso, entre Tara, Em e Skye – deixa qualquer um perturbado, pois está muito longe do comportamento de alguém a quem chamamos de amiga.

Além disso, a performance de Tara, interpretada por Mia McKenna-Bruce, é estonteante enquanto protagonista do filme, destacando-se relativamente ao sentimento de alienação, isto é, a atriz protagoniza essa emoção eximiamente transmitindo ao espectador a sensação de que é a alienação não é apenas uma emoção passível de sentir, mas sim uma emoção em que também é possível habitar, em que Tara começa a habitar a meio do filme até ao fim, sendo-lhe impossível ocultá-lo do rosto.

Não obstante, a fita necessita de um maior desenvolvimento não a nível dialógico, mas sim visualmente, dado que How to Have Sex é nomeadamente visual e cumpre-se desse modo irrepreensivelmente. Contudo, mais tempo teria intensificado a densidade dos assuntos suprarreferidos. Todavia, por outro lado, também considero a possibilidade de Molly Manning Walker querer deixar-nos mais desconfortáveis intencionalmente – e bem: O que será de Tara? E das suas amizades com Skye e Em? Até quando esta cultura passará impune?

De facto, a adolescência não é inócua (como afirmei no início da crítica), as mudanças físicas e psicológicas não são fáceis de atravessar e isto per si impossibilita a inocuidade de existir na adolescência. Mas, a anuência com a violência sexual e verbal, transversal aos géneros feminino e masculino, mas com especial incidência nas mulheres, agudiza o constrangimento que já caracteriza a adolescência, tornando essa mesma fase da vida numa verdadeira violentação para as jovens que aqui vem à tona completamente consumada na pele de Tara: que How to Have Sex traga à superfície a coragem para a voz de quem atravessou histórias idênticas poder falar, para que se vocalize a urgência do cessar desta cultura de abuso e coação.

3.5/5
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