Hit the Road (2022)

de Rafael Félix

Panah Panahi não é desconhecedor dos perigos de ser artista no Irão. Filho do muito celebrado (e muito perseguido) Jafar Panahi – recentemente condenado a 6 anos de prisão pelo governo iraniano devido a demonstrações públicas contra o Poder – o realizador traz no seu filme de estreia, Hit the Road, um conhecimento demasiado pessoal sobre o medo e a paranoia de viver sob a sombra gigantesca que compõe um regime político como o vivido no país. No entanto, há de igual modo, grandes raios de luz que se impõem contra este negrume que paira sobre uma família em fuga para a fronteira Turca.

Aparentemente com as autoridades em perseguição do filho mais velho (Amin Simiar), o calado e tenso rapaz conduz o carro num silêncio raras vezes quebrado, em contraste com o seu irmão mais novo (Rayan Sarlak) – poço de energia, inocência e astúcia, demasiado perigosas para os seus pouco anos. Ambos são acompanhados por um pai rezingão (Mohammad Hassan Madjooni) com um sentido de humor muito particular – além de uma perna partida e dor de dentes – e uma mãe (Pantea Panahiha) profundamente aterrorizada com o destino do primogénito, mas com uma capacidade sobrehumana de manter uma compostura dominante e altiva perante os restantes passageiros.

Este dom mostrado na extraordinária performance de Pantea Panahiha é um espelho perfeito daquilo que se passa no brilhante trabalho de Panahi. Na superfície há um road movie, uma família ternamente unida com personalidades muito próprias, sejam elas a insuportabilidade esporádica causada pelo excesso de energia de uma criança que ainda não conhece os perigos que rodeiam a viagem ou a má disposição de um homem de perna engessada que tem de controlar esta fera à solta numa banheira de 4 rodas. Porém, como que a boiar junto à superfície deste mar desértico que o grupo atravessa, paira um desconforto, uma ameaça invisível e omnipresente, em permanente encalço, claramente visível nos constantes medos provocados por telemóveis que não deviam ter sido trazidos ou carros que parecem estar a seguir os nossos protagonistas.

Este controlo (ou descontrolo) sobre os géneros em que Hit the Road se vai passeando, fazem com que a viagem pelas planícies e montanhas deslumbrantes e implacáveis do Irão seja pintada em tons tão contrastantes que é um milagre de precisão a forma aparentemente despreocupada com que o primeiro filme de Panah Panahi atinge iguais níveis de charme e de tragédia, não raras vezes na mesma cena. Dentro deste carro, o realizador comprime tudo aquilo que a vida pode ser: conversas absurdas sobre ao valor de mercado do Batmobile; carpool karaoke que põe a cantar uma família inteira e até a cadela doente que viaja no porta-bagagens; ou as lágrimas de uma mãe que teimam em não se esconder, mesmo a meio de uma explosão de vitalidade musical. A câmara de Amin Jafari afeiçoa-se de tal forma às personagens que a proximidade que tem com elas dentro do carro é substituída por uma distância abismal quando estas fogem do seu abrigo de metal e se entregam à vastidão austera destas paisagens, deixando bem claro que, fora deste automóvel onde levam a vida às costas, a tragédia da separação é mais do que iminente: é inevitável.

O equilíbrio entre a crueldade da realidade das circunstâncias, e a comédia absurdista que é a vida humana, são atingidos em Hit the Road de tal forma que os fungares são tão comuns como os sorrisos, um reflexo, esperemos nós, do quotidiano mundano da maioria dos mortais. No meio destes risos e choros, há uma tragédia central desconhecida, uma família separada por circunstâncias não proferidas, e Panahi, tal como o seu pai, sabe deixar nas entrelinhas de cada diálogo ou nos olhares penetrantes e silenciosos dos seus intérpretes, tudo aquilo que é preciso para tornar esta história que à superfície é tão íntima e espiritual, numa mensagem política carregada de intenção que tem o seu expoente máximo, não nas palavras proferidas mas sim naquelas que nunca o chegam a ser.

5/5
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