Guillermo Del Toro’s Pinocchio (2022)

de Guilherme Teixeira

Após o fiasco que chegou à plataforma de streaming, chega Guillermo Del Toro, em parceria Mark Gustafson, com uma versão, consideravelmente mais sombria, do conto da marioneta de madeira que queria ser um menino de verdade.

Verificamos que, para além de inegável, é admirável a capacidade de Guillermo Del Toro para contar histórias. Não são muitos aqueles que conseguem pegar num conto tão badalado e fazer uma versão que, com certeza, vai gerar discussão- tanto nos temas abordados como também sobre a possível rivalidade que possa surgir com a versão de 1940.

Depois de perder o seu filho, Carlos (Gregory Mann, que também dá voz a Pinocchio), num ataque acidental durante a Primeira Guerra Mundial, Geppetto (David Bradley) vê-se incapaz de seguir em frente. Certo dia, decide fazer uma marioneta com a madeira da árvore que crescera na campa de Carlos e que, por sinal, servia de abrigo para o carismático Sebastian J. Cricket (Ewan Mcgregor). Durante essa noite, a fada dá vida a Pinocchio para ajudar o seu papá a superar o luto.

A história é contada com uma sensibilidade ímpar. Com um pano de fundo de uma Itália fascista, Del Toro aproveita para explorar temas como a religião e o significado de servir a pátria. Tudo isto enquanto critica a visão militarizada desses regimes em relação às gerações mais novas e a propaganda muitas vezes preformada por pessoas com os interesses virados para outro sentido que não a nação, usada para moldar a mente dos adultos e, consequentemente, das crianças.

Para além disto, temos ainda um coração que pulsa pela narrativa. Narrativa esta que alimenta e dá bastante força aos restantes arcos da história. O filme toma um caminho corajoso ao transformar a dor de Geppetto em algo verdadeiramente decadente. É uma dor tão real que acaba por se opor à vivacidade e inocência de Pinocchio. A jornada que ambos traçam- entre por um lado, tentar substituir Carlos e, por outro, perceber que, na verdade, o que importa é não ocupar o lugar de ninguém, mas arranjar o nosso próprio lugar- é feita com uma sensibilidade incrivelmente emocionante. E acaba mesmo por ser este um dos grandes argumentos do filme: o valor da vida e a infelicidade que é a sua efemeridade. É por isso que a mágoa que sentimos quando alguém parte, o buraco que ali fica, não deve ser substituído. Não apenas por ser injusto para a pessoa em luto ou para com a memória da que partiu, mas também para com a pessoa que é usada como permuta.

A animação é uma coisa de outro mundo. É fluída e possui o charme do Stop Motion que, de uma forma quase irónica, acaba por atribuir mais peso e realismo às cenas. Aliada, obviamente, ao excelente argumento e a um fantástico trabalho sonoro, conseguem ditar o tom mais sombrio do filme.

Guillermo Del Toro’s Pinocchio é um filme tudo em um. Tem cenas verdadeiramente assustadoras e carregadas de tensão, momentos de rir às gargalhadas- principalmente nos momentos envolvendo Cricket, personagem que poderia ser mais bem aproveitada na história – e cenas de fazer levar as lágrimas aos olhos. É um filme que aborda a morte com o máximo respeito e o significado que esta dá à vida. As clássicas lições de que não se pode confiar em toda a gente e de que a honestidade é o caminho certo a seguir. Tudo isto enquanto nos leva numa viagem emocional sobre aceitar aquilo que os outros são e não aquilo que esperamos que sejam. É uma boa altura para atualizar a lista dos melhores do ano!

4.5/5
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