Good Luck To You, Leo Grande (2022)

de Rita Sousa

A autodescoberta do ser há muito escondido

Good Luck To You, Leo Grande é daqueles filmes que nos surpreende por falar do comum com uma sensibilidade tocante. Ao longo da história conhecemos Nancy (Emma Thompson), uma mulher viúva, recentemente reformada, que, apesar de agradecida pela sua vida, sente que lhe falta algo para se sentir completa: uma vida sexual satisfatória.

Decidida a resolver essa questão, reserva um quarto de hotel e contrata um profissional da área. É assim que conhece Leo Grande (Daryl McCormack), um jovem que se entrega de corpo e alma ao seu trabalho, e que se destaca pela gentileza e empatia para com os/as clientes. Entre os dois surge uma ligação inesperada, mas que fará com que cada um, individualmente, supere os seus fantasmas e consiga seguir com a sua vida.

Quase na sua totalidade, Good Luck To You, Leo Grande passa-se no mesmo ambiente. Um quarto de hotel comum, igual a tantos outros, que serve de refúgio para os diversos encontros entre os protagonistas. Estes momentos estão divididos em atos, momentos dos encontros ao longo de semanas que servem para que os dois ultrapassem obstáculos na tentativa de chegar ao objetivo final de Nancy: atingir um orgasmo. Porém, há que reforçar que o primeiro e o último momento, são os que dão espaço para a história acontecer, fazendo com que o meio do filme seja apenas um desencadear de ações.

Num primeiro momento conhecemos as personagens. A conversa inicial entre ambos resulta de uma troca de palavras banais, que gradualmente se desenvolve numa tentativa de aproximação falhada devido ao medo de Nancy de ultrapassar a barreira que impôs a si própria. Lentamente, esta vai quebrando o gelo, e começa a revelar as suas inseguranças e medos. Do outro lado está Leo, a tentar, da maneira mais profissional possível, conhecer a mulher que tem à sua frente e a fazer com que esta consiga superar-se a si mesma.

Esta primeira meia hora está brilhantemente bem pensada. O encadeamento de ideias surge de forma muito natural, dando espaço para que as personagens se apresentem sem haver uma imposição de uma perante a outra. O problema surge com o avançar do filme. A história começa a ficar um pouco repetitiva, os assuntos falados são os mesmos, as questões existenciais não se resolvem. Há uma quebra muito grande com o início, que prometia muito mais. Tudo muda no fim do penúltimo encontro, que torna a trazer o mistério inicial, e capta a atenção do espectador que já estava perdida há algum tempo.

O final do filme é a melhor parte, e pode mesmo dizer-se que é a cereja no topo do bolo. A maneira como Emma Thompson se despe dos tabus e expõe Nancy a si própria, reflete não só aceitação de uma mulher que há muito não se conhecia a si própria, como oferece ao espectador uma das melhores interpretações da sua carreira.

O filme destaca-se, essencialmente, pelas questões que aborda. Fala de um moralismo forçado pela sociedade que faz com que pessoas vivam em função de ideais impostos; de mulheres que vivem submissas aos maridos, não sendo capazes de se realizarem; e de jovens incompreendidos que vivem afastados das famílias por estas não os aceitarem como eles são. Tudo isto torna Good Luck To You, Leo Grande um filme surpreendente e, simultaneamente, sensível e apaixonante.

4/5
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