Godland (2022)

de Rúben Faria

Jornada e destino de chegada

Este filme não é fácil. Seja pela sua longa duração, o seu ritmo minucioso, os seus temas complexos ou as suas abordagens enigmáticas, esta é uma obra que obriga o espectador a esticar os músculos e a trabalhar para entrar na mesma. Até descrever e analisá-la mostra ser uma tarefa desafiante.

Godland é um filme dinamarquês/islandês, escrito e realizado por Hlynur Pálmason. Inspirado em fotografias do final do séc. XIX, encontradas em zonas remotas, esta história passa-se na mesma época e conta a jornada de Lucas (Elliott Crosset Hove), um jovem pastor dinamarquês que é enviado para uma parte isolada da Islândia para construir uma igreja. Esta missão, no entanto, prova-se hercúlea e capaz de o fazer questionar a si próprio e ao mundo que o rodeia.

Começo por salientar que este filme é absolutamente lindíssimo do ponto de vista fotográfico. Está enquadrado em formato de 4:3 e filmado em 35mm, o que o conecta às fotografias tiradas na época retratada e imediatamente cria uma ligação entre o espectador e Lucas, o pastor protagonista que gosta de imortalizar momentos na sua câmara fotográfica. Logo aqui a cinematografia tenta enquadrar a beleza natural deste mundo de uma forma idêntica ao que o protagonista tenta fazer. Esta decisão mostra-se muito interessante porque não só é coerente com a narrativa que se propõe a ilustrar, como também revela um filme estonteante a nível estético. Sendo filmado nas montanhas, rios, vales, e tudo mais que povoa a natureza islandesa, esta beleza pura e intocada consegue ser transmitida para o espectador através de enquadramentos imaculados e luz natural, desde planos fixos a movimentos de câmara de takes longuíssimos que vão de pinturas mais abertas e paisagísticas até acabar em close-ups de detalhes íntimos como folhas no chão. Existe uma fluidez orgânica em toda a obra visual e somos logo capazes de sentir uma história a ser contada através dos nossos olhos.

Num ponto paralelo, o argumento também merece grande destaque pois é uma base muito sólida e com a robustez necessária para segurar as raízes e fazer crescer toda esta jornada temática. Não só o guião se foca em apenas e unicamente criar todo o ambiente para desafiar o nosso protagonista – e ao espectador juntamente com ele – e tudo o que ele representa, como fá-lo de maneira bonita e poética. As palavras proferidas pelas personagens são belas, articuladas e como se fossem escolhidas a dedo, mas com um bom equilíbrio entre dramático e naturalista, sem nunca se tornar demasiado “shakespeariano”. Parece que estamos a ler um bom livro.

Em contrapartida existe uma questão – que na verdade pode nem ser importante – mas que surge a meio da experiência. É usada durante todo o filme a dinâmica entre os idiomas islandês e dinamarquês, com o protagonista a ter um tradutor que o ajuda a comunicar com os islandeses. Os idiomas são mesmo um obstáculo ao longo da sua caminhada, com momentos de maior ou menor dificuldade entre entender os dois lados. Sendo que os idiomas têm uma importância na narrativa, essa mesma dinâmica perde-se nas entrelinhas das legendas e no facto de que as duas línguas soam bastante idênticas para ouvidos destreinados. No meio da narrativa, consegue ser difícil distinguir qual é qual, principalmente quando se trata de uma personagem que usa ambas e que esse ponto se torna importante para entender certas tensões, confrontos ou tentativas de comunicação.

Dito isto, fico livre para falar sobre o que o filme representa e tenta atingir, sendo esta a parte mais desafiante. Todo o enredo se foca em estudar e desconstruir o seu protagonista, o que ele representa e o mundo que o rodeia, e aí jaz o sumo mais interessante do filme. Sendo um protagonista pastor e cuja missão pode ser considerada sagrada, obviamente que a religião e a crença estão envolvidas, mas não de forma direta. Godland não se propõe apenas a questionar a igreja ou as religiões, ou sequer a existência de Deus. Está disposto a pegar no que melhor sabemos e, ao mesmo tempo, mais temos para aprender: a condição humana. O ser humano aparece como foco central e consigo vem as suas crenças, medos, desejos e limites, coisas que, quando postas em causa, criam um distúrbio no funcionamento da espécie, tanto a nível individual, como social. O sentido de propósito, de moral e ética, são questionados pela jornada árdua que Lucas atravessa. Tão árdua que o faz questionar a sua realidade e todos os temas acima mencionados. Com isto tudo conseguimos chegar a pontos como Humano vs Deus, Natureza vs Deus, o complexo de Deus no individuo e qual é a ideia de Deus dentro das limitações humanas.

Deixando esta impressão talvez mais complicada sobre o filme, pode permitir a que consiga sumarizar o que o mesmo provocou: uma onda de questões e um turbilhão de ideias, marinados num prato de palavras poéticas e autênticas pinturas visuais. Godland é um filme que se desafia a si mesmo e, por consequência, todos os que se dignam a acompanhá-lo. Impõe o que tiver que impor e fá-lo à sua própria maneira, deixando mais perguntas do que respostas, tal como a arte deve ser.

4/5
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