Freelancer (2017)

de Rafael Félix

Há uns tempos a revista Empire dedicou uma edição ao British New Wave, esta nova geração de cinema anglo-saxónico que tem mudado o paradigma do social-realism estabelecido há décadas. No entanto, a questão fraturante é para quando estará a edição do Açoriano Oriental dedicada ao trabalho desta fornada de talento insular responsável pelo maravilhoso Os Últimos Dias de Emanuel Raposo (2021) e o estranhamente familiar a David Lynch, Karaoke Night (2019). E o que liga estes dois projetos? O bigode de Francisco Afonso Lopes.

Bigode este que apareceu antes em 2017 com Freelancer, filme de Francisco Lacerda que tem o melhor e o pior do exploitation, um cheirinho de Argento e umas notas de Carpenter aqui e ali para tornar esta mistela cravada de vómito e fluídos sexuais satânicos algo que, apesar de ignorar plenamente as linhas do razoável, não deixa de ser hilariante. Seguimos Jorge, um jovem que sonha um dia ser pago pelo seu trabalho como freelancer e que tem um sonho simples: ser operador de câmara. Isto leva-o a filmar o que pensa ser um casamento que rapidamente se transforma num pesadelo quase apocalíptico.

A verdade é que há humor que, mesmo tendo 5 anos, envelheceu mal. Há uma cena de suicídio, há outra de sodomização à bruta e outras e muito variadas formas de violação. Podia retirar algum charme a Freelancer mas não é o caso. O seu aspeto de budget endividado e criatividade absurdista permite aceitar o humor que podia ser tomado como de mau gosto de forma completamente natural, mesmo quando vemos um artista numa maré de azar planear o seu enforcamento num cortinado que mal aguentará o peso de um pacote de bolachas Maria, quanto mais com o peso de um operador de câmara falhado.

Os sítios onde Freelancer vai são sempre imprevisíveis e clinicamente tresloucados mas vai tocar no coração de qualquer artista que, especialmente nesta conjetura, tem de sofrer para sequer fazer dinheiro que chegue para sonhar fazer 3 refeições por dia. Aqui encontra-se o sonho fervoroso deste artista e a sua grande oportunidade de viver confortavelmente, mesmo que seja promovida por sémen de cachalote, canibalismo e um culto do fim do mundo acompanhado por luzes tão vermelhas que fazem Suspiria (1977) de Argento parecer o Suspiria (2018) de Guadagnino.

Freelancer é uma comédia de mau gosto absurdista cujo charme açoriano eleva a um patamar estranhamente alto. Lacerda, Lopes e companhia sabem construir humor com as mais simples palavras mas também sabem montar as setpieces mais grotescas e gratuitas que a imaginação consegue sonhar, setpieces que ganham vida com o talento estranhamente específico de Francisco Afonso Lopes de interpretar homens de bigode com complexo de inferioridade. Absurdo, excessivo, hilariante e mais uma pérola açoriana pela mão desta geração de ilhéus cravada de promessa.

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