Everything Everywhere All at Once (2022)

de Pedro Ginja

Everything

Toda a atenção do mundo está no Universo Marvel e na construção, ao longo do seu já extenso percurso, do que é o multiverso e da existência de múltiplas realidades paralelas ao nosso mundo. O conceito já atingiu o mainstream e não é apenas “real” para uns poucos nerds que magicam umas teorias malucas das suas possibilidades. Está estabelecido e tem regras a cumprir fruto de todo o esforço de uma companhia que tem o monopólio do termo, mas eis que chegam os Daniels (Kwan & Scheinert – não são família mas a sintonia é total) e dizem “Não, não, NÃO!!!”. E assim chegamos ao seu mundo retratado neste Everything Everywhere All at Once.

Conta a história da família Wang, uma família como qualquer outra que se sente presa a uma realidade pouco feliz e bem longe do que tinham sonhado na juventude. Evelyn (Michelle Yeoh) é a matriarca e “mulher da casa” com o seu sempre sorridente marido, Waymond (Ke Huy Quan – O “shortstop” do filme de 1984 Indiana Jones and the Temple of Doom), a filha Joy (Stephanie Hsu) em plena crise de confiança e de afirmação perante a família, e para completar o avô Gong Gong (o lendário James Hong). Encontramo-los, no início do filme, em grande azáfama e rodeados de facturas, no dia de entrega da declaração ao IRS e segundo Deirdre (Jamie Lee Curtis como técnica das finanças – quem diria) os inúmeros erros são imperdoáveis. O dia não poderia estar a correr pior para Evelyn até que surge Alpha Waymond de uma realidade paralela e a informa que existe uma ameaça grave ao equilíbrio dos vários multiversos chamada Jobu Tupaki. Ainda estão comigo? Espero que sim, porque esta é a parte mais básica da história. Preparem-se para uma viagem caótica pelo multiverso dos Daniel’s.

Everywhere

Da história não quero falar muito mais, dado que a sua descoberta e o desenrolar da mesma é o seu ponto mais forte mas não é o único. Tenho de referir, logo à partida, a edição que se inicia sóbria e comum a tantos outros dramas de família mas rapidamente inova em diferentes direcções inesperadas, como no apresentar de várias dimensões/realidades paralelas como de um estilhaçar de espelhos se tratasse, do uso de sons para transportar em milissegundos personagens de dimensão em dimensão de uma forma caótica mas muito perceptível ou de inteiras sequencias de acção que viajam de cenário em cenário enquanto a câmara dança em volta dos actores. Há mesmo a ousadia num grande plano estático, de alguns minutos, em silêncio absoluto num filme frenético e em constante movimento. Vai ser difícil ultrapassar a maestria de Paul Rogers, na edição, durante este ano que ainda agora começou e a aposta numa eventual nomeação ao Óscar parece quase certa. Nas inúmeras sequências de acção são constantes as referências ao passado do cinema, desde os filmes de kung-fu, o regresso do “wire-fu” em sequências que desafiam a gravidade, a luta-livre americana em todo o seu esplendor e o uso insano do mais variado tipo de objectos como armas muito para além do limite da minha imaginação. Pasme-se existir, inclusive, uma cena de luta sem qualquer violência que roça a genialidade e alarga as possibilidades do termo acção para produções futuras.

Seria tudo oco e sem significado sem um coração a bater por baixo de todo este caos e “os Daniel’s” sabem disso. É um filme sobre família, sobre os sacrifícios a nível pessoal para manter a sanidade e equilíbrio familiar ou sobre a insignificância da vida mas que mesmo assim deve ser apreciada e vivida em pleno, mesmo quando não faz nenhum sentido. No final estaremos a contemplar a nossa própria realidade e de como estamos a desperdiçar a nossa vida em coisas que nada interessam e que muitas vezes nem prazer nos trazem. Michelle Yeoh mostra a sua versatilidade como dona de casa desesperada, mãe galinha, estrela de cinema, perita em artes marciais ou salvadora do mundo, revisitando o seu passado no cinema enquanto nos emociona ou discute o significado da vida com Joy, interpretada por Stephanie Hsu, substituindo Awkwafina à ultima hora e mostrando estar à altura em termos cómicos e emocionais. Mas é Waymond, o marido, interpretado por Ke Huy Quan (de regresso 20 anos após o seu último crédito como actor) a maior surpresa por vê-lo com 50 anos numa épica luta de artes marciais em plena repartição de finanças. No entanto é a sua voz, o seu sorriso contagiante (igual desde os tempos de Indiana Jones/Goonies) e a sua sensibilidade e simpatia que o tornam o coração palpitante desta história e que, em última instância, acabam por precipitar a conclusão numa “viagem” que não queríamos dar como terminada.

All at Once

O estatuto de culto é garantido e do seu interior tira-se muito mais do que mero entretenimento para nos distrair durante 2h, que passam como se de 5 minutos se tratasse (todos sabemos que o tempo no multiverso funciona de maneira diferente certo?). O que o distingue e o eleva acima de qualquer uma das muitas ofertas que passam por entretenimento estes dias é o seu enorme coração e a imensa coragem em arriscar o falhanço completo. Esse caos encapsulado do multiverso Daniel´s e o constante “andar na corda bamba” tornam esta a aposta mais segura do ano para entretenimento com “E” grande.

5/5
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