Entrevista | Paulo Patrício – Realizador de “O Teu Nome É”

de Rafael Félix

Gisberta Salce Júnior fugiu da cidade de São Paulo para escapar a uma onda de violência direcionada à comunidade trans em território brasileiro. Mulher trans, viveu como sem-abrigo nas ruas do Porto onde se sustentava através da prostituição. Passaram-se 16 anos desde que foi raptada, torturada e violada durante 14 dias, culminando no seu homicídio às mãos de 14 jovens, todos menores, entre os 12 e os 16 anos, num edifício abandonado na cidade portuense.

O segundo documentário de Paulo Patrício chama-se O Teu Nome É (2021) e ouve a história de Gisberta em Portugal, pela voz de amigos/as e pela voz de dois dos jovens envolvidos no trágico fim dessa sua história em território luso. O Fio Condutor teve a oportunidade de entrevistar Paulo Patrício sobre o seu mais recente filme e sobre o impacto que pode trazer o reacender da memória do caso de Gisberta.

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Fio Condutor: De onde surgiu a ideia de fazer um documentário sobre o que aconteceu com a Gisberta?

Paulo Patrício: Hoje já não é assim, o turismo alterou muito as coisas na minha zona. Mas na época, via as minhas vizinhas – transexuais, entenda-se – subir e descer a rua, mas não as via a tomar café na esplanada ou a fazer compras no supermercado, como o resto da vizinhança. Estavam ausentes do espaço público. Isso levou-me a temas como discriminação e violência, só depois é que cheguei à Gisberta. No início, estava muito centrado na violência, em particular na questão do ponto sem retorno, mas com o tempo, e pergunta de uma das personagens, “como é que foi possível?!”, ajudou-me muito. O ponto de vista de cada personagem passou a ser mais importante.

FC: O caso da Gisberta é um dos demasiados casos de violência, discriminação e crimes de ódio cometidos perante a comunidade trans. Porquê, 16 anos depois, trazer o caso da Gisberta em específico e o que pode mudar com o reacender da sua memória?

PP: Não é apenas um caso de violência ou discriminação. Vejamos: a Gisberta era transexual, emigrante, toxicodependente, sem-abrigo e portadora do vírus da sida; uma parte dos miúdos vinham de uma instituição católica, para onde foram enviados pela tutela, os outros pertenciam a grupos sociais absolutamente marginalizados; a imprensa da época perdeu-se no uso de a/o, Gisberto/Gisberta, travesti/transexual; e para a justiça, tudo aquilo foi “uma brincadeira que acabou mal”. O caso representa, portanto, um falhanço redondo a todos os níveis.

O mais curioso, respondendo em particular à questão da memória, é que para uma certa geração o caso da Gisberta está muito presente, mas em sessões em escolas, percebi pelas perguntas que foram colocadas que há toda uma geração mais nova que desconhece o caso. Quanto muito sabem da polémica da atribuição do nome da rua e que aconteceu ali qualquer coisa horrível. Portanto, é importante reacender para não esquecer.

FC: Temos visto nos últimos anos alguns documentários a adotar o meio da animação, como Waltz with Bashir (2008) e mais recentemente Flee (2021). Qual foi o objetivo por trás da escolha do formato de animação?

PP: Suponho que tem muito a ver com a ideia de construir uma realidade em cima da realidade. Por outro lado, é olhar para a animação como qualquer coisa que não deve – nem pode – estar confinada apenas a algumas temáticas. Além destes dois pontos, o meio é transversal e chega a todo o tipo de audiências, sobretudo as mais novas.

FC: E foi sempre pensado como sendo uma animação ou foi algo que surgiu ao longo do processo de pesquisa no terreno?

PP: Seria um híbrido, imagem real e animação. Acontece que, tirando um caso, os entrevistados não queriam ser filmados. Isso levou a que tudo fosse feito em animação. Acrescento que as personagens que vemos não representam de todo as pessoas, nem as entrevistas aconteceram naqueles locais. Houve um trabalho intenso de criação e direcção de personagens, de resto, aquilo que parece 3D não o é, rotoscopia praticamente zero.

FC: Existiu mais recentemente uma escalada da discriminação perante a comunidade trans, sendo a presença mediática sobre o assunto cada vez maior e cada vez mais corrosiva. Qual é a importância de ter um filme como O Teu Nome É a integrar um festival como o Festival Política, numa era de desinformação e clickbaits?

PP: Pluralidade de vozes e pontos de vista. Os testemunhos que estão ali não servem para normalizar ou desculpabilizar o que quer que seja, servem para um melhor entendimento da realidade e contribuem para um debate mais alargado sobre o caso. Sem isso, não seria possível entender o falhanço das instituições e os buracos que existem na nossa rede social. Sem pluralidade, não há debate nem questões. Quem concentra e instrumentaliza os meios e as plataformas sabe disso, quem faz dos textos que assina um negócio, também.

FC: De um ponto de vista criativo, qual é a melhor forma de abordar/partilhar histórias trágicas como esta, sem ferir susceptibilidades e sem entrar no género exploitation? Que tipos de cuidados se deve ter?

PP:  Boa pergunta, infelizmente, a resposta não é fácil e ocuparia muitas linhas. As gravações originais têm material muito, muito duro e explícito, mórbido até. A minha regra é simples: não usar aquilo que não quereria ver como público. É uma mistura de bom senso, ética e pertinência. Apliquei essa regra nesta e na “Surpresa”, onde também é abordado um tema complexo, o cancro infantil.

FC: O Teu Nome É faz mais do que apresentar apenas o que aconteceu a Gisberta, entrando, através dos entrevistados, em questões relacionados com o preconceito ou a masculinidade tóxica. De que forma estas reflexões, até vindas dos próprios envolvidos nos acontecimentos, podem ajudar a mudar as mentalidades que originaram esta tragédia?

PP:  O cinema não muda o mundo. Com muita sorte, pode eventualmente mudar uma pessoa, porque se temos a cabeça redonda, não é para ter ideias quadradas. Nisso, o cinema pode dar uma ajuda.

FC: O teu filme anterior, Surpresa (2017) também foi uma animação documental. O futuro continuará a passar por este formato?

PP: A animação é um processo muito moroso e complexo. Às vezes gostava de saltar para outro, o meu problema é que gosto muito de tudo o que é desenho.


Entrevista conduzida por Rafael Félix
Fotografia de Douglas Rogerson

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As reflexões sociológicas e narrativas de violência e preconceito de O Teu Nome É estarão no Festival Política em Loulé, que irá decorrer entre os dias 22 e 24 de Setembro.

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