Entrevista | Miguel Dores – Realizador de “Alcindo”

de Rafael Félix

A edição sediada em Loulé do Festival Política vai decorrer entre os dias 22 e 24 de Setembro, um evento que irá reunir debates, palestras e a exibição de vários filmes que cobrem diversas perspectivas sobre o espaço político e social.

Um desses filmes é Alcindo (2021) de Miguel Dores, estreado em Outubro passado no DocLisboa e desde então tem vindo a ser exibido um pouco em todo o lado, desde o auditório da Faculdade de Ciências até à Associação de Moradores do Bairro do Zambujal. O documentário centra-se nos acontecimentos ocorridos na noite de 10 de Junho de 1995, quando um grupo de skinheads invadiu a noite lisboeta e violentou 11 indivíduos de raça negra, tendo um destes, Alcindo Monteiro, sido brutalmente assassinado em plena Rua Garret. 

Estes crimes trouxeram à superfície uma larga discussão, que ainda ecoa hoje, todos os dias, na imprensa e no discurso político, sobre a discriminação racial em Portugal, o passado violento e racista do colonialismo e o racismo sistémico que continua a persistir nas instituições portuguesas. Todos estes temas são discutidos em Alcindo (2021) e o Fio Condutor esteve à conversa com Miguel Dores para nos falar sobre o filme, o contexto social em que este foi criado e o impacto que o cinema pode ter numa futura mudança de paradigma no que toca à discriminação racial em Portugal.

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Fio Condutor: De onde surgiu a ideia de construir um documentário sobre o Alcindo Monteiro e os acontecimentos ocorridos em Lisboa durante aquele 10 de Junho?

Miguel Dores: Tenho apenas 32 anos, era uma criança quando o caso Alcindo Monteiro aconteceu. Já o conhecia esparsamente, mas quando aos 14 anos sou levado a primeira vez por amigos mais velhos ao Bairro Alto é-me contada pela primeira vez a história desta noite. Fiquei horrorizado. Durante a minha primeira juventude participei do movimento punk antifascista, fiz parte de uma banda, e para nós esta era aquela memória que não esquecíamos, nem perdoávamos. Até porque, ao sair à noite para o Bairro Alto, revisitávamos esta tensão social. Em 2019, voltava há pouco tempo de um período de imigração para o Brasil em que tinha assistido a um golpe e a um processo de neo-fascização da sociedade brasileira que resultou no triunfo eleitoral de Bolsonaro. Escolhia neste momento o meu projeto final de mestrado em Antropologia. O início do ano foi marcado por um período de higienização de figuras e discursos de extrema-direita, como a grande entrevista para a TVI do Mário Machado e a manifestação “Salazar faz muita falta” que lhe é sequente. Durante este ano, em que se elege André Ventura para a Assembleia da República, se constitui o Movimento Zero e se sucede o caso do Bairro do Jamaica, cimentam-se as bases deste filme. Uma elaboração em torno de um linchamento racial com 25 anos – não apenas como uma reativação da memória, mas como um campo de disputa social do presente.

FC: O filme estreou no DocLisboa quase há um ano. Na altura, com que ideia ficaram da receção ao filme?

MD: Foram cerca de 800 pessoas a povoar a Sala Manoel de Oliveira: académicos, artistas e produtores de cultura, organizações políticas, muitas pessoas não-brancas a quem esta história sempre impactou, e uma percentagem grande da família de Alcindo residente em Portugal. Realizámos o filme com muito empenho e procurámos trabalhar com a mais escrupulosa minúcia os aspetos narrativos e éticos do filme (em estreita colaboração com vários militantes e organizações da sociedade civil). Mas eu, resumindo, sou apenas um jovem aprendiz de antropólogo e lancei naquele momento o meu primeiro filme. Estava muitíssimo nervoso pela responsabilidade política daquele momento. O filme terminou com mais de cinco minutos de palmas, uma plateia de pé e a palavra de ordem “racismo, fascismo, não passarão!” a estremecer o Cinema São Jorge. Não poderíamos imaginar o melhor arranque para o documentário. Sobretudo porque, frente a tímida homenagem feita por Fernando Medina a Alcindo Monteiro no dia 10 de Junho de 2020 – sem qualquer expressão ou deferência públicas e, objetivamente, na ressaca do assassinato de George Floyd -, a estreia de Alcindo foi talvez a mais estrondosa homenagem da cidade de Lisboa a Alcindo Monteiro feita durante este quarto de século. O filme tem hoje um grande impacto na rememoração social do caso Alcindo Monteiro e no debate cultural sobre racismo em Portugal, apesar das discutíveis debilidades do documentário, mas naquela estreia não tínhamos qualquer forma de prever isso. Foi muito intenso.

FC: Sabemos que muitas vezes, principalmente a nível de documentário, os objetivos e a perspetiva vai sendo alterada ao longo do processo. Quando inicialmente imaginaram o “Alcindo”, já era um objetivo que se tornasse um filme que expõe cabalmente a forma como a discriminação racial está tão integrada nas instituições?

MD: Sem a articulação com um contexto histórico europeu de criminalização das migrações e de ascensão de projetos políticos nacionalistas – inclusive o primeiro grande resultado eleitoral de Le Pen dá-se justamente no dia a seguir ao assassinato de Alcindo -, o linchamento do 10 de Junho de Bairro Alto tornar-se-ia ininteligível. Por outro lado, esta é a primeira vez que o Ministério Público acusou alguém de genocídio em Portugal – um país que saia há duas décadas de uma guerra de ampla dimensão pela manutenção das suas colónias em África. Marracuene (1895), Pitdjiguiti (1959), Mueda (1960) Mocumbura (1971), Wiriamu (1972), Inhaminga (1973–1974) são apenas parte de uma galeria interminável de crimes portugueses contra a humanidade que nunca foram ao Tribunal de Haia. Ainda para mais, este genocídio acontece no Dia de Portugal – anteriormente Dia da Raça -, um dia amplamente associado aos projetos de continuidade colonial. Posto isto, o vulcão social que o caso Alcindo Monteiro representou é necessariamente revelador de um descompasso do poder, que não pode ser observado sem o movimento histórico de conjunto. Esta foi sempre a primeira premissa do documentário, que nunca se quis construir como um close up na culpa histórica de 17 jovens neonazis. Até porque esse seria o mesmo argumento racista que urdiram à época figuras como Mário Soares e Cavaco Silva, que pende para uma interpretação individualizada e psicopatológica deste linchamento. Desassociar o caso Alcindo Monteiro das ideologias Schengen e do colonialismo português serviria somente para interpretar o caso como um barbarismo ou um espontaneísmo juvenil, e não um gesto com um sentido social, associado a um sistema de ideias históricas. Era tudo o que não poderíamos fazer. Até porque Alcindo Monteiro está longe de ser a única vítima mortal do racismo em Portugal – e os assassínios feitos por instituições do estado gozam de muito menos comoção e solidariedade sociais.

FC: O passado colonial português ainda hoje deixa marcas na sociedade portuguesa, como vimos no caso do Bruno Candé. Alcindo será exibido em exclusivo para uma audiência escolar durante o Festival Política. Podem ser filmes como Alcindo que ajudam a mudar a narrativa, maioritariamente perante as gerações mais jovens?

MD: A luta antirracista e anticolonial é o que ajuda a mudar a narrativa. O filme procura ser um contributo nesse sentido. Obviamente julgo que a escola é o espaço em que se transmitem os legados da humanidade através das gerações e por isso é um elemento essencial. Saudamos a iniciativa do festival Política e nós mesmos já exibimos o filme em 6 ou 7 escolas na área metropolitana de Lisboa. Mas quando me interpelam sobre a necessidade de levar o filme às escolas lembro sempre as polémicas em torno do projeto educativo emancipador de Paulo Freire, e que este magistralmente desmascara, exigindo que não se pense a possibilidade transformadora da educação nem de forma mecanicista nem idealista. Sim, a escola pode ajudar à transformação. Mas se partimos do pressuposto que o racismo é estrutural, partimos necessariamente do pressuposto que este é fundador das estruturas de poder (educação, habitação, justiça, saúde, mercado laboral, segurança pública, etc). A escola não pode mudar tudo se todos os outros vetores estruturais lhe forem antagonistas. E o racismo, como sabemos, não é coisa de miúdos malformados.

FC: Na sequência da questão anterior, o colonialismo ainda é um tema que a escola ensina com a ideia do “bom colono” e o “povo conquistador”, ignorando as atrocidades cometidas em todos territórios onde passou, e também o papel dos portugueses na destruição de culturas nativas ao longo de séculos. Durante Alcindo são várias vezes feitas referências ao Ultramar, ao colonialismo e à forma como essa atitude se mantém. Achas que a chave para a mudança pode estar na forma como ensinamos a nossa própria História?

MD: Na sequência do que anteriormente disse não acho que a chave se encontra na forma como ensinamos a nossa própria História. É apenas um dos debates necessários, e por isso nos dedicamos a fazê-lo no filme. A chave encontra-se na desigualdade e na assimetria de poder vigentes. Colocar ênfase apenas no debate sobre a matriz simbólica dos problemas significa não colocar ênfase na materialidade dos mesmos no quotidiano das pessoas. Enquanto couber às pessoas negras apenas o trabalho super-explorado na construção civil ou nas limpezas, enquanto continuar a ser legal “não alugar casa a”, enquanto for permitida a legalização de partidos com cruzadas mediáticas contra inimigos públicos racializados, enquanto existirem desigualdades de direito entre portugueses e imigrantes, etc. – não será feita outra História.

FC: Faz-se referência a uma reportagem captada no rescaldo das leis implementadas em ’96 com alto teor de condescendência e romantização que os media faziam sobre a realidade da discriminação racial em Portugal. Ao longo destes 26 anos, mudou alguma coisa na atitude dos media perante esta realidade?

MD: Julgo essencialmente que não. Continuamos a reforçar um luso-tropicalismo que não se propõe a discutir nada em concreto. E que, aliás, serve como um rolo compressor de qualquer discussão sobre racismo além do paradigma da “maça podre” num jardim paradisíaco à beira-mar. Quem assume outro discurso sofre um atropelo furioso por parte de todos fazedores de opinião. Teria tanta facilidade a construir um acervo de imagens mediáticas de condescendência e romantização nos dias de hoje quanto tive nos anos 90, talvez até maior.

FC: Alcindo tem vindo a ser exibido em diferentes sítios, desde centros lúdicos, Universidades, Centros Culturais um pouco por todo o país, por norma em conjunto com espaços de discussão. Qual é a importância de levar este filme diretamente às pessoas e que feedback têm obtido dessas exibições?

MD: Fizemos este filme a pensar no debate público e não pretenderíamos furtar-nos ao debate quando este se tornou possível. Os feedbacks são muito diferentes de sessão para sessão, dependendo do tipo de público presente. Mas no geral registamos muito pouca rejeição ao filme, e muita comoção das plateias. Encontramos várias razões para o caso Alcindo Monteiro ser mobilizador de tanta comoção. Primeiro, Alcindo tornou-se publicamente conhecido como um sujeito discreto, afável, familiar, que provinha de um espaço social bastante diferente de um gueto étnico, com relações de trabalho estáveis numa oficina de mecânica no Barreiro. A sua identidade não foi às lentes demonológicas do gangsterismo, vista como possível atenuante moral de ações persecutórias. Depois, o tipo de crime. Se para as autoridades judiciárias o homicídio qualificado prevaleceu à tipificação de um crime ideologicamente motivado – genocídio, terrorismo, etc. -, trata-se objetivamente de um crime político de grande envergadura realizado em associação criminosa, com motivações raciais. Esta carnavalização da violência civil foi integralmente desqualificada por amplos setores da sociedade civil, ao contrário de casos como o do Kuku ou do Musso, marcados por uma grande ausência de debate público porque decorrentes da ação policial em bairros periféricos e, portanto, colocados num escopo de crime moralmente justificado pela “guerra ao crime”. Mas, também, a questão do espaço e do tempo escolhidos são relevantes. O epicentro da cidade de Lisboa e a escolha da efeméride de Portugal como palco de um linchamento racial colocam o caso Alcindo Monteiro numa situação geopoliticamente perigosa as reconstruções palacianas e solares dos mitos do império. É uma situação evidente de “O rei vai nu!”. O documentário, ao procurar sistematizar estas articulações, deixa as pessoas despidas também. Sabemos de vários casos de saída de espectadores da sala para chorar ou para vomitar. Este parece-nos um bom ponto de partida para um debate franco.

FC: O filme contém várias referências a atuações deficitárias e não raras vezes violentas por parte de instituições como a Câmara Municipal de Lisboa ou a Polícia. Sentiram nalgum momento algum tipo de preocupação perante as respostas ou tentativas de censura e desacreditação que podiam vir destas instituições?

MD: Não. A única coisa que recebemos por parte de instituições como a Câmara Municipal de Lisboa, entre outras, foi uma grande ausência de resposta aos nossos pedidos de apoio à produção.

FC: O filme abre praticamente com a confissão que “aquilo que começou como um documentário sobre uma memória tornouse um documento do presente”, à sombra daquilo que aconteceu com Giovanni, Bruno Candé, Claudia Simões e George Floyd. Na tua opinião pessoal, a realidade hoje é muito diferente do que aquela que era vivida em 1995?

MD: Sim e não. Dizia há pouco que sem a articulação com o contexto histórico europeu de criminalização das migrações dos anos 90 o caso Alcindo Monteiro tornar-se-ia ininteligível. Pois bem, o presente histórico português não pode ser compreendido sem um cenário de ascensão de políticas de extrema-direita, expresso tanto nos governos Trump e Bolsonaro, como nos triunfos nacionalistas em países europeus como Ucrânia, Hungria, Itália, Áustria e República Checa. Nas eleições legislativas de 2019, marcadas pela ascensão de novos partidos, é eleito o deputado André Ventura pelo recém-criado Chega – obviamente articulado com este espectro político neofascista. A partir desta eleição o espaço político português é inundado por polémicas racistas e xenófobas de forma constante. Em 2020, este contexto parece assumir tragicamente suas expressões mórbidas com os casos do Giovanni, Cláudia Simões, Ihor Homeniuk e Bruno Candé, que acompanham praticamente todo o período de rodagem do filme. Foi aqui que aquela questão que me colocaram acima sobre o desvio dos pressupostos iniciais do documentário mais ocorreu. O presente atropelou um primeiro guião de Alcindo, construído em torno de uma memória traumática dos anos 90. Trata-se aqui de entender como certas políticas criam trajetórias para uma base normativa de desumanização e, consequentemente, de suspensão moral do direito à vida e à integridade física. Mas no paralelismo que estabelecemos no filme entre estes dois momentos históricos há aspetos que nunca abandonaram a sociedade portuguesa, como o abuso e assassínio policiais nos “bairros problemáticos” e nas prisões. E há também aspetos muito diferentes. Os projetos neonazis nasceu em Portugal como afirmações identitárias violentas que giraram em torno de um partido eleitoralmente inexpressivo – o MAN -, e o sentimento de ameaça branco é hoje fundamentado por discursos de supremacia contribuinte aproximados ao projeto político do Chega, que é um partido com amplo assento parlamentar e apoiado por franjas variadas da sociedade. Apesar de se tratarem de expressões diferente, os fenómenos mórbidos do capitalismo estão aí e são preocupantes.

FC: Durante os últimos anos a imprensa e o discurso político encarregaram-se de oferecer diferentes respostas à pergunta “Portugal é um país racista?”. Achas que Alcindo pode ajudar a responder a essa pergunta?

MD: Não tenho a certeza. O filme passa um pouco ao lado desse questionamento porque nunca põem em causa se Portugal é racista ou não. Seria para nós uma banalidade inocente entrar nessa discussão. Portugal foi o primeiro país a fazer uma viagem transatlântica com pessoas escravizadas e foi responsável por 40% da escravização transatlântica (falamos, apenas, do fenómeno social que é considerado o marco do racismo moderno). Foi também por portugueses que pela primeira vez, em crónicas, se escreveu as palavras “branco” e “negro”, associadas a classes diferentes de pessoas. É o mais duradouro projeto colonial da história, terminou com uma guerra de amplas proporções, e nem 50 anos passaram do seu fim – sendo todos estes anos acompanhados por intensas recomposições migratórias das classes trabalhadoras no eixo ex-colónias/ex-metrópole. Se tem idealistas que, frente a estes factos, preferem continuar a discutir a sociedade portuguesa com base em pressupostos salazaristas, não tenho a certeza que o filme os ajude. Mas julgo que o filme pode ajudar a compreender o racismo como uma estrutura de poder, não como um comportamento preconceituoso individual.

FC: Alcindo já está cá fora. Há mais projetos semelhante a estes planeados para o futuro?

MD: Há sim. Mas falta comer muito chão para poderem sair a público umas ideias soltas que não comprometam o seu resultado desses projetos.

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Entrevista conduzida por Rafael Félix
Fotografia © Clit Awards

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