Elvis (2022)

de Rafael Félix

Esta produção de Baz Luhrmann foi das primeiras a parar devido ao Covid-19 num já longínquo 2020. No entanto, ao vermos o frenesim de Elvis, a explodir em cor, música e suor, fica mais do que claro que não havia vírus, inundação ou catástrofe apocalíptico que pudesse parar toda a energia elétrica contida nestes 153 minutos de excesso e romantismo.

A história de Elvis Presley (Austin Butler) é contada do ponto de vista do Coronel Tom Packer (Tom Hanks), o seu agente e promotor que o ajudou a atingir o estrelato icónico, mas também o responsável pelo declínio da sua carreira, cortando-lhe as asas que o levariam a palcos mais ambiciosos em prol do seu próprio benefício financeiro. Prendeu-o numa “gaiola dourada”, como o próprio Elvis diz a certa altura.

Elvis não tem a capacidade – nem tenta, em bom abono da verdade – de entrar particularmente a fundo na mente do Rei do Rock n’ Roll, como fez por exemplo Dexter Fletcher em Rocketman (2019), mas também não é uma caricatura zombificada do seu protagonista como foi o terrível Bohemian Rhapsody (2018). Em vez disso, Luhrmann sabe perfeitamente o filme que está a fazer – uma biografia musical por dentro e por fora – e é em tudo melhor por isso. O foco está no espetáculo, a loucura e na irreverência da pessoa em cima do palco, a procurar-se a si próprio num meio necrófago onde todos se mantêm por perto à procura de um pedaço da carcaça.

A nuance da história ser contada pelo Coronel, um charlatão e um narrador muito pouco fiável, não é um formato que seja bem-sucedido, e Tom Hanks também não foi a escolha mais feliz, apesar de se esforçar bastante para dar algum conteúdo a uma personagem invariavelmente pobre. Porém, Luhrmann não dá um segundo para pensar nisso, como se acreditasse que se o filme der tempo suficiente ao espectador para pensar no que está a acontecer, rapidamente a fantasia se quebra e expõem-se as fissuras e fragilidades narrativas presentes em Elvis. A primeira hora é quase sufocante do quão frenética e incessante se torna a velocidade que a narrativa e a montagem adotam, tornando-se, demasiadas vezes, incompreensível perceber em que ponto está a carreira da personagem titular ou qual é o seu estado mental em relação à sua ascensão ao topo da música americana.

Depois disto, o filme acalma e passeia por um greatest hits de Elvis Presley, desde o seu regresso à ação no Natal de 68 às suas primeiras performances no trágico Hotel International, e é nestes momentos que Austin Butler mostra o porquê de ter sido o escolhido para o papel e o porquê de ser o grande destaque desta produção gigantesca. O ator de Once Upon a Time in Hollywood (2018) é absolutamente brilhante a captar a sensualidade, a voz, o olhar e a fisicalidade de um Elvis que se sentia tocado e possuído por um espírito divino que atuava sobre ele, e isso fica plenamente claro em cada canção, desde Hound Dog a Suspicious Minds, em que este, alagado de suor e atitude, se mexe, abana, dança e contorce com um brilho brincalhão e confiante nos olhos de quem sabe bem o poder que a sua voz – e ancas – contém.

Há uma tentativa muito graciosa de pintar Presley, independentemente do ponto em que estivesse da sua carreira ou dos excessos cometidos, como um homem que amava os seus fãs e que trabalhava incessantemente para lhes dar tudo aquilo que eles esperavam de si, até isso acabar por ser a sua sentença de morte. Normalmente este tipo de retratos deixa um gosto amargo na boca, pela sua previsibilidade e sobre-romantismo de histórias muito pouco românticas. Porém Elvis e o seu ritmo galopante pela vida de um miúdo que, de uma forma ou de outra, esteve sempre com o coração no sítio certo, seja na sua posição política ou artística, faz por merecer o sentimentalismo trazido numa ponta-final um pouco mais genérica, mas não menos triunfante, de um dos maiores ícones da história da música.

Não é o filme mais profundo que podia ter sido, mas a cacofonia de performances montadas por Luhrmann e a intensidade de Austin Butler são mais do que suficientes para fazerem valer o preço desta biopic excessivamente longa, excessivamente luminosa e quase excessivamente charmosa para seu próprio bem, em que o tom agridoce com que nos deixa se deve ao retrato de um artista ao qual nunca permitiram voar, impedindo-o de ser tudo aquilo que ele quis ser. Felizmente, a história não esqueceu.

3/5
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