Doctor Strange in the Multiverse of Madness (2022)

de Rúben Faria

SEM SPOILERS

Algum multiverso, pouca loucura

A nova entrada do universo Marvel mostra ser um ponto importante nesta enorme franchise, por vários motivos: é o oficializar da porta aberta à maluqueira do multiverso; é o regresso de Sam Raimi à Marvel e a chegada de um auto-proclamado “filme de terror” a este grupo; e, mais importante ainda, é talvez um ponto de aviso para a Disney começar a ter cuidado com as expectativas que deixa os fãs criarem por si próprios.

Doctor Strange: In the Multiverse of Madness é a sequela muito aguardada e já com o seu devido tempo (o primeiro saiu há quase seis anos), do feiticeiro mais charmoso dos arredores de Nova Iorque. Nesta aventura, Doctor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é presenteado com novas ameaças provenientes de outros universos e terá de se aliar tanto a antigos como novos companheiros para conseguir estabelecer alguma paz no cosmos. Esta é basicamente a sinopse possível sem arriscar estragar nada a ninguém.

A questão pertinente para este filme é a expectativa que se tem para com o mesmo. Estamos numa era onde a internet permite que meras teorias sobre os maiores filmes se tornem trends e que moldem o que esperamos dessas mesmas obras. A própria Marvel provou tirar partido disso em Spider-Man: No Way Home (2021) com o intuito de ampliar o seu marketing através dos memes e das teorias da conspiração. Doctor Strange: In the Multiverse of Madness sofreu muito disso, principalmente no seguimento do filme do aranhiço e, por consequência, quem pode sofrer são os fãs. Muito simplesmente se esperam que se concretizem as mais loucas fantasias de fan service que foram cozinhadas nos últimos meses, então pode haver muita desilusão, mas se esperam apenas uma sequela para o feiticeiro de barbicha, juntamente com ramificações para o resto do universo Marvel, então pode ser que haja satisfação suficiente.

O maior problema deste filme é a sua tonalidade. A primeira cena parece retirada de um Spy Kids, pela qualidade horrível do CGI e do green screen. Estes aspetos melhoram um pouco ao longo do filme, mas com algumas cenas mesmo assim muito fracas e que continuam a fazer questionar como é que se aceita esta qualidade de efeitos quando há muito melhor por aí. Daqui para a frente somos introduzidos ao mundo que Sam Raimi conjurou nestes meandros da feitiçaria e ficção científica. É um cenário perfeito para toda a sua campiness, melodramatismo e energia. O problema é que Raimi não tem tempo para estabelecer estes seus elementos, pois o filme parece sempre apressado e com demasiado para conjugar em apenas duas horas.

Conseguimos sentir que estamos num clássico filme de super-heróis, a remeter ao início dos anos 2000 e a filmes como X-Men (2000) ou até mesmo Spider-Man (2002) do próprio Raimi. A banda sonora do veterano das comics, Danny Elfman, é um mimo para os ouvidos mas sem o poder de se tornar icónica, como muitos dos seus anteriores trabalhos. Conseguimos – e muito felizmente – sentir algum toque de Raimi e dos seus estranhos ângulos e maneirismos por trás da câmara, principalmente quando o filme decide apresentar os seus elementos de “terror” ou até algum “body horror“. Estes termos estão com aspas pois nunca decidem apresentar-se de forma concisa e total, limitando-se apenas a alguns movimentos de câmara e jump scares relativamente simples. Este enredo pedia um ambiente muito mais negro e sinistro, onde Raimi poderia trazer a sua assinatura de terror insano e comicamente bizarro, muito ao estilo do seu The Evil Dead (1981), mas mais uma vez notam-se as algemas da Disney em mais um cineasta muito peculiar e único. Se bem que – e graças aos céus – o humor cringe da Marvel não está muito presente neste filme, algumas cenas de ação parecem desnecessárias e os elementos visuais, bem como a montagem, entram em conflito no meio do estilo de Raimi e a típica formula que todos devem seguir nesta franchise.

No meio da azáfama do multiverso também há lugar para sentir os olhos da supervisão da Disney, pois uma história sobre estas viagens por terras infinitas são, por si só, um convite ao caos, mas neste filme sente-se em toda a sua volta uma rede de regras da Marvel que não podem ser quebradas e, por isso, quando o aleatório do multiverso chega, não tem o mesmo sabor porque vem diluído por algo fora do seu controlo.

Mesmo com este lado aleatório mais “preso”, a parte emocional desaponta bastante. Existem bons elementos, mas tematicamente o filme nunca sabe bem o que quer seguir nem onde se focar, deixando ao espectador uma sensação de confusão sentimental. Certas piadas e linhas de narrativa são quase abandonadas sem a sua devida conclusão e há certos twists no enredo que são abruptos e quase feitos às três pancadas. Apesar de Doctor Strange ter um arco de personagem definido, emocionalmente parece muito forçado e quem tem mais sorte nesta premissa é Scarlet Witch, interpretada de forma confiante por Elizabeth Olsen. Esta bruxa tornada Avenger tem o seu tempo para brilhar e é aqui que se encontra muita da força emocional do filme. Mas apenas com esta linha sentimental mais sólida, todas as outras interações e relacionamentos, acabam por se provar mais fúteis e quase aborrecidos. O guião está claramente em falha e a prova para juntar a estes argumentos é a presença de diálogo tão mau e piroso, que só é salvo pelo seu elenco muito competente.

Benedict Cumberbatch faz um trabalho sólido mas já nada surpreendente com o seu mítico herói e é agora acompanhado pela novata Xochitl Gomez que interpreta America Chavez – a nova aliada de Doctor Strange – numa performance agradável mas que ainda tem de merecer o seu lugar neste universo já muito povoado. Os veteranos Benedict Wong e Rachel McAdams, nos papéis de Wong e Christine respetivamente, fazem um trabalho coerente digno das mais fortes personagens secundárias. Mas o destaque vai mesmo para Elizabeth Olsen que assina esta personagem como sua e só sua, dando vida a novos arcos tanto de Scarlet Witch como de Wanda Maximoff, numa interpretação variada e complexa.

Esta é, sem dúvida, uma boa adição ao já muito avançado universo Marvel e um bom ponto de partida para tudo o que o multiverso nos pode trazer no futuro. É um filme com um enorme sentido de aventura e entretenimento, tal como os super-heróis devem ser, e que mostra brechas de brilhantismo fora da fórmula mais que batida. Tem as suas falhas, principalmente no tom e no lado emocional, que não estragam, de todo, esta experiência. No entanto, estamos num mundo onde existem Everything Everywhere All at Once (2022) e Spider-Man: Into the Spider-verse (2018), e por isso sabemos que é possível manter o lado pessoal e sentimental como base e ao mesmo tempo viajar para o mais extravagante que se pode imaginar.

3/5
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