Imaginemos que Marcelo Rebelo de Sousa decretava que no dia do seu aniversário, todas as escolas portuguesas deviam organizar uma festa em seu nome e, através de sorteio, os alunos eram responsabilizados por trazer determinados elementos festivos para a celebração, sob pena de punição física ou prisão. Este conceito distópico, que poderia perfeitamente integrar um episódio na série Ruído (2025)de Bruno Nogueira, certamente seria interpretado pela sua audiência como um sketch humorístico face ao distanciamento sociocultural entre a nossa realidade e a narrativa apresentada. Até ao momento, e especialmente no ocidente, a democracia lá nos vai protegendo de sermos chicoteados em praça pública por nos termos esquecido de levar pastéis de nata para a escola, contudo este não deve ser um dado adquirido como verdade histórica ou universal. Esta ideia que para nós, público ocidental, nos parece tão absurda e distante é uma memória marcante na vida do realizador Hasan Hadi que viveu em primeira mão o regime autoritário do Iraque nos anos ‘90, utilizando-a enquanto base para a criação da sua primeira longa-metragem que lhe conferiu o Caméra d’Or em Cannes em 2025.
The President’s Cake acompanha Lamia (Baneen Ahmed Nayef), uma jovem que vive com a sua avó (Waheed Thabet Khreibat) numa zona rural empobrecida durante o regime ditatorial de Saddam Hussein. A comida é escassa, o caminho para a escola é penoso e o sonho por um futuro diferente é eclipsado pelos desafios do quotidiano. Quando Lamia é sorteada para trazer para a sua turma um bolo para que todos celebrem o aniversário do seu líder, uma preocupação assola a jovem: como será ela capaz de angariar farinha, ovos e fermento, ingredientes tão inacessíveis para a sua condição socioeconómica? Para garantir a segurança, avó e neta partem para a cidade na tentativa de adquirir estes bens e fugir das potenciais represálias das autoridades.
Hadi mostra ser um cineasta preocupado com as dicotomias vividas em sociedade. Na sua curta-metragem Swimsuit (2021) é possível observar o contraste entre uma cultura dominante, o indivíduo e as repercussões sentidas por quem está à margem dessa hegemonia. Em The President’s Cake, o realizador estende os ângulos pelos quais analisa as tensões da sociedade, contrapondo o urbano e o rural, o estado e o povo, a censura e a liberdade. A narrativa vai acompanhando Lamia pela cidade e relatando o dia-a-dia de uma população que tenta sobreviver entre o conflito de duas forças que a ignora, o regime iraquiano opressor e a ameaça americana que vai fazendo sentir a sua presença no território.
O realizador constrói um retrato amplo da sociedade iraquiana, filmando oficiais, comerciantes e pedintes, levando o seu tempo a retratar as estratégias que cada um destes estratos sociais utiliza para garantir a sua sobrevivência. Há uma preocupação quase baziniana na construção da obra com uma estética realista que denuncia o autoritarismo e as injustiças do regime de Hussein. Destaque para a fotografia de Tudor Vladimir Panduru que, através de planos médios e longos consegue destacar, simultaneamente, a diversidade das diferentes classes enquadrando-as enquanto elementos do mesmo contexto, bem como o contraste da inexperiência e ingenuidade de Lamia perante a pobreza económica e moral de uma sociedade em rutura.
O cineasta escolhe manter-se perto das suas influências, incorporando elementos neorrealistas para enriquecer a sua visão. A aposta em atores não profissionais revelou-se frutuosa com a estreia exímia de Nayef, com a atriz a demonstrar em tela um leque de emoções notável que nos guia à medida em que a narrativa vai revelando o quotidiano deste dia ímpar no regime autoritário da época. Lamia é sucessivamente exposta às incongruências da sua sociedade, mas a alienação é tal, que o foco permanece no instrumento simbólico de dominação – o bolo de aniversário. Contudo, apesar de ser um mecanismo facilitador na compreensão das injustiças do governo iraquiano, o foco temporal no aniversário de Hussein, aliado à inexperiência de Lamia, não permite um debruçar mais detalhado sobre a crítica realizada ao sistema.
The President’s Cake denuncia as ramificações estruturais do autoritarismo contrastando as dificuldades do povo com as demonstrações de poder do seu líder. Um retrato cuidado e íntimo que equilibra eficazmente a angústia sentida no presenciar da injustiça com a leveza da ingenuidade infantil, alertando para a natureza destrutiva da ganância humana que vai canibalizando o seu futuro.
