The Great Flood de Kim Byung-woo é uma aposta Netflix com todos os ingredientes para atrair os fãs do tipo de produções a que a plataforma já nos tem vindo a habituar.
Uma história angustiante, de alto risco, cheia de efeitos especiais imponentes e semi-realistas, caras conhecidas do mundo de Squid Game e outros K-Dramas e K-Horrors populares, apelos mastigados a emoções pouco complexas e umas quantas sequências de tiros e violência pelo meio para pôr a cereja no topo do bolo.
No entanto, e como a maioria dos produtos que a plataforma streaming tem servido, o resultado é demasiado enjoativo, encruado, e com um paladar básico. Uma espécie de fast food de cinema de ficção científica.
A história começa com An-na (Kim Da-mi) a ser acordada pelo seu filho de seis anos, Ja-in (Kwon Eun-seong). Este quer convencer a mãe, pouco recetiva, a passar o dia a fazer a sua atividade favorita, nadar e mergulhar na piscina. An-na rapidamente repara na chuva intensa que começa a alagar as ruas em redor do arranha céus onde vive. Mais tarde, já depois de conversar com a sua mãe ao telefone e de preparar o pequeno almoço do filho, é surpreendida por uma camada de água, que entrara, através da janela, no seu apartamento do terceiro andar, sinalizando, assim, cheias severas e potencialmente mortais. Porque An-na trabalha para um importante centro de investigação de inteligência artificial, o seu resgate é impulsionado e auxiliado por Hee-jo (Park Hae-soo), um agente enigmático de uma organização humanitária.
Este set-up leva, inicialmente, ao tipo de peripécias que esperamos de um disaster movie. Enquanto cenário, o prédio traz uma profundidade importante à narrativa, sendo uma das escolhas mais acertadas do realizador-argumentista coreano, já experiente nos géneros da ação e thriller depois de filmes como Take Point de 2018 ou The Terror Live de 2013. Por um lado, cada andar funciona visualmente como uma representação clara dos sucessivos obstáculos a enfrentar pela protagonista, trazendo um sentimento de urgência muito tangível, algo indispensável neste tipo de filme. Por outro, cada apartamento e cada família que nele vive constitui uma mini-história que enriquece a narrativa principal, permitindo à protagonista, nas suas interações com cada elemento, exteriorizar e evidenciar a sua viagem emocional. Para além disso, cada um destes compartimentos traz um novo desafio, numa lógica de vídeo jogo cada vez mais prevalente em filmes de ação.
O primeiro ato do filme, partindo desta premissa, funciona. Assusta, comove, e agarra. É o que acontece na restante duração, introduzido por uma reviravolta forçada, que corta as pernas a The Great Flood, transformando-o de um filme de sobrevivência sólido num filme de ficção científica rocambolesco e tedioso. A tal lógica de vídeo jogo, que tem lugar no formato cinemático quando usada de forma equilibrada e bem adaptada, acaba por tomar conta do filme e arruinar por completo o seu ritmo. O resultado é repetitivo e arrastado, tentando ser intrigante, mas acabando por ser só parolo.
O seu maior crime, ainda assim, está na sua temática principal. Sem estragar as várias surpresas que o filme reserva para os que têm curiosidade de espreitar, The Great Flood propõe-se a explorar e refletir sobre as complexidades que unem e separam o ser humano da inteligência artificial. É um tópico do mais atual possível, mas, tal como ninguém tinha grande interesse em ver filmes sobre a pandemia em 2021 e 2022, também aqui a gritante contemporaneidade do tema acaba por prejudicar o impacto e o requinte da história. A abordagem carece da nuance e seriedade a que a matéria da inteligência artificial obriga, sendo usada apenas como uma artimanha sci-fi forçada e cliché.
Em contrapartida, aquilo que acaba por salvar The Great Flood de ser um falhanço total, feito para ser desfrutado apenas por aficionados da IA, é o retrato que faz da maternidade. Por entre as camadas excessivas de plot e CGI, a dinâmica partilhada por An-na e Ja-in surge como um núcleo emocional sincero, levantando questões pertinentes sobre a relação entre uma mãe e um filho, os seus limites e as suas capacidades ímpares de amor e superação. A figura da mãe desdobra-se, aliás, em várias outras iterações, incluindo a mãe galinha de An-na, a mãe ausente de Hee-jo, a colega de An-na que tem uma filha e uma residente do prédio que dá à luz em plena inundação. A partir destas várias realidades, cada uma com as suas particularidades, o realizador Kim consegue pintar uma imagem forte e completa sobre o amor materno, sem cair na armadilha do moralismo.
The Great Flood é medíocre. Entretém só mais ou menos, faz pensar só mais ou menos e emociona só mais ou menos. Apesar de desenvolver bem os seus dois protagonistas e a relação entre ambos, o enredo que os rodeia é chato e dependente de truques visuais e narrativos que, tal granulados coloridos sobre um bolo mal amanhado, tentam, sem sucesso, esconder as suas fragilidades.
