Crítica | Rental Family (2025)

de Leonel Menaia

O fenómeno das rental families surge no Japão no início dos anos ‘90 como resposta à necessidade de preservar uma imagem social impecável e corresponder a expectativas cada vez mais rígidas numa sociedade marcada por uma cultura laboral exigente e por níveis crescentes de solidão. Empresas rendem-se ao capitalismo tardio ao fornecerem atores profissionais para interpretar familiares, amigos ou parceiros em eventos familiares, sociais, de trabalho ou até situações íntimas do quotidiano. Estas relações artificiais levantam questões sobre a crescente mercantilização das relações humanas e sobre um modelo de sociedade onde a aparência pesa mais que a realidade.

Phillip (Brendan Fraser) é um ator americano realocado no Japão, solitário e com dificuldades em arranjar trabalho, depois de ter participado em alguns anúncios de publicidade foleiros. Tudo muda quando o seu agente lhe arranja um papel peculiar: aparecer num funeral como “americano triste”. Que o funeral fosse encenado não surpreende, mas o “morto” não está muito preocupado em parecer morto, já que tudo serve apenas para lhe alimentar ego. Após o sucesso moderado da sua prestação, Phillip é convidado por Shinji (Takehiro Hira) a integrar uma empresa de rental family — pelos vistos, o papel de americano é bastante requisitado.

Depois de alguma hesitação, e após a sua primeira interpretação bem-sucedida como falso marido de uma mulher que se quer afastar da família conservadora para poder viver com a sua companheira, Phillip passa a alternar entre vários papéis. Torna-se o pai de Mia (Shannon Gorman) para melhorar as suas hipóteses de entrar numa escola; o jornalista americano que entrevista Kikuo (Akira Emoto), um antigo ator japonês famoso; e o amigo de um homem anti-social. Estas interpretações, além de preencherem um vazio na vida das pessoas que acompanha, acabam também por ocupar os espaços vazios na vida de Phillip, seja o de filha, de pai ausente ou simplesmente de amigo. E se ainda restassem dúvidas sobre a solidão em que vive, a única pessoa com quem mantém contacto fora do trabalho é uma prostituta, o que mostra que até as suas relações sexuais são apenas transações.

Mas a linha entre ficção e realidade é ténue e estas interpretações mexem com as vidas destas pessoas, tornando-se demasiado reais para ambos os lados. Isto nota-se sobretudo na relação de Phillip com Mia e Kikuo, que deixam de ser apenas uma conveniência para efeitos sociais e evoluem para algo que se aproxima genuinamente de uma relação de afeto. Outro bom exemplo é Aiko (Mari Yamamoto), colega de Phillip e de Shinji, responsável pelo chamado “serviço de desculpas”. Ela ajuda maridos infiéis ao interpretar o papel de amante e ao assumir toda a culpa, minimizando as consequências para eles. Ao colocar-se neste lugar de vulnerabilidade, acaba muitas vezes por ser injustamente agredida pelas mulheres dos maridos que tenta proteger.

O filme utiliza as relações de Phillip para explorar a componente dramática e emocional, conquistando-nos com as interpretações genuínas de Brendan Fraser, Shannon Gorman e Akira Emoto. Mas é quando começa a tentar desafiar a ética do conceito de família de aluguer que nos perde, sendo muito hesitante e incapaz de se posicionar. Chegamos até a desejar que o filme fosse mais sobre Aiko, cuja história expõe mais a complexidade moral e a violência emocional deste sistema, especialmente aplicada a mulheres. Mas a própria quase não tem espaço, num filme que prefere agradar forçosamente o seu público, ao entreter e levar-nos às lágrimas, do que realmente aprofundar a sua crítica a um conceito profundamente desumanizante. 

São deixados de fora vários ângulos importantes: a dependência emocional de quem usa este serviço (o que acontece quando alguém se apaixona?), as consequências sociais para quem recorre ao serviço e sustenta a própria vida numa mentira, a ausência de redes de apoio que tornam esta indústria necessária ou até a despersonalização dos próprios atores, obrigados a assumir várias identidades ao longo dos dias. É frustrante porque o filme até parece reconhecer os problemas destas empresas, mas escolhe olhar para o lado e enfiar a cabeça na areia, já que até a crítica apresentada é deixada sem consequências, ficando a impressão de que também fomos manipulados pelos atores a acreditar que não existe qualquer problema com este conceito.

Rental Family é um filme divertido, que consegue puxar pelas nossas emoções e que vai certamente agradar o seu público, mas quanto mais pensamos nele, mais sentimos que oferece muito pouco, sobretudo tendo uma ideia tão interessante nas mãos. O seu foco está nas relações, mas é demasiado ingénuo na sua abordagem, especialmente quando consideramos as consequências do uso deste serviço numa sociedade já marcada pela solidão, pela pressão social e pela mercantilização de todas as formas de afeto. 

2.5/5
0 comentário
1

Related News

Deixa Um Comentário