“Querido Pai Natal,
este ano quero como prenda um filme de terror que seja igualmente divertido, criativo, com um humor inteligente e peculiar, acompanhado de uma boa dose de macabro e absurdo. Na época natalícia não gosto de ver filmes lamechas ou em que só acontecessem coisas bonitas, eu quero é estar no quentinho da minha sala, com o calor da lareira a bater-me nas costas, acompanhado de uma boa caneca de chocolate quente e uma manta no colo, enquanto lá fora faz um frio de rachar.
Gosto muito do Silent Night, Deadly Night (1984), do The Thing (1982) do senhor realizador John Carpenter e do Krampus (2015), por isso se me puderes trazer algo que consiga juntar um pouquinho de cada um deles, então seria a prenda perfeita.”
Se um cinéfilo escrevesse esta carta para o Pai Natal, sem dúvida alguma receberia o filme Rare Exports, ou então receberia olhares preocupados da sua família por estar na idade adulta a escrever uma carta ao senhor da Coca-Cola.
Ora, para que não se coloquem nessa situação, apresento-vos o filme que certamente passará a fazer parte das vossas escolhas para revisitar em anos vindouros. É uma história mais escura, seca, irónica e deliciosamente mal-intencionada que as que normalmente passam na televisão nessa época, com um Pai Natal sem açúcares adicionados e sem misericórdia, saído diretamente do humor nórdico, onde em qualquer situação tudo é estóico.
Realizado por Jalmari Helander, Rare Exports passa-se numa Finlândia rural, desolada e coberta de neve até às orelhas, onde um miúdo e o seu pai vivem numa relação simples, dura e honesta, reflexo do estilo de vida e ambiente que os envolve. Os sentimentos existem, a inocência infantil e o pesar adulto, mas não há aqui discursos e dramatização exagerada sobre isso. Aqui, pai e filho comunicam mais por gestos, olhares e reações do que propriamente por abraços ou grandes declarações. É afeto coberto de várias camadas de resiliência e sobrevivência, mas que não deixa de emitir um certo calor através do ecrã.
A premissa do filme é genial na sua simplicidade perversa: a ganância capitalista delapida uma montanha em busca de algo precioso até que descobre mais do que estava previsto. Desconfianças entre dois lados de uma fronteira nos confins do planeta despontam, e claro, no meio disso tudo, um idoso nu de compridas barbas brancas a vaguear pela floresta. Lentamente percebemos que estamos num universo no tom dos contos dos irmãos Grimm, e caímos num cruzamento de duas realidades: a de contos que foram inventados para assustar as crianças e convencerem-nas a portar-se bem, e a outra, a dos adultos que talvez se tenham convencido a si próprios que seria essa a justificação, para não pensarem o quão indefesos estariam caso fosse tudo verdade.
E é aqui que Rare Exports brilha, ao pegar numa época e evento tão universalmente confortável e “quente” como o Natal, e o virar do avesso sem nunca perder o controlo sobre o tom com que o faz. O humor, típico do cinema nórdico, é seco como um bacalhau antes de demolhar, mas certeiro. Não há gargalhadas tresloucadas, há sorrisos sinceros e também nervosos, aqueles de quando pensamos “isto é tão errado… mas opah, é tão bom”.
Visualmente, o filme é bem trabalhado, de forma minimalista, mas acertando em cada detalhe, até chegar aos pontos de explosão… literalmente, com o reconhecível estilo cativante que Jalmari viria a invocar doze anos mais tarde, com o popular Sisu (2022), também protagonizado pelo ator Jorma Tommila.
Rauno Kontio (Jorma Tommila), o pai, é aquele arquétipo nórdico de homem prático, silencioso e emocionalmente fechado. É um pai que ama, mas não sabe muito bem como o demonstrar. Pelo contrário, essa contenção emocional torna as suas decisões ainda mais fortes. Aqui não há grande empanturrar de arcos exageradamente dramáticos, há pessoas reais a reagir a situações absurdas com uma seriedade absoluta de forma a que sobrevivam a mais um desafio na vida.
Já Pietari (Onni Tommila), o filho tanto na ficção como na realidade, não é a típica criança de cinema que verbaliza tudo o que sente e com expressões exageradas. É natural e genuíno, muito mais observador, desconfiado, e cresce aos nossos olhos à medida que percebe que o mundo adulto nem sempre sabe o que está a fazer. A sua curiosidade não é propriamente inocente, é instintiva, o que encaixa perfeitamente no tom do filme.
Com este elenco não há histeria coletiva, não há longos debates morais, há ação direta, adaptação e uma lógica interna que neste mundo faz todo o sentido. Este filme é um exemplo perfeito de como personagens bem trabalhadas não precisam de longos diálogos e cenas criadas para lhes dar foco, apenas de coerência e uma forte dose de genuinidade. A estas personagens junta-se a neve infinita, os enquadramentos estáticos, o silêncio pesado, com o todo a contribuir para uma sensação constante de isolamento e possível ameaça, mesmo quando nada está a acontecer. É um terror construído num certo vazio frio, na espera, mas pleno de momentos que nos transportam para um The Thing, mas com o Natal como fio condutor.
Rare Exports surge depois da sua versão como curta-metragem, Rare Exports Inc. (2003) ter tido sucesso no panorama internacional, levando o realizador a querer explorar a sua história como longa, isto numa altura em que o terror independente começava a recuperar a criatividade depois de anos dominados por remakes e torture porn.
Ao lado de filmes como Let the Right One In (2008) ou Trollhunter (2010), este é mais um exemplo de como o cinema nórdico consegue pegar no fantástico e tratá-lo de forma mais séria, cheio de ironia e uma forte identidade cultural sem ter de explicar tudo, identificar emoções, ou pedir desculpas.
Aliás, é impossível não notar um detalhe curioso nesta obra, não aparece qualquer mulher nesta história. Não é por descuido, mas sim por coerência e maior vincar deste mundo que retrata: o mundo masculino, frio, isolado, e quase primitivo. É um universo onde as relações são diretas, tentam-se resolver os problemas com ações, mesmo que precipitadas, e ninguém perde muito tempo a verbalizar o que lhe vai na alma.
Rare Exports não é um filme para toda a família, mas sem dúvida alguma é um filme sobre família. Fala sobre responsabilidade e consequências, e dá aos fãs do cinema de terror algo fantástico e com piada para ser aquele leve amargo que tão bem complementa toda a doçaria abundante na época.
