Crítica | Oh, Hi! (2025)

de Antony Sousa

Oh olá, não vos vi aí, desculpem! Mas já que aí estão, tenho todo o gosto em escrever-vos sobre o filme Oh, Hi!, de Sophie Brooks, que consegue ser absurdo, pertinente, provocante, inteligente, engraçado e cativante ao mesmo tempo! Se esperam uma comédia romântica podem tirar o unicórnio da chuva, aliás tirem tudo da chuva e procurem confiar nas palavras desta opinião ao invés do trailer para tomarem a decisão de ver ou não o filme, porque quanto menos puderem antecipar o que acontece a seguir, mais divertida se torna a experiência.

Isaac (Logan Lerman) e Iris (Molly Gordon) partem para uma escapadinha num lugar perfeito para um casal apaixonado. Contudo, o que parecia um sonho toma contornos de pesadelo alterando todos os planos de Iris, após Isaac confessar um segredo desconcertante.

Desde o princípio somos seduzidos pelo charme do jovem casal de protagonistas, que emanam química até não dizer chega, porque não queremos parar de os ver juntos, levando-nos neste embalo inicial propositado que nos deixa vulneráveis o suficiente para sentirmos o golpe ao mudar da página. Quando somos atingidos pela dura realidade de que talvez este não seja o tipo de filme que estávamos à espera, a confusão assume o controlo dos nossos pensamentos e várias hipóteses surgem de rompante. Isto vai virar filme de terror? Afinal é romance, mas com uma grande volta pelo meio? Ou será que vai ser daquelas comédias que acabam e fazem-nos questionar o que acabámos de ver? 

Nesse instante ficamos exactamente onde Sophie Brooks e Molly Gordon (argumentistas do filme) nos querem, a tentar adivinhar o que se segue, sítio esse de onde não saímos até ao final. Nada neste argumento é escrito por acaso, nota-se um cuidado permanente em enviar uma mensagem sobre novas relações e o processo de dating, usando humor para o fazer, por vezes a roçar o nonsense, porém sempre consciente e provocatório. Não existem lados certos, apenas a exposição de diversos dilemas associados ao acto de conhecer pessoas com a intenção de iniciar uma relação. A frustração da síndrome do paraíso precoce, que nos deixa crentes de estarmos perante a primeira relação sem defeitos no planeta, mesmo que ainda estejamos a conhecer a outra pessoa. 

O erro da comunicação selectiva, que nos faz dizer apenas o que achamos que a outra pessoa vai gostar enquanto do outro lado recebemos o mesmo tratamento, com o resultado a ser um agrupamento de mal-entendidos. Sem esquecer a acumulação de medalhas de participação, que nos cega o discernimento, não nos permitindo aceitar que pelo facto de estarmos fartos de tentar isso não significa que a próxima pessoa venha a ser a tal obrigatoriamente. Sair e ir a encontros, conhecer alguém e darmo-nos a conhecer requer paciência, alguma coragem e sobretudo sentirmo-nos bem sozinhos, não vivermos na ânsia de encontrar a pessoa ideal, ou ainda pior ligarmos o nosso bem-estar à busca pela alma gémea. Quando tal acontece existe uma dependência com o que não é real que nos impede de estarmos preparados para o próximo passo. Todavia, potencia histórias que podem dar em filmes e séries, a perda de uns pode ser o ganho de muitos.

Sendo verdade que o guião é basilar para que o filme não nos seja indiferente, a razão principal para que o mesmo resulte é o trabalho exímio do elenco. Sem esse entendimento absoluto do que lhes era exigido todo o enredo poderia mesmo passar a linha ténue entre o original e o estranhíssimo. Iris e Isaac podem não ser o par perfeito, mas Molly Gordon e Logan Lerman são-no certamente! Electrizante cada cena que têm juntos, atraem-nos tanto pelo lado sedutor do casal como por toda a roupa suja que é lavada entre os dois. Há algum tempo que Logan estava a precisar de uma personagem assim, nos antípodas do que lhe vimos em Perks of Being a Wallflower(2012) ou Fury(2014). Há uma confiança hipnotizante na sua performance que retira do nosso imaginário qualquer outro actor que achássemos poder encaixar bem neste perfil. Já Molly é um assombro, um vulcão que entra em erupção com a mesma facilidade com que se mantém sólida e imperturbável. Para juntar à festa Max (Geraldine Viswanathan) e Kenny (John Reynolds) formam um casal amigo que entra no tom do filme como se estivesse destinado a fazer parte desta história independentemente do desenrolar dos acontecimentos até lá.

A conexão de ambos torna credível a sua relação mais duradoura, servindo cada um deles o filme de maneiras diferentes: Max é a melhor amiga em quem Iris pode confiar até os segredos mais embaraçosos e que não a deixaria vivê-los a solo; Kenny é o namorado cool, que ama Max e apesar de ser mais racional, não vê outra hipótese que não acompanhar a sua amada, ainda que isso implique alguma loucura. A comédia passa a ser escrita em caps lock quando a dupla entra em cena, numa dinâmica a quatro que não perde fulgor. Sempre que nos acomodamos a um capítulo do enredo, o capítulo seguinte desafia-nos, liderados inevitavelmente pela imprevisibilidade de Iris.

Oh, Hi! não vai salvar o mundo nem mudar a vida de ninguém, e muito provavelmente não irá para o top 10 da lista de melhores filmes de muita gente. Ainda assim, por mais que não se lhe possa ser atribuída uma relevância enorme, tem pormenores deliciosamente orquestrados para nos satisfazer, é eficaz no seu humor constante, muito bem interpretado e foge da norma, sendo um filme que desde o seu título aos créditos finais não soa a uma repetição de uma repetição de uma repetição.

3.5/5
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