Do Taiwan chega um drama familiar no feminino, realizado por Tsou Shih-Ching na sua estreia a solo no seguimento de várias colaborações com o galardoado realizador americano Sean Baker. Left-Handed Girl acompanha as vidas de uma mãe, Shu-Fen (Janel Tsai), e das suas filhas, a rebelde jovem adulta I-Ann (Shih-Yuan Ma) e a adorável e espirituosa I-Jing (Nina Ye), quando as três decidem mudar-se para a capital, Taipei, para começar uma nova vida.
Shu-Fen abre uma banca de noodles no agitado mercado noturno da cidade, enquanto I-Ann se torna numa “betel nut beauty”, o nome dado às raparigas que usam a sua aparência sugestiva para atrair clientes e vender noz de bétele, uma fruta com propriedades estimulantes incrivelmente popular no continente asiático. Com visões diferentes para as suas vidas, as duas lutam para fazer face às despesas, originando conflitos e quezílias na sua relação de mãe e filha.
No entretanto, I-Jing ingressa numa nova escola, passa tempo com os avós, e entretém-se sozinha no meio da atarefada e barulhenta capital. É exatamente a geração mais velha dos pais de Shu-Fen que introduz, no filme, as componentes da tradição e da superstição. A primeira manifesta-se principalmente na adoração dos filhos em detrimento das filhas, impactando Shu-Fen e as suas irmãs, que são relegadas em favor de um irmão que nem perto dos pais vive. A segunda revela-se quando o avô de I-Jing a convence de que ser esquerdino é um pecado e de que a mão esquerda é aliada do diabo. A verdade é que, quanto mais I-Jing usa a sua mão do diabo, mais a realidade à sua volta se desmorona e corrompe, pouco a pouco, levando a criança a acreditar nas lendas do avô.
Aliás, a ideia para Left-Handed Girl surgiu precisamente de uma conversa entre Tsou e Baker sobre as represálias que a cineasta recebia do seu avô por usar a mão esquerda, motivando os dois a desenvolver um argumento e a procurar localizações em Taiwan logo no início dos anos 2010. Demoraram mais de uma década para conseguir financiar o projeto, mas a sinergia entre os dois criativos, com Baker a integrar a equipa também como editor e produtor, originou um filme igualmente doce e mordaz, em que as estéticas cinemáticas orientais e ocidentais se cruzam harmoniosamente e inspiram mutuamente.
O neorrealismo, estilo slice of life, a que Baker habituou os espectadores em filmes como The Florida Project (2017), Anora (2024) ou Tangerine (2015), marca presença também neste trabalho de Tsou, não fosse o filme filmado em iPhone tal como a arrojada longa-metragem de 2015 de Baker. No entanto, a realizadora taiwanesa traz uma sensibilidade feminina que combina perseverança, quietude e raiva, assim como uma visão asiática virada para a comunidade e para a família, que, mesmo com todos os seus problemas, continuam a assumir um papel absolutamente central na experiência humana. Estas duas facetas acabam por servir de antídoto para o cinismo e egoísmo inerentes à lente masculina e americana de Baker.
O cinema de Tsou brilha na forma como, a partir de uma história relativamente simples e de cariz geral, a realizadora monta uma representação da sociedade muito particular da ilha taiwanesa nos dias de hoje, onde visões liberais e emancipadoras das mulheres colidem com uma misoginia entranhada e violenta. Os diferentes cenários – do mercado, da casa das três protagonistas, da casa dos pais de Shu-Fen, e da loja de noz de bétele – representam vividamente as várias facetas de Taipei, quase como o caleidoscópio usado por I-Jing na cena de abertura, cujas imagens coloridas e fragmentadas constituem a sua primeira experiência da capital. A perspetiva inocente e mágica da pequena protagonista procura, ao longo de todo o filme, resistir às angústias e desilusões que assolam as vidas dos adultos. É uma posição frequentemente assumida por filmes liderados por crianças, mas que nunca perde a sua relevância e impacto pela forma como injeta vida e esperança num mundo cada vez mais niilista.
Os mais velhos preocupam-se com o dinheiro, o status, a infidelidade, a doença, as injustiças, e as superstições religiosas, mas para I-Jing, que corre pela cidade fora sem qualquer preocupação, o mundo é fascinante, livre, cheio de músicas das Mamamoo para dançar e animais curiosos com que brincar.
Left-Handed Girl é um filme pulsante, genuíno, completo e decididamente sincero que cativará aqueles que não conhecem muito acerca da realidade taiwanesa. Uma história de três gerações (quatro, se contarmos com a peculiar mãe de Shu-Fen) de mulheres e meninas que procuram, a todo o custo, trazer significado às suas vidas, mesmo quando tudo parece abafá-las.
