Saudades do Natal? A Netflix não perde tempo e nem precisa de esperar por dezembro para estrear novas tentativas de clássicos natalícios. A fórmula desta vez junta romance, drama, comédia e um assalto. Na teoria parece divertido, mas na prática a eficácia desta mixórdia depende sempre de vários factores…
Dois estranhos conhecem-se de forma inusitada e encontram pontos em comum suficientes para criarem uma aliança que visa assaltar o império de Maxwell Sterling (Peter Serafinowicz), um milionário sem escrúpulos. À medida que o plano de ambos vai sendo testado mais motivações são descobertas, aglomerando razões para atingirem os seus objectivos.
Todos conhecemos a expressão “Netflix and chill”, e a plataforma de streaming leva o lema a sério, produzindo filmes e séries que têm como principal propósito sentar as pessoas nos seus sofás a passarem um bom tempo, esquecendo preocupações do dia a dia e usufruindo de histórias já foram contadas vezes sem conta, só mudando pormenores e nomes de personagens. Jingle Bell Heist é mais um exemplo desta tendência, oferecendo num embrulho vulgar um cocktail de dramas clichê para justificar o enredo e intenções dos protagonistas, desde personagens sem qualquer tipo desenvolvimento que têm como única razão de existência lançar piadas em todas as suas intervenções para alegrar os diálogos; de antagonistas bidimensionais que servem de alvo fácil para nos unirmos ao duo pelo qual querem que torçamos independentemente das suas acções: e de planos pouco realistas, mas bastante convenientes para que a narrativa avance até ao ponto desejado pelos seus criadores.
Nada de novo será descoberto neste filme, o que não invalida que possamos querer apagar o lado do cérebro que tenta adivinhar o que vai acontecer a seguir e simplesmente sorrir em alguns momentos engraçados, sorrir noutros momentos ternurentos e entretermo-nos com cada página nova de cada obstáculo de Sophia (Olivia Holt) e Nick (Connor Swindells). Para ser justo, é possível vislumbrar os intentos de Amy McDonald e Amy Reed (argumentistas) para nos surpreender, já que as várias sequências óbvias conduzem a um twist razoável, atendendo às pequenas expectativas que o filme nos faz ter até chegarmos a essa cena.
Connor Swindells tem provas dadas, com porventura a personagem mais interessante e fascinante de Sex Education(2019-2023), revelando um naturalismo, uma subtileza, timing de comédia e uma vulnerabilidade contida incomuns. Vê-lo neste contexto, deixa-nos bem servidos, porque tudo aquilo que lhe é pedido para um Nick empático e resignado é alcançado com sucesso, no entanto é palpável a falta de mais sumo, sem responsabilidade do actor, até porque what ain’t on the page ain’t on the stage, se o guião não oferece é mais difícil surgir no ecrã. Ainda assim a química com Olivia Holt salva em parte as festas, pelo menos se estivermos dentro do espírito natalício, envolto em paz, prontos a perdoar. A Sophia da actriz americana acaba por ser posta à prova em comédia física, atingindo um nível aceitável para o que é expectável para este tipo de humor. Sem deslumbrar, o elenco cumpre, ficando a faltar substância para personagens importantes como o casal Sterling.
Jingle Bell Heist faz tocar os sinos com pouco entusiasmo e sem muita sincronização, porém tenta passar a mensagem de que coisas boas acontecem a boas pessoas, o que é bonito de pensar e não custa acreditar, mesmo que a vida nos ensine por vezes que tal pode ser ingénuo. Fica a expectativa de voltar a ver Connor Swindells num registo mais exigente, explorando as suas aparentemente infinitas capacidades. Termino por aqui, mas vou de seguida escrever este pedido ao Pai Natal. Pode ser que a Netflix leia.
