Crítica | Death of a Unicorn (2025)

de Pedro Ginja

Os unicórnios são um ser mitológico cuja origem é incerta, mas com inúmeras menções ao longo da história, como por exemplo na China, na antiga Grécia e em vários países durante a idade média. Era um símbolo de pureza e surgia normalmente associado à virgindade. No tempo moderno, as referências continuam principalmente no domínio da fantasia em diversos livros, com o destaque maior a recair na saga Harry Potter, mas igualmente ligado ao lado do bem, do puro e do imaculadamente branco. O senso comum, no entanto, diz-nos que os unicórnios não existem na vida real. E se, segundo Alex Scharfman, os unicórnios se materializassem na nossa realidade e deixassem o mundo da fantasia?

É com esta premissa que Death of a Unicorn nos agarra, trazendo a mitologia e as crenças sobre a criatura mítica para o mundo do cinema. A história acompanha Elliot (Paul Rudd) e Ridley (Jenna Ortega), pai e filha que viajam de carro rumo a uma casa de campo dentro de uma densa floresta. Durante o percurso atropelam um unicórnio que se atravessa repentinamente no seu caminho. Na chegada à casa de campo, propriedade de Odell (Richard E. Grant) o novo chefe de Elliot, a revelação do corpo da criatura desperta a curiosidade e a ganância de todos os presentes sobre as suas lendárias propriedades curativas.

O terreno não é fértil para argumentos, de imagem real, onde o unicórnio é tema central ou parte fundamental da narrativa. Apenas Legend (1985), filme esquecido de Ridley Scott, com um jovem Tom Cruise no papel principal e onde a criatura não passa de um símbolo de pureza e de meio de transporte para o herói. Estava por isso entusiasmado por conhecer mais profundamente estas belas criaturas pois este será, porventura, o primeiro filme em que o unicórnio e a sua mitologia são o ponto principal da narrativa. Todos a conhecemos quando se trata vampiros, zombies ou lobisomens, mas no caso dos unicórnios o caso muda de figura. O argumento tem, por isso, de perder algum tempo da sua duração a explicar os seus poderes, as suas fraquezas e o código pelo qual se regem. É inevitável a perda de ritmo na narrativa, que a transmissão desta informação acarreta, mas logo se questiona se era preciso a repetição constante quando o vemos, literalmente, no ecrã. Curiosamente no único momento em que se afasta de grandes explicações, e deixa o espectador sentir e interpretar o que se assemelha a uma trip mental após o toque no seu corno, acaba por ser esse o único onde verdadeiramente sentimos algo.

Este problema transporta-se também para o género que pretende ser, saltitando entre o drama, a comédia e o terror, com variados graus de sucesso. O drama fica claramente para segundo plano, ao estabelecer um relacionamento difícil entre Elliot e Ridley, após a morte da sua mãe, que piora a cada interação entre ambos, mas que acaba por ser “magicamente” resolvido, sem grandes explicações. Jenna Ortega é competente, como sempre, principalmente no aspecto dramático, mas parece num comprimento de onda diferente das restantes personagens. A comédia é, inesperadamente, o elo mais fraco considerando um elenco onde temos Paul Rudd, Tea Leoni e Richard E. Grant, conhecidos pelo excelente timing cómico, acaba por ser Will Poulter, como Shepard, o instável filho de Odell, a ter os melhores momentos, por vezes partilhando o protagonismo com Téa Leoni, liberta de amarras e do simplismo a que a maior parte das personagens é dotado.

O terror acaba por salvar o filme da eminente desgraça por revelar uma criatura, que embora criada por CGI, acaba por ter um B-Movie feel no aspecto e revelar uma personalidade intrigante, no seu misto de crueldade e empatia, mas não o suficiente para se levar muito a sério. O gore inspirado, e regado com muito sangue, é original e dá-nos bastantes momentos e mortes empolgantes. Uma ênfase maior neste aspecto, em detrimento da adição de uma agenda relativa à ganância corporativa, a uma sátira do mundo dos ricos e à moralidade dúbia da indústria farmacêutica, poderia ter focado mais o argumento no caminho do terror e diluir menos o que deveria ser a maior prioridade: manter o espectador entretido.

O selo A24 parece pesar – e de que maneira – neste Death of a Unicorn demasiado preocupado em ser profundo narrativamente e visualmente marcante, no entanto falhando na maior importante das missões – o entretenimento. Promete uma trip visual monumental no prólogo inicial, que é impressionante, mas nunca consegue o malabarismo de géneros que ambiciona. Valha-nos o gore de um unicórnio implacável e com especial panachê para mortes icónicas.

2.5/5
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