Crítica | Barry Lyndon (1975)

de Eduardo Sacadura

O Cinema é, pela proximidade à sua génese, uma arte que vive na sua infância. Esta constatação não é, de todo, uma provocação muito menos uma diminuição daquela que considero ser a mais bela expressão artística já concebida pela humanidade. A sétima arte conseguiu, em menos de dois séculos de existência, desenvolver uma linguagem própria e robusta, movimentos artísticos únicos e autores magníficos que a distancia plenamente das suas irmãs. Ainda assim, os diversos milénios de desenvolvimento sofridos, por exemplo, pela Literatura ou Teatro, facilitam a compreensão da relação íntima que o Cinema já vivia com as mesmas nas suas primeiras décadas de formação, permanecendo até aos dias de hoje. 

De Wiene (The Cabinet of Dr. Caligari, 1920), que íntegra na sua estética elementos da Pintura e Teatro expressionista, a Kurosawa (Throne of Blood, 1957), ao adaptar culturalmente Macbeth (1623) para o contexto do Japão feudal, estas interseções foram sofrendo transformações à medida que a sétima arte foi amadurecendo, possibilitando a reinterpretação narrativa e ampliando-a através do poder da linguagem cinematográfica. Stanley Kubrick destaca-se como uma figura central neste processo evolutivo e Barry Lyndon, é a obra que melhor trabalhou esta articulação.

Fascinado pelos romances carregados de sátira social de William Thackeray, o cineasta encontrou em The Luck of Barry Lyndon (1844), a base narrativa para o seu último filme da década de 70’. Tendo como centro da ação a Grã-Bretanha do século XVIII, a obra acompanha a vida de Redmond Barry (Ryan O’Neal), um jovem camponês no seu caminho para se tornar um nobre cavalheiro. Ao travar um duelo com um oficial do exército inglês que o obriga a fugir de casa, o jovem vê-se forçado a fazer uso da sua esperteza para sobreviver, passar pelos diversos estratos sociais da sociedade britânica e garantir uma vida de luxo sob o nome de Barry Lyndon.

Ao analisarmos a sua filmografia, é possível verificar um interesse de Kubrick pela figura do herói desconstruído. Obras como A Clockwork Orange (1971) ou The Shining (1980), ambas adaptações literárias, apresentam protagonistas inerentemente imorais ou que se transformam pelo contexto em que se inserem. Assim, Barry estará mais próximo de Jack Torrance do que de Alex DeLarge, mesmo não necessitando de elementos sobrenaturais para sucumbir aos seus impulsos mais nefastos. O’Neal entrega uma representação cativante e poderosa capaz de raptar para si a audiência e fazê-la torcer por furtos de identidade, adultério ou qualquer tipo de esquema ilegal para ver até onde este consegue ir. 

Ainda assim, Kubrick parece menos interessado em Barry que Thackeray, substituindo a narrativa enviesada do protagonista por uma narração em off mais objetiva, mas com um humor ácido que confere à obra uma agradável leveza que contrasta com uma estética maioritariamente mais formal e distante, suportadas por uma montagem pausada e uma mise-en-scène pictórica que se revela a grande força do filme.

O cineasta debruça-se na pintura de um retrato fiel desta sociedade aristocrata bretã. A procura incessante pelo realismo, leva-o a recorrer a iluminação natural, gravando sobre velas em cenas interiores e/ou noturnas necessitando de lentes fabricadas para missões espaciais da NASA a fim de capturar corretamente a exposição das cenas. Inspirado em pintores do rococó como Gainsborough e Watteau, em conjunto com o cinematógrafo John Alcott, o realizador consegue filmar um dos filmes mais belos já alguma vez realizados, através de um rigor técnico ímpar que aliado a uma sensibilidade criativa tal, atingem uma fotografia capaz de rivalizar com óleo em tela. Esta escolha artística denuncia uma certa atração no retrato da aristocracia e dos seus costumes com a narrativa a embalar-nos para os seus palacetes, utilizando Barry como janela para esta jornada entre povo, exército e nobreza. 

A estrutura fragmentada por capítulos que culminam num epílogo existencialista que rivalizaria Sartre, demonstra a aparente diferença e consequente dificuldade em transpor estes estratos em que a igualdade é apenas atingida na morte. Barry vai transitando de campo, mas apenas com recurso ao engenho e artifício, mascarando a sua identidade e transformando o seu comportamento para conseguir pertencer à sua nova classe. Existe quase um posicionamento goffmaniano nesta exposição de papéis e na sua permeabilidade entre ações para criticar não só a superficialidade das relações humanas, mas também para sublinhar a crise existencialista do seu protagonista, vítima do contexto em que se insere. 

Nesse sentido, Barry Lyndon apresenta-se como uma desconstrução da jornada tradicional do herói, retratando as virtudes e vícios de uma época que, apesar de temporalmente distante, se rasga dos livros e respira nos quadros para viver novamente entre nós.

4.5/5
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